Quando os ingleses inventaram o cavalo de corrida, à época por motivos puramente militares, sabiam que quem controlasse o mercado mundial de reprodutores, controlaria a arma de cavalaria, vale dizer, a mobilidade dos exércitos.
Não foi por outro motivo que compraram, ou simplesmente confiscaram, os melhores garanhões árabes e berberes originários do norte da África, do Oriente Médio, e do Levante. Ao cruzá–los com suas éguas de batalha (estima–se que cerca de 300 desses animais tenham sido utilizados no processo), deram origem ao thoroughbred como hoje o conhecemos.
Quando a raça puro–sangue d e corrida se fixou definitivamente através de Eclipse, Matchem e Herod, a excelência da cavalaria de Sua Majestade já era um fato estabelecido. Copenhagen, o cavalo de Arthur Wellesley (o famoso Duque de Wellington) na batalha de Waterloo – a quem o próprio Wellington credita parte do milagre de ter sobrevivido ileso aos três dias de cargas e fuzilaria que selaram a sorte e o destino de Napoleão – era neto de Eclipse (vide “The Mask of Command”, John Keegan, Penguim Books, 1987).
A partir desse instante, foi total e absoluta a dominação inglesa sobre esta arma no século XIX, e início do século XX. E como não poderia deixar de ser, sobre o esporte das corridas, leia–se, o turfe. Com a expansão do Império Britânico, a atividade dava os primeiros passos para transformar–se na poderosa indústria de nossos dias.
De Lord Derby a Robert Sangster
No primeiro quarto do século XX, um criador reinava absoluto entre seus contemporâneos: Edward, décimo sétimo Conde de Derby. De seus campos de criação, e usando relativamente poucas matrizes (máximo de 36 éguas de cria em 1916), saíram animais que revolucionaram o esporte nos dois lados do Atlântico, como Swinford (pai de Blandford), o pequeno Chaucer (descendente em linha direta de Saint Simon), o sprinter Phalaris (nove vezes vencedor entre 1.000 e 1.200 metros), mais o chefe–de–raça Hyperion, Pharos (pai de Nearco), Fairway, Sickle (origem de Native Dancer), Pharamond e Colorado.
No continente europeu, poucos ousavam disputar sua primazia. Nos EUA, até aquele momento, ninguém. E todos, sem exceção, se rendiam à evidência de que era na possibilidade de acesso ao impecável estoque genético reunido por Eddie Derby que residia a diferença entre sucesso e fracasso na atividade.
Nem Tesio, com sua obsessão pelos ganhadores do Derby Stakes (utilizou 27 deles em sua criação, no total de 121 coberturas), nem o velho Aga Khan, avô do atual, com toda sua fortuna, escapavam dessa realidade. Lord Derby e a Inglaterra eram os senhores incontestados do mercado mundial de reprodutores de seu tempo.
Gira a roda dos anos e duas Guerras Mundiais consomem gerações de europeus, transformando o continente em um monte de ruínas. Chegara a vez da América herdar a liderança da indústria. A partir da importação dos melhores sementais que seu dinheiro podia comprar, Arthur “Bull” Hancock Junior montou na Clairborne Farm, Kentucky, a primeira “estação de reprodutores” de que se tem notícia. E a maioria deles provinha da Europa, o berço do cavalo de corrida.
A partir de 1942, Hancock estaciona na Clairborne Farm o francês Sir Gallahad III (um filho do notável Teddy), além de Blenheim e Nasrullah, que lhe foram vendidos pelo Aga Khan assim que o conflito global se expandiu, mais o clássico Princequillo. O cruzamento das filhas deste último, com o brilhante e temperamental Nasrullah, está na base do movimento que iria modificar para sempre o panorama do turfe norte–americano.
Foi necessário que vários anos se passassem, até que um irlandês, então praticamente desconhecido do mundo do turfe, que amealhara sua fortuna pessoal a partir da exploração de loterias, vendesse seu negócio e entrasse na indústria do puro–sangue.
Em pouco tempo, ele se transformaria no maior mercador de cavalos das décadas de 1970 e 1980. Seu conceito de atuação era baseado em duas ambiciosas premissas: comprar não um, ou dois, ou os melhores potros Northern Dancer negociados em Keeneland, mas sim todos eles; fazê–los vencer as provas que dão fama e fortuna a qualquer animal e, depois disso, sindicalizá–los para a reprodução.
