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Outubro | 2009
Não sou contra, por Milton Lodi 29/10/2009 - 11h00min
Há quem ache que eu sou contra o turfe norte–americano. Não sou. O que acontece é que eu entendo a realidade, um esporte originário da fidalguia, da meta da melhoria, da seleção, e que com a popularização necessitou de aportes financeiros, de agentes e agências comerciais. Hoje, há no mundo leilões internacionais, reunindo em Deauville, em Newmarket, em Lexington e alguns outros, muitos potros e potrancas que fazem parte da nata da criação mundial do puro–sangue de corridas. Uma significativa parte dos pretensos melhores não é colocada à venda, são os criados pelos realmente grandes no mundo do turfe. Fora do Brasil, Boussac na França e Aga Khan na Inglaterra são dois grandes exemplos do passado, seus potros e potrancas eram reservados para a defesa de suas cores (respectivamente laranja e boné cinza, e verde com ombreiras vermelhas). Foram responsáveis pelo progresso do turfe mundial, e o grande público turfista afluía aos hipódromos para assistir disputas memoráveis principalmente nas maiores provas européias. Longchamp, Epsom, Ascot, eram palco de corridas inesquecíveis. Havia competição acirrada. Galcador, legítimo Boussac, atravessou o canal da Mancha (cavalos não viajavam de avião à época), e foi ganhar o Derby de Epsom, causando reboliço na França pelo feito então extraordinário, e na Inglaterra um misto de pasmo e tristeza. Enquanto isso, com a total supremacia das criações inglesa e francesa, surgiu o gênio italiano Federico Tesio, que também reservava os seus melhores, e foi à França e à Inglaterra com fenômenos como Nearco e Ribot, entre outros, e passou a participar do domínio dos grandes. É claro que na Inglaterra e na França não eram só Aga Khan e Boussac, haviam outros grandes criadores de grandes qualidades e que não vendiam os seus mais pretensiosos, mas na Itália era só Tesio, a rigor só ele ia tentar, e muitas vezes vencer, as grandes e mais significativas provas do turfe mundial. Enquanto isso, os norte–americanos começaram a investir fortemente no mercado europeu, levando para os Estados Unidos régios sangues, e obtiveram enorme sucesso na criação principalmente com o sangue inglês, preferencialmente o de Aga Khan.
Os norte–americanos entenderam que havia um filão de ouro em atividade, e à força do dólar saíram comprando, abrindo hipódromos, fazendo corridas voltadas não para a seleção, a melhoria, mas para agradar e atrair os espectadores das arquibancadas. Em lugar de pistas com pelo menos dois quilômetros de volta fechada, com retas longas e curvas suaves, padronizaram, ou quase isso, voltas fechadas de 1.600 metros ou até menos, em lugar de piso gramado disseminaram o de areia, mais fácil de cuidar, comercializaram tudo que puderam, transformando o turfe norte–americano em gigantesco “business”. Não respeitaram tradições e regulamentos básicos, mudaram conceitos, fizeram um turfe diferente (baseado apenas em lucro, atividade comercial).
Na época em que ocorria uma implantação dos sangues europeus nos Estados Unidos, fui convidado pelo meu amigo Gustavo Philadelpho Azevedo para participar de uma reunião na casa dele, quando iriam dois turfistas norte–americanos. Eram dois comerciantes, que alegavam ter importado da França um dos notáveis garanhões da época, Goya II, tinham pago caro, e o cavalo tinha sido um fracasso. Tinham então vindo à America do Sul tentar encontrar reprodutores bons e mais baratos. Em meio à conversa, houve um momento de grande perplexidade por parte deles. Foi quando lhes foi explicado que Goya II, um ótimo filho de Tourbillon, produzia filhos adequados a retas longas, curvas suaves, piso de grama e distâncias médias altas, quando em contrapartida nos Estados Unidos as condições eram completamente diferentes (voltas pequenas, retas da ordem de 350 metros, curvas apertadas, chão de areia, distância de grande parte dos páreos era de 1.200m).
À época, no Brasil, a criação e as corridas tinham o estilo europeu. Os melhores criadores reservavam os seus melhores animais objetivando ganhar os grandes clássicos. Assim funcionavam os Haras Mondesir, São José & Expedictus, Guanabara, Jahú e Rio das Pedras, Faxina, e quase todos os principais do país.
Repito que não sou contra o turfe norte–americano, mas modestamente não concordo com a excessiva comercialização, com a propositada ineficácia dos serviços antidopagem de todos, ou quase todos os hipódromos do país, com a instituição de um absurdo chamado de “added”, com handicaps travestidos de stakes, do imperfeito controle genealógico, entre outros detalhes importantes, tudo em função de um exagerado “business”.
Eu não sou contra o turfe norte–americano, somente não aceito passivamente as barbaridades que lá são praticadas. |

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