Eduardo Ratto de Freitas Guimarães
Novos entretenimentos — em especial televisão, internet e outros jogos — desviaram o publico dos hipódromos e provocaram nos Estados Unidos, a partir da década de 70, um quadro de declínio no interesse pelas corridas de cavalos, com a consequente redução do movimento geral de apostas “MGA”.
Após quase 20 anos de resultados decrescentes, os hipódromos abandonaram a postura passiva de preocupação individual e buscaram formas de atuar em conjunto para a reversão deste quadro. Esta atuação se tornou visível com a fundação, no inicio dos anos 90, da NRA [National Racing Association]. A mesma congregava a quase totalidade dos hipódromos americanos, e buscava identificar os problemas que levaram à decadência da atividade, desenhar soluções e atuar em bloco nos fronts: [1] legislativo; [2] marketing; [3] patrocínio; [4] modernização do produto corridas para adequá–lo às novas tecnologias e torná–lo atraente para as novas gerações.
Embora alguns objetivos tenham sido alcançados, em especial na área de simulcasting entre os hipódromos, ficou claro que sem o envolvimento dos demais players da indústria, não seria possível progredir. Em meados dos anos 90, por iniciativa de Ogden Mills Phipps, Chairman do American Jockey Club sediado em New York, e de R D Hubbard, um líder da indústria, que controlava sete hipódromos na costa leste e meio–oeste americanos, foi construída a entrada dos horsemen [criadores, proprietários e profissionais] na NRA, que passou a se chamar NTRA [National Thoroughbred Breeders Association].
Com fundos provenientes dos hipódromos [contribuições variáveis de acordo com seus respectivos MGAs], e dos horsemen [percentuais sobre prêmios pagos aos proprietários, sobre vendas de cavalos em leilão e sobre vendas de coberturas], a nova organização ganhou visibilidade e musculatura política, passando a atuar com mais força em Washington D.C., em especial após a contratação do Comissioner Tim Smith, que não era do ramo no turfe, mas tinha um sólido background profissional em esportes como o golfe e o tênis profissionais, nos quais liderou a re–estruturação para torná–los atraentes para a televisão.
Inspirado nas corridas de automóveis, cujo interesse entre os fãs de esportes explodiu com o apoio da televisão, Tim Smith negociou com as maiores networks do País contratos de risco – anúncios e cobertura dos principais eventos —, segundo os quais as mesmas promoviam o turfe, em troca da receita futura que potencialmente geraria com a recuperação do interesse por parte do publico. Não consta que as poderosas networks americanas tenham se arrependido.
O simulcasting desenvolveu–se na esteira do produto turfe, redesenhado para transportar para a televisão o apelo que levava multidões aos hipódromos, até os anos 70. Até então praticado apenas entre hipódromos, o simulcasting passou a ser exportado para lugares do mundo onde havia interesse por apostas hípicas. Surgiram no final dos anos 90, empresas como a TVG e a You Bet, que visavam utilizar a nova tecnologia de convergência na informática para levar as corridas de cavalos ao apostador, e não ao contrário, como historicamente acontecia, e facilitar a realização de apostas através de novas plataformas, o telefone, a internet e até mesmo o controle remoto da televisão.
Passou a ser importante o conteúdo e verificou–se uma corrida pela aquisição de hipódromos, liderada pelas empresas Churchill Downs Inc e Magna International, que buscavam agregar programas inteiros de simulcasting.
As mesmas desenvolveram suas próprias redes de captação de apostas através de novas plataformas, com a introdução do conceito do Advance Deposit Wagering “ADW” [conta correntes, contra as quais são debitadas on–line as apostas e nas quais são creditadosos ganhos].
Em paralelo, a indústria do jogo pegou “carona” e aproveitou as sólidas licenças de captação de apostas detidas pelos hipódromos para nos mesmos instalar slotmachines, solução de curto prazo para os desafios mais imediatos como atrair publico, promover o marketing institucional da atividade e aumentar as dotações, o que por sua vez tem impacto direto na qualidade do espetáculo, tornando–o mais atraente ao apostador. É sabido que melhores prêmios atraem melhores cavalos, treinadores e jóqueis, o que por sua vez atrai apostadores e mesmo espectadores de esportes em geral, tornando o produto corridas de cavalo mais interessante para a mídia e para os patrocinadores.
A virada do milênio coincidiu com a reversão do quadro de declínio da atividade nos Estados Unidos, com recursos provenientes de maiores MGAs, gerados no próprio hipódromo, ou captados por uma crescente rede de simulcasting, inter–hipódromos e internacional, bem como através dos novos sistemas interativos. Exceto pela cidade de New York, bastante peculiar já que nela as pessoas andam a pé mais do que de carro, o modelo de agências de apostas não foi sequer cogitado, preterido em favor da moderna tecnologia que permite levar, a um custo muito menor, as corridas ao publico e não mais o publico às corridas.
A tecnologia também permitiu a fusão de pools [totalizadores], o que se mostrou atraente para grandes apostadores [como se sabe, no sistema de pari–mutuel, quanto maior o pool, menor o impacto de uma aposta alta no rateio]. Cumpre salientar que pule cotada nos Estados Unidos é ilegal, por lesiva ao apostador.
Cumprida sua missão, a NTRA foi incorporada pela Breeders Cup, que olha para o futuro, com foco na promoção das provas de grande visibilidade – seu próprio festival de corridas, por exemplo — e pools ainda maiores, formados pelo acesso via tecnologia das novas gerações às apostas em corridas de cavalo, maiores facilidades para o apostador já existente e a concentração das apostas nas provas capazes da atrair a mídia de esportes em geral.
O futuro imediato aponta para uma base sólida de apostadores frequentes nas corridas do dia a dia — inclusive com o retorno lento e seguro do publico aos hipódromos — e em grandes pools de apostas simples de vencedor ou no máximo na combinação de vencedores em provas importantes, as quais não são “manobráveis”.
O crescimento de apostas no Kentucky Derby, por exemplo, é exponencial e supera os MGAs de temporadas inteiras em um grande numero de hipódromos americanos. Hoje se aposta mais no Kentucky Derby, do que se aposta durante todo o ano no Brasil. A médio prazo, se dará em sua plenitude a internacionalização deste processo, com acesso de mercados como o asiático às apostas em grandes corridas nos Estados Unidos.
Transcrito do Boletim N°.261 da APFTurfe