Para isso, Robert Sangster precisaria mobilizar enormes recursos, e ter a certeza de que seu projeto seria bem sucedido no teste supremo das pistas. Resolveu a primeira parte do quebra–cabeça, associando–se às fortunas européias da época na compra dos potros (Stavros Niarchos, Goulandris, Jean–Pierre Binet, Strauss, etc.); solucionou a segunda, entregando os juvenis arrematados a peso de ouro nos EUA àquele que é considerado um dos maiores treinadores de todos os tempos, o mestre Vincent O’Brien, conhecido como o Mago de Ballydoyle.
É desse período, o aparecimento nos programas de corridas do hemisfério norte de nomes como The Minstrel, Storm Bird, Golden Fleece, Be My Guest, El Gran Señor, Alleged, Caerleon, e vários outros, seguidos das milionárias sindicalizações que sacudiram a criação mundial nos anos de 1980.
O cetro de Lord Derby retornara às Ilhas, mas tinha mudado de mão. Agora, quem comandava o mercado mundial do puro–sangue e movimentava cifras astronômicas eram os “mercadores de cavalos”, de Ballydoyle, Irlanda.
Mas os tempos de predomínio de Robert Sangster não duraram muito. Sangster nunca fora um criador na acepção do termo, e estava nisso apenas para tentar ganhar mais dinheiro e se divertir (principalmente a segunda coisa). Como autêntico irlandês, era grande apreciador do bom whisky, andava sempre cercado por um grupo de amigos (e amigas, naturalmente) com os mesmos gostos pelos cavalos de corrida e a aventura da existência. Sua presença nas manhãs de Chantilly, antes do Prix du Jockey Club, ou em Paris, na semana do Prix de l’Arc du Triomphe eram sempre um festa. Dele se poderia dizer o que Neruda disse de si no outono da vida: “Confesso que vivi.”
E a ascendência da blusa verde e azul, boné branco, durou até o momento em que novos e desconhecidos atores começaram a ser vistos cada vez com maior freqüência nos leilões de Keeneland.
Eles vinham do outro lado do mundo, chegavam em seus enormes aviões decorados com tapetes e arabescos, traziam na alma a cultura milenar do cavalo, no coração a paixão pelas corridas, alimentavam doces lembranças de tempos imemoriais em que dominaram o mundo durante 700 anos, e no bolso a fortuna imensurável dos novos donos do petróleo. Eram os príncipes reais, os emires, sheiks e sherifes vindos do Oriente Médio, desde a Arábia Saudita aos Emirados do Golfo Pérsico.
Chegam os árabes
E eles chegaram como quem se faz notar. Primeiro, disputando lance a lance com o “Sindicato Sangster” os Northern Dancer que valia a pena possuir (Shareef Dancer, futuro ganhador do Derby da Irlanda, no Curragh, foi a primeira grande aquisição). Logo se seguiriam outras. E os preços escalavam na proporção da ambição e da loucura de ambos os lados. Sangster, querendo desesperadamente manter sua posição de líder do mercado; a dinastia Maktoum, dos “rulers” do Dubai, firmemente decidida a substituí–lo no posto. O resultado final era apenas uma questão de tempo. E Sangster foi substituído.
Entravam em cena os novos donos do puro–sangue mundial. Dos anos de 1990 em diante, o turfe internacional iria conhecer e se familiarizar cada vez mais, não só com as cores dos irmãos Maktoum, como também com as do Príncipe Khalid Abdullah, da Arábia Saudita.
Os irmãos Maktoum, liderados pelo Sheik Mohammed, iniciaram sua mega operação de conquista do mercado atuando em separado, cada um deles cuidando de seus próprios interesses. Com o passar do tempo, porém, perceberam que parecia mais razoável unir esforços, quando isso se tornasse conveniente ao processo de sedimentação de seu império turfístico.
Hoje em dia, as atividades do grupo Mohammed Al Maktoum estão departamentalizadas por área geográfica e se estendem da Europa à Oceania, incluindo os EUA e o Dubai. Os animais criados pela Darley Stud Management Co. Ltd., com unidades em seis países (Inglaterra, Irlanda, EUA, Dubai, Japão e Austrália), geralmente correm na blusa azul–marinho da Godolphin, ou na original, grená e branco, de seu afluente proprietário. Mais recentemente, alguns passaram a atuar nas cores de sua mulher, a Princesa Haya, da Jordania. A Darley Stud Management estaciona 25 reprodutores em seus haras, entre eles a Cape Cross, pai de Sea the Stars (Derby Stakes e Prix de l’Arc du Triomphe).
Por sua vez, o Sheik Hamdam Al Maktoum opera o complexo Shadwell Racing (que, inclusive, também se dedica à criação de cavalos árabes, além de gado Aberdeen Angus), com cerca de 200 éguas, divididas em oito haras, sendo seis deles na Inglaterra (Nunnery, Melton, Snarehill, Salsabil, Elmswell, e Beech House Stud); um na Irlanda (Derrinstown Stud); e um nos EUA (Shadwell Farm Stud, em Lexington, Kentucky). Suas atividades em território britânico deram–lhe a liderança das estatísticas de proprietários em 1990, 1995, 2002 e 2005.
Digna de registro, é a notória predileção do Sheik Hamdam pelo sangue Northern Dancer que chega até nós via Danzig, de que Danehill, Oasis Dream, Cape Cross e Anabaa são os exemplos mais significativos.
As ligações culturais da família Maktoum sempre estiveram solidamente ancoradas na Inglaterra, onde todos os irmãos se formaram. Explica–se: foi o Império Britânico, nos anos que se seguiram ao término da I Guerra Mundial, que garantiu a independência política e a integridade territorial do pequeno Emirado do Dubai, contra a eventual tentação das jovens nações recém formadas na região de estenderem suas fronteiras na direção da borda do Golfo Pérsico.
Mas outros atores têm contribuído para manter a liderança árabe. É o caso do Príncipe Khalid Abdullah, da Arábia Saudita (controlador do Grupo Mawared, conglomerado que atua nos setores de cimento, eletrônico, de seguros, alimentos, etc.), e sua impecável Juddmonte Farm.
Fundada em 1977, ela hoje se distribui entre três haras na Inglaterra, dois na Irlanda, e um nos EUA, que abrigam em seu conjunto cerca de 300 éguas de cria. A primeira expressiva vitória de Khalid Abdullah ocorreu em 1980, quando Known Fact venceu a milha clássica dos Two Thousand Guineas, depois da desclassificação de Nureyev (para último...). Na Europa, estão alojadas as atuais estrelas da companhia, como Dansili, Oasis Dream, Zamindar (pai de Zarkava), Beat Hollow, Cacique e Observatory; nos EUA, Empire Maker, Aptitude, Mizzen Mast e First Defence.
Nomes de cavalos conhecidos como Known Fact, Warning, Dancing Brave, Rainbow Quest, Zafonic, Rousillon, Danehill, Jolypha, Oasis Dream, Sanglamore, Comander in Chief, American Post, Marquetry, etc., fazem parte do variado cartel de vitórias de Grupo da Juddmonte Farms nas pistas da Inglaterra, Irlanda, EUA, Canadá, Hong Kong e Dubai.
Não importa de que região do Oriente Médio eles provenham, são os árabes aqueles que hoje dominam parte ponderável do parque de reprodutores e, em consequência, a fatia do leão da indústria mundial do PSI.
Mas há outros participantes atentos aos seus movimentos.
Japão e o Aga Khan
. Japão
O PIB japonês equivale à soma dos dois maiores PIB’s europeus, o francês e o alemão; do ponto de vista do turfe, suas pistas de grama são consideradas as mais perfeitas deste esporte (média de dois acidentes atribuíveis à raia para cada 1.000 animais corridos); a presença do público nos grandes eventos é maciça; a gerência da atividade, exercida com extrema competência pela Japan Racing Association, é inteiramente profissional; o volume de apostas pode atingir níveis estratosféricos (só comparáveis aos de Hong Kong), e se equipara (ou, ocasionalmente, supera) o de qualquer outra nação desenvolvida do Ocidente.
Em resumo, o Japão é uma potência econômica em termos da moderna indústria do PSI. E com uma característica única: seu turfe – que paga prêmios milionários aos proprietários e emprega milhares de pessoas – é o mais fechado e o mais protegido do mundo, e raras, na verdade, raríssimas, são as provas do calendário clássico abertas aos animais vindos do exterior.
A família Yoshida, cujas iniciativas datam de antes da II Guerra Mundial, é o maior criador japonês, comandando um negócio global que se estende dos EUA aos confins da Ásia e Oceania, e mantém cerca de 3.000 animais em campanha. Sua base de operações, a Shadai Farms, na ilha de Hokkaido, fundada em 1955, dirigida por Teruya (“Terry”) Yoshida (filho de Zenia Yoshida, o iniciador da dinastia) engloba um museu, um parque turístico, e um centro de treinamento reputado como o “state of the art” da atividade.
Formado em Economia, em 1969, Terry Yoshida foi mandado para os EUA por seu pai para estagiar na Fontaineblue Farm, o braço americano da Shadai, onde permaneceu durante cinco anos. É desse período a aquisição de Northern Taste (por Northern Dancer), ganhador, em 1974, do Prix de La Forêt, Longchamp, e líder das estatísticas de reprodutores no Japão por 11 anos consecutivos.
Estão estacionados presentemente na Shadai 25 reprodutores, inclusive o americano War Emblem, comprado por US$ 17 milhões, em 2002, para substituir a Sunday Silence, líder das estatísticas de pais de ganhadores de 1994 a 1999.
Grandes admiradores do sangue de Mr Prospector – houve um momento em que levaram para seu país os melhores filhos do chefe–de–raça americano, não importa onde eles se encontrassem –, os japoneses têm realizado incursões pontuais no programa clássico europeu, principalmente na França, com ótimos resultados. Mas seu grande trunfo, é estarem situados na área géo–econômica, onde o turfe mais cresce no mundo atualmente, a Ásia e a Oceania.
Sob todos os pontos de vista, mesmo considerando o caráter insular de suas operações, o Japão é um formidável adversário na disputa pela liderança do mercado mundial do cavalo de corrida.
. o Aga Khan
Herdeiro de uma tradição de criar que remonta a seus ancestrais na Índia, o atual Aga Khan (Karim) carrega consigo pelo menos cinco gerações envolvidas neste difícil mister.
Seu avô, o Aga Khan III, foi um dos construtores do moderno cavalo de corrida (no mesmo nível de Lord Derby, Tesio, Marcel Boussac e Arthur Hancock). Seu pai, o Príncipe Ali, embora tivesse morrido relativamente cedo, sempre esteve diretamente envolvido com o turfe e seu ambiente. E ele, mesmo tendo tido que assumir da noite para o dia os negócios e os interesses da família em 1960, revelou–se à altura do desafio. Sob certos aspectos, inclusive, superou seus ilustres antepassados.
A atual criação Aga Khan está situada entre as melhores, mais bem estruturadas, e de maior sucesso do panorama internacional. Nela, tudo é rigorosamente pensado e planejado para resistir ao teste do tempo e da obsolescência, os dois grandes inimigos desta atividade. Seu moto continua sendo o mesmo proclamado no início do século passado pelo Aga Khan III: “Nesse negócio, ou se faz as coisas direito, ou fica–se de fora.”
E “fazer direito” para esta corrente de notáveis criadores, implica debruçar–se sobre a pesquisa genética, o conhecimento sistematizado das principais famílias maternas, a análise acurada das múltiplas características e opções fornecidas pelos pedigrees, o estudo da performance nas pistas, e, claro, poder contar sempre com a melhor equipe, desde os gerentes e supervisores dos haras, até aos treinadores e jóqueis.
A criação Aga Khan, se encontra hoje dividida em sete haras, sendo quatro deles na Irlanda (Gilltown, Sallymount, Sheshoon, e Ballyfair), e dois nas melhores terras da Normandia, França (Bonneval e Saint Crespin). Para quem estiver interessado, na Normandia, os cavalos bebem a água que migra de rocha calcárea, e pastam nos piquetes eventualmente à sombra das macieiras, comendo os frutos recém caídos das árvores...
As famílias maternas Aga Khan estão erguidas sobre 17 “foundation mares” (Mumtaz Mahal, Tourzima, Astana, Qurrat–Al–Ain, Éclair, Teresina, Sega Ville, Tonerra, Pola Bella, Vareta, Pale Ale, Miss Melody, Anne de Bretagne, Pretty Lady, Koblenza, But Lovely, e Ballisland). Dessas, Tourzima (1939, por Tourbillon e Djezima, por Asterus), originalmente criação Boussac, é considerada pelo próprio criador como sendo “sua rocha” – “Da mesma forma que Mumtaz Mahal foi a de meu avô.”
Tourzima está na origem de ganhadores clássicos como Darshaan, Sinndar (atualmente fazendo a monta no Brasil), Linngari (idem), Daliapour, Enzeli, Edabiya, Ebadiyla, Darara, Akiyda, Akarad, Labus, Licata, etc. etc.
Recentemente, até com certa surpresa da maioria dos observadores, ficou–se sabendo que o campeoníssimo Sea the Stars – embora continue pertencendo 100% à família Tsui – foi estacionado no Gilltown Stud, o principal haras Aga Khan na Irlanda. No comunicado divulgado à imprensa, o criador não escondeu sua satisfação pelo fato: “Esta decisão (da família Tsui) é certamente um dos acontecimentos mais importantes do desenvolvimento de nossas operações, desde que eu as herdei em 1960.”
Sea the Stars é de propriedade da senhora Ling Tsui (mãe do jovem banqueiro Christopher Tsui, de Hong Kong), além de assessora do governo chinês. Não é difícil imaginar que por detrás desse fato, se esteja abrindo as portas de um longo e profícuo convívio entre os interesses e expectativas de ambas as partes.
Afinal, mantido o atual ritmo de sua expansão econômica, dia virá em que a China começará a se interessar pela indústria do puro–sangue no Ocidente. Para um criador e homem de negócios como o Aga Khan, obrigado a pensar anos à frente de seu tempo, faz sentido o gesto representado pelo retorno de Sea the Stars ao país onde nasceu e foi criado.
Coolmore – a Irlanda volta à cena
Robert Sangster foi derrotado, mas os irlandeses ainda não.
O chamado “vale dourado” da República da Irlanda sempre esteve entre as melhores regiões agro–pastoris da Europa. Seu regime pluviométrico é quase perfeito, as intrusões de rocha calcárea são abundantes, a fertilidade da terra excede a média do Continente, e o clima é ameno, mesmo no inverno. Assim, é natural que o país seja uma das mais interessantes opções para a criação do “thoroughbred.” E o ambiente assim formado gerou uma espécie de “cultura do cavalo” na população local, o que facilita as coisas para qualquer criador.
Em 1968, Tim Vigors, um dos maiores ases da RAF na “Batalha da Inglaterra”, cuja família havia herdado uma pequena fazenda no condado de Tipperary, transformou–a em haras com a ajuda de seus sócios e amigos, Vincent O’Brien, já famoso treinador, e Robert Sangster, então o magnata do Vernons “pool”, uma loteria esportiva. Posteriormente, Vigors vendeu sua participação a O’Brien e ao genro deste, John Magnier.
Ao final, Magnier comprou a participação de Sangster e transformou o haras no que é hoje um multimilionário negócio, formado pela estação de reprodutores conhecida como Coolmore (nome original da fazenda de Vigors). A Coolmore possui ramificações na Austrália (Coolmore Austrália, em New South Wales) e nos EUA (Ashford Stud, em Versailles, Kentucky). Além disso, mantém na Irlanda a Coolmore National Hunt (também chamada de Castle Hide Stud), onde estão alojados reprodutores de corridas “point–to–point” (uma tradição local) e sobre obstáculos.
O conceito básico de Magnier sempre foi o de utilizar seus garanhões em duas estações anuais de monta, combinando os hemisférios norte e sul (na verdade, foi ele quem introduziu e popularizou o conceito de “shuttle stallions”, hoje amplamente praticado por outros criadores).
Em outubro de 2009, estavam estacionados na Coolmore 39 reprodutores (distribuídos entre Irlanda, EUA e Austrália), e 14 outros no sistema National Hunt, totalizando 53 sementais. A Coolmore é, presentemente, a maior e mais conhecida estação de monta da indústria.
Mas o que impressiona é a qualidade dos “turf–records” e “stud–records” desses animais. Depois que Sadler’s Wells foi aposentado, do alto de seus quase inacreditáveis 70 ganhadores de Grupo I (ou coisa que o valha...), parecia que o empreendimento iria sofrer com sua ausência.
Mas lá estão Galileo, Montjeu, Giant’s Causeway, Oratorio, High Chaparral, Encosta de Lago (“Champion Sire” na Austrália, US$ 220 mil a cobertura...), Hurricane Run, Peintre Célébre, Dylan Thomas, Grand Slam, Rock of Gibraltar, Danehill Dancer, Thunder Gulch, etc. etc. – e até, mais recentemente, o infatigável Yeats.
Ou seja, a Irlanda e os irlandeses estão vivos, bem vivos, e voltaram a esse jogo.
