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Março | 2009

Aristóteles, peso e performance, por Sergio Barcellos
04/03/2009 - 09h31min

Aristóteles, um dos melhores cérebros que o mundo clássico produziu, propôs um silogismo famoso, o da corrida entre Aquiles e a tartaruga. Nela, Aquiles dava uma grande vantagem inicial à tartaruga e a cada 10 metros descontava metade da distância entre os dois. Enunciado dessa forma, Aquiles jamais vencerá a tartaruga: por mais veloz que seja, sempre haverá metade da distância a separá–los. A quem estiver interessado, esse silogismo não se resolve nem no infinito.

No mundo do turfe, o mesmo se dá em relação ao peso carregado por dois cavalos de corrida (com a diferença de que aqui não se trata mais de um silogismo, e sim da mais pura e objetiva realidade). A uma determinada diferença de peso, o melhor dos craques perde para um adversário que lhe seja inferior, não importa em que distância ou pista.

Por outras palavras, peso do jóquei é algo absolutamente essencial nas corridas de cavalo. Na verdade, faz toda a diferença quando se avaliam as chances relativas dos animais antes do páreo.

Conceito de peso e lei do cansaço progressivo

Embora alguns ignorem, todas as tabelas de peso do turfe mundial são construídas sobre um único parâmetro teórico, desde 1873, quando a Alm. Rouss reformou e codificou o turfe inglês: 1 (um) quilo equivale a 3 (três) metros de diferença em 2.000 metros de percurso, grama.

Isso significa que num páreo entre dois cavalos teoricamente iguais, aquele que carrega menos 1 (um) quilo leva uma vantagem de um corpo e meio sobre o rival, ao final de 2.000 metros, considerando que cada “corpo” gira ao redor de dois metros.

Pela "lei do cansaço progressivo" (a expressão é de Federico Tesio), quanto maior a distância, mais difícil se torna anular a diferença de peso entre animais de padrão de corrida semelhante.

E que lei é essa? Simples. Nos primeiros 400 metros de qualquer percurso, cavalos bem treinados usam apenas suas reservas naturais quando se deslocam a pleno galope. A partir daí, todo o sistema aeróbico – transmissão de oxigênio pelos pulmões e dissipação do ácido láctico – aumenta de intensidade. Nos metros finais da disputa, quando o aerobismo ameaça entrar em colapso, são as reservas de glicogênio que ajudam a manter os músculos funcionando e sustentam o ritmo até o disco (fase anaeróbica).

Por óbvio, quanto mais peso o animal carrega, mais rápida é a sucessão dessas etapas, antecipando a chegada da fadiga aguda.

Em resumo, os diferenciais de peso no turfe – a par de servirem para equilibrar a disputa – geralmente informam quem ganha e quem perde, daí sua enorme importância. Os exemplos são por demais evidentes para deixarem de ser mencionados. Como se segue.

Recentemente, um dos melhores jóqueis da nova geração da Gávea, líder de estatística, perdeu por cerca de dois corpos um páreo de potros de 2 anos, onde todos carregam (ou deviam carregar...) 55 quilos. Na repesagem, seu peso estava lá, estampado em grandes números vermelhos acima da balança para que todos vissem: 56.900. A diferença de quase dois quilos, entre o peso do jóquei após o páreo e o peso do programa – e nenhum outro fator – causou a derrota do animal. Com o peso certo, teria ganho.

Exemplos como esse se repetem todos os dias entre nós, e só servem para frustrar proprietários, treinadores e o público em geral. Mais grave que isso, porém, é perceber que indiretamente estamos lesando os apostadores.

Há formas de lidar com o excesso de peso dos jóqueis, sem ter que vulnerar nenhuma das regras do turfe. E aqui não se trata de simplesmente mexer na tabela de pesos, como muitos sugerem – o que seria um desastre.

Examinemos as hipóteses.

Regras de peso

Quando a obrigatoriedade do uso de coletes protetores foi introduzida na Gávea (estamos falando do período 1992–1996), isso provocou um grande alarido entre os jóqueis, em virtude do peso adicional, ainda que pequeno, do equipamento. As opções da Comissão de Corridas, à época, eram: (a) desistir dos coletes; (b) alterar a tabela de pesos para favorecer os jóqueis; ou (c) manter a decisão de dar maior segurança a todos. Depois de debater o assunto, manteve–se a decisão com respeito à segurança dos profissionais. Ponto. E todos se adaptaram a tempos mais civilizados.

Pois é assim que é, em qualquer país onde exista um turfe organizado: ou os jóqueis se convencem de que sua profissão exige disciplina e cuidados especiais com a manutenção do peso físico (chamado de “líquido” no jargão do turfe), ou devem se preparar para mudar de profissão. Não há escolha.

Mas a Comissão de Corridas da época fez mais: marcou uma data para repesar todos os profissionais; separou–os em diferentes grupos e publicou seus pesos líquidos para que os apostadores soubessem quanto efetivamente estava pesando cada profissional naquele momento; e, claro, ofereceu a ajuda de especialistas (nutricionistas e endocrinologistas), caso quisessem baixar seu teor de gordura.

Salvo algumas raríssimas exceções – como danificar propositadamente os coletes para fazê–los mais leves e, em conseqüência, sofrer pesadas sanções por isso... – a esmagadora maioria dos profissionais entendeu a mensagem e se comportou como tal.

Talvez pareça necessário ter que refazer o caminho adotado na década de 1990, tais as atuais aberrações em matéria de peso dos jóqueis da Gávea.

Para lidar com elas, só há duas soluções: (1) fazer cumprir à risca a disposição do Código Nacional de Corridas que obriga a troca do jóquei quando seu peso líquido ultrapassa determinado número de quilos; e (2) punir com rigor os desvios em relação ao peso do programa, estabelecendo multas proporcionais a cada grama excedente.

Como a parte mais sensível do corpo humano é geralmente o bolso, ter que pagar tantos centavos de reais por grama de excesso, sempre funciona melhor que a aplicação de pequenas multas fixas. Novamente, não há outra alternativa para lidar com a questão.

Ou, melhor, há: a de fingir que está tudo bem, fazer ouvidos de mercador às críticas do público, e imaginar que com isso se está protegendo os jóqueis. Ledo engano. No mínimo, estamos sendo lenientes, e colaborando para deseducar os profissionais a respeito das exigências mínimas de seu ofício.

Quando até os aprendizes já começam a ser multados por excessos de peso na repesagem – e isso tem ocorrido com certa frequência – é sinal de que as coisas saíram inteiramente de controle...

Peso por sexo, idade e distância

Como soe acontecer entre os mamíferos superiores, o desenvolvimento físico nos eqüinos privilegia os machos da espécie. Ao completarem três anos, potros e potrancas estão separados por um quilo e meio de diferença (ou dois corpos e meio em 2.000 metros). É o caso do Derby inglês, onde os machos correm de 57 quilos e as fêmeas de 55,5 quilos.

A pesos iguais, as fêmeas são consideradas inferiores aos machos, e essa inferioridade gira sempre ao redor de dois quilos (em torno de três, no turfe francês).

No que respeita à idade, quanto mais o animal se aproxima de sua completa maturidade (limiar dos cinco anos), maior é a sua capacidade de carregar peso. Nesse caso, se o peso imposto ao animