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Março | 2009

Garanhões em Bagé, por Milton Lodi
06/03/2009 - 14h32min

Enquanto o dito progresso segue asfaltando as melhores terras paranaenses, as mais próximas de Curitiba, no solo sul–rio grandense, o melhor do país, em maior quantidade e melhor qualidade vai progredindo a criação dos cavalos de corrida.

Na região de Bagé, RS, está o mais importante núcleo criacional do Brasil com a concentração da maioria dos mais importantes, que além de garanhões de destaque lá sediados, anualmente costumam importar em sistema de “shuttle” régios sangues para a necessária diversificação.

No mês de Janeiro de 2009 tive a oportunidade de passar uns tantos dias em um paraíso conhecido como Haras Santa Ana do Rio Grande, em Bagé, RS. Naquela região, não só os proprietários dos haras como os veterinários que lá trabalham têm prazer em mostrar os seus cavalos, e dessa amistosa integração todos se beneficiam, uns aprendendo com os outros, e com a vantagem de uma planificação das coberturas mais ampla, em função dos pedigrees e dos tipos físicos.

Nos tais dias em que estive “pastando” em Bagé, tive oportunidade de ver 31 garanhões. Pela ordem em que foram vistos, assim se apresentaram.

– Haras Santa Ana do Rio Grande – Mensageiro Alado, Top Size, Chocolate Chip
– Haras Bagé do Sul – Public Purse, Crimson Tide, Pateo de Naranjos
– Haras Castelo – Holzmeister, Dancer Man
– Haras Mondesir –  Nedawi
– Haras TNT – Our Emblem, Vettori, Muito Melhor, Molengão
– Haras Fronteira – Brazov, Forever Buck, Capitão Bank, Dubai Dust, Baby Speedy, Voando Baixo, Pototó
– Haras Doce Vale – Ay Caramba, Metropolitan, Round Hill
– Haras Santa Maria de Araras – Wild Event, Signal Tap
– Haras Anderson – Dodge, American Gipsy, Gablitz
– Haras Espantoso – Mestre Incógnito, Otrebor, Tiptronic.

De ano para ano há alterações no quadro.

No Santa Ana estão três nacionais, com a lamentada morte do grande campeão Roi Normand, as poucas éguas no momento, menos de 10, o haras se utilizou básicamente de quotas que tem de outros garanhões. Top Size produz grande número de ganhadores, em pràticamente todas as semanas ganham filhos dele, a com um pouco de paciência vamos ter dele ganhadores clássicos. Mensageiro Alado, em função de suas marcantes vitórias clássicas em provas de velocidade, tem um enorme “fã–clube”, especialmente no Rio Grande do Sul. Em 2008 recebeu mais de 85 éguas, é comum proprietários irem longe procurar filhos dele ainda em fase de desmame para comprar, objetivando futuras “canchas–retas”, setor onde Mensageiro Alado é o grande pai de ganhadores, o que não o impede de ser um líder de estatística durante o primeiro trimestre de 2009 no Hipódromo da Gávea. Chocolate Chip foi um fenômeno em canchas–retas de grande expressão no Rio Grande do Sul, e pelo menos nos primeiros 300 metros bateu todos os récords, com tempos melhores que os dos recordistas da raça Quarto de Milha. Nunca ninguém correu na frente dele pelo menos na primeira metade dos percursos. Quando os “penqueiros” e os criadores de cavalos de pólo “acordarem”, os amantes da pura velocidade, Chocolate Chip vai ser muito solicitado.

No Bagé do Sul, além do útil chileno Patio de Naranjos, estão dois garanhões da atual elite. Public Purse, além de produzir filhos clássicos de padrão internacional, tem um tipo físico que impressiona, de estilo europeu e com um “empurrador” de cavalo norte–americano. Public Purse é impressionante bonito, correto, com visível qualidade. Seu companheiro de haras, Crimson Tide, garanhão também aprovado com louvor, é completamente diferente de Public Purse, um pouco menor e mais leve mas com uma presença forte, escuro com pelos brancos espalhados pelo corpo, possante, e além de já ter dado filhos de padrão clássico é pai de duas fêmeas especialmente precoces, de ótimos inícios de campanha, que infelizmente pelos sucessos foram levadas para os Estados Unidos. Devidamente “triturada” a primeira já voltou e já está cheia de Public Purse. A segunda foi definitivo, ainda está em fase de “trituração”, como a primeira ganhou corridas mas longe de poder mostrar as suas reais qualidades. Os bons turfistas estão esperando, com calma e certeza, o surgimento de um filho de Crimson Tide que venha comprovar as grandes qualidades do pai em distâncias maiores.