O panorama geral
Se fosse possível separar o mercado mundial do “thoroughbred” em três grandes fatias, o exercício provavelmente nos levaria às seguintes conclusões:
. É o conjunto Ásia–Oceania (Japão, Hong–Kong, Cingapura, Nova Zelândia e Austrália) aquele que, no momento, parecer reunir as melhores e mais consistentes perspectivas de continuar expandindo seu turfe. São quatro os motivos: (a) o estonteante volume de apostas ali praticado; (b) o crescente interesse do público; (c) a excepcional qualidade da organização e da gerência da atividade; (d) a manutenção do fluxo de investimentos na crescente melhoria do padrão das corridas;
. Na porção européia (entendida como França, Inglaterra, Alemanha, Itália e Irlanda), embora as condições acima praticamente se equivalham às da Ásia e Oceania (salvo no que respeita a um menor volume de apostas, quando comparado ao dessas últimas regiões), o tal “diferencial competitivo” – a expressão está na moda... – reside na indiscutida capacidade dos europeus de atrair os investimentos árabes. “Estar na Europa”, sempre foi uma constante, desde que os ingleses inventaram esta raça. E nada informa que isso vá se alterar substancialmente em futuro próximo;
. Quanto à fatia norte–americana – cujo turfe, de modo geral, apresenta características próprias e exige um tipo de animal com perfil funcional e habilidades específicas, diferentes da maioria dos concorrentes – ela constitui, por si só, um mercado a parte, amparado pelo maior PIB do planeta. E aqui não importa que eventuais dificuldades tenham sido trazidas pela crise financeira de outubro de 2008, que afetaram a renda e os níveis de consumo americanos. Os EUA continuarão a ser, e por muito tempo, o destino preferencial dos negócios ligados ao mundo do turfe. Questão de tamanho econômico.
E o resto? O resto tende a ser periférico e a gravitar em torno desses três grandes pólos. Mesmo Dubai, cuja entrada no circuito internacional do PSI deve ser vista com entusiasmo e satisfação, mesmo Dubai, ainda tem um longo caminho a percorrer antes de poder impor–se aos principais sócios desse clube afluente e exclusivo.
E nós nisso tudo?
Bem, nós, historicamente, criamos cerca de 3.000 potros por ano; vendemos praticamente todos no mercado local e a alguns novos clientes de fora; temos em torno de 380 haras em pleno funcionamento; empregamos diretamente 13.000 pessoas na atividade; nos últimos anos, aumentamos as exportações de cavalos de corrida “Made in Brazil” (que brilharam, e continuam a brilhar, nas pistas mais competitivas do hemisfério norte).
Mas não é só isso. Os grandes criadores continuam a investir na melhoria de seus plantéis; aderimos definitivamente ao “shuttle” de reprodutores, alguns deles integrantes da elite do parque mundial; e a Associação Brasileira de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida (ABCPCC) tem dado passos decisivos, no sentido de resolver questões cruciais de nosso turfe. A primeira avaliação, pois, é que apesar das dificuldades existimos como participantes desse mercado.
Nossa mais grave limitação, porém, não está aí.
Ela decorre da natureza das principais sociedades promotoras de corridas de cavalo do país, que são, em essência, clubes sócio–recreativos, com interesses os mais heterogêneos possíveis. Em conseqüência, a gerência da atividade é, na maioria das vezes, improvisada. Esta é, em princípio, a grande pedra em nosso caminho.
Nosso turfe, e praticamente tudo que o cerca, da programação de corridas ao controle e fiscalização do jogo de apostas (se é que isso existe...), funciona sem uma estrutura formal de organização que o integre, hierarquize, e discipline.
Enquanto não ocorrer uma profunda mudança de métodos e de conceitos de gestão por parte da direção dos principais Jockeys Clubes, viveremos a dualidade (e mesmo o conflito) entre duas realidades opostas: de um lado, um turfe de criadores, proprietários, e uma ampla gama de profissionais ligados à atividade, que teima e insiste em romper a inércia e começar a caminhar na direção de sua modernização; e, de outro, a administração das sociedades promotoras de corridas, que dificulta, ou eventualmente inibe, este movimento.
Mas como já disse o nosso Armínio Fraga, em recente entrevista, “Nada é crônico, tudo é curável no Brasil. De todos os (países) emergentes, o Brasil é o mais ocidental, mais institucionalizado, tem democracia, imprensa livre, e alternância de poder.” (jornal O Globo, pág.20, Caderno de Economia, 06.11.2009).
Portanto, só nos resta ter esperança de que um dia este nó se desate – e liberte o turfe.
06.11.2009
Transcrita da newsletter da Associação Paulista de Fomento ao Turfe (APFT)