No Estrelas, sediado no Castelo, Dancer Man tem correspondido às expectativas. Foi muito bom corredor, freqüentou com sucesso a esfera clássica, corria na frente e brigava muito, de tipo sólido, foi preferencialmente um milheiro clássico. O companheiro de Dancer Man no Castelo é um norte–americano de nome Holzmeister, um alazão tostado ora em início no Brasil mas que já deu nos Estados Unidos um ganhador de prova de Grupo. Não é alto, tipo comprido, dá a impressão de ser bom. Forma com Dancer Man, embora fìsicamente bem diferentes, penso que bàsicamente uma parelha de milheiros.

No Mondesir está Nedawi, de elegante físico, grande pai clássico. Não precisa provar mais nada, os seus melhores filhos são habituais ganhadores de provas de Grupo I. É um lindo alazão, de lombo curto e membros longos.

No TNT há três tipos de reprodutores, um sem campanha nas pistas mas de pedigree internacional invejável. Muito Melhor evidentemente em experimentação, Our Emblem e Vettori, ambos já aprovados como reprodutores de primeira linha, e Molengão, um filho de Royal Academy, fácil ganhador em sua única apresentação no Brasil, e que brilhou em pistas norte–americanas vencendo até em prova de Grupo II, e que se inicia na reprodução antes certamente de ter mostrado todo o seu potencial em função de lesão. Esse Molengão ainda vai dar o que falar. Tem um físico poderoso.

No Fronteira estão 7 reprodutores de três proprietários diferentes, Dubai Dust é do TNT, tem dado filhos ganhadores até em provas de expressão maior do Calendário Clássico. Voando Baixo é um cavalo muito bonito, de boa presença, é um ganhador de milha internacional, que apesar de receber menos éguas do que merece tem dado muitos bons filhos. Baby Speedy, irmão paterno de Voando Baixo e também ganhador de milha internacional, também tem tido menos oportunidades do que merece, já mostrou qualidades. Voando Baixo e Baby Speedy são do Haras São José do Bom Retiro, que é também criador e sócio de Pototó, um tordilho filho de Roi Normand em filha de Youth, ganhador do Derby carioca. É uma esperança. Os outros três reprodutores no Fronteira são de propriedade do Stud Capitão. Capitão Bank, um Roi Normand, é pequeno, muito forte, harmonioso, estreou nas pistas da Gávea, e mesmo até então inédito venceu uma prova de Grupo. Em sua reduzidíssima produção deu um filho de ótima qualidade que já foi exportado para os Estados Unidos. Forever Buck começou dando um líder da nova geração na Gávea. Não foi surpresa, pois além de ter sido líder de turma, tem por pai o ótimo Spend A Buck em filha de Ghadeer e Anilité. Chega? O outro do Stud Capitão é Brazov, um Roi Normand e Imperatiz Vivi, essa uma das pouquíssimas éguas que produziram 3 ganhadores de provas de Grupo I. Esse Brazov é muito bonito, físico importante e impressionante, um castanho saudável, e dificilmente não terá produção clássica. Cavalo pretensioso esse Brazov.

De ano em ano há alterações no quadro de garanhões de Bagé. O Araras, por exemplo, de co–propriedade com norte–americanos, quanto a Put it Back, utiliza–se dos serviços do cavalo nos segundos semestres, já que nos primeiros Put it Back trabalha nos Estados Unidos. Em 2008 Put it Back foi para o Araras na Argentina, e em 2009 virá para o Araras em Bagé, sempre no sistema “shuttle”. Virá ocupar a atual posição ocupada por Wild Event, que vai para o Araras na Argentina. Como o Araras é sócio, embora minoritário de outros reprodutores habitualmente sediados em Bagé, a diversificação é rica em qualidade. Esse Wild Event é uma beleza de cavalo. Posso dizer mesmo que é um espetáculo. Signal Tap é um “estepe”, um outro norte–americano que é um coadjuvante que já no início de atividades mostrou–se bom, começou muito bem. A organização Araras é uma potência.

O Doce Vale tem cerca de 20 éguas, insuficiente para 3 reprodutores. Tem um garanhão preferencial, um que recebe poucas éguas, e um terceiro que normalmente não cobre. Os três são nacionais. O Doce Vale tem um percentual de muita eficiência. Metropolitan, um ganhador de milha internacional, não recebe éguas. Round Hill, bom cavalo, recebe poucas mas já demonstrou qualidades. Esses dois dão espaço para o promissor Ay Caramba, um filho de Roi Normand em filha de Ghadeer na linha feminina da extraordinária Court Lady. Ay Caramba é um cavalo leve, médio, muito bem feito, ótimo corredor até nos Estados Unidos onde venceu prova de grupo. É uma grande promessa. O Haras Doce Vale, com suas alamedas sombreadas, é muito charmoso. No Anderson estão Dodge, American Gipsy e Gablitz. Dodge é garanhão consagrado, especialista em velocidade, um dos dois (o outro era Jarraar) filhos de Mr. Prospector que vieram para o Brasil. Há muitos anos que Dodge está em alta, anualmente dando basicamente filhos velozes. Dodge cobriu em 2008 cerca de 25 éguas, deu espaço para um norte–americano que veio em “shuttle”. Dodge é até hoje um dos sustentáculos do Haras Anderson. American Gipsy é um coadjuvante que apesar de ter tido poucos filhos mostrou boa qualidade como reprodutor. Dodge é grande e forte, American Gipsy é médio e completamente diferente. Gablitz é um típico Clackson, alazão de frente aberta, forte mas não tão bruto como o pai, manso, tranqüilo e muito bonito. Foi 2° no G.P.Brasil e 3° no São Paulo, um típico “Grupo II” que “beliscou” Grupo I. No Anderson é naturalmente preterido, dando espaço para os de Grupo I e/ou importados que proporcionem melhor comercialização dos potros. Como a “estrada” de Dodge e de American Gipsy está “encurtando”, o Haras Anderson já comprou um novo garanhão norte–americano, que deve chegar a Bagé ainda no primeiro trimestre de 2009.

No Haras Espantoso, Mestre Incógnito e Otrebor de propriedade do próprio haras, e Tiptronic do Stud Quintella, são os três garanhões, todos nacionais. Mestre Incógnito é um Mensageiro Alado de muito bom físico e de alta explosão de velocidade, e por isso pagou caro. Foi diretamente para as “pencas”, mostrou–se de extremo poderio, obteve vitórias por largas margens, mas acabou interrompendo a sua curta campanha nas pistas, em função das habituais lesões decorrentes de esforços prematuros.

Para quem gosta de físico importante e de alta velocidade, Mestre Incógnito é um cavalo adequado. Otrebor é um Ghadeer que se mostrou útil até em provas de expressão, bom corredor entre 1.600 e 2.000 metros. Tem cobrido muito pouco, o haras não dispõe de muitas éguas. Tiptronic é um cavalo de distâncias maiores, grande, forte, corredor de 3.000 metros para mais, correndo sempre perto, e quando perdia lutava muito, acelerava desde os primeiros metros, seguia sempre, e era um “brigador”.

Desses 31 garanhões alojados no mês de janeiro de 2009 em Bagé, 12 são importados 19 são nacionais. Entre os 12 estrangeiros estão os “4 Grandes”, o que no atual momento do turfe brasileiro formam a elite, a saber por ordem alfabética, Crimson Tide (europeu), Nedawi (europeu), Public Purse (norte–americano) e Wild Event (norte–americano). Dos 4 importados, apenas um, Holzmeister, não tem ainda filhos correndo. Dos 19 nacionais, 8 ainda não têm filhos correndo, e talvez Molengão, Ay Caramba e Brazov sejam os mais pretensiosos. A verdade é que o núcleo de garanhões em Bagé não tem similar no país, e tem padrão técnico médio muito alto.

Dizem que em matéria de turfe o melhor é ficar de “bico fechado” para não “queimar” a língua. O assunto não é matemático, é complexo, só não erra quem não se manifesta. Mas como eu não me preocupo com eventuais erros ou omissões, dou as minhas sinceras opiniões de forma isenta, e ainda ciente de não tendo bola de cristal nem pretendendo ser o dono da verdade.

Quem já foi a Bagé conhece as razões e as perspectivas do turfe brasileiro.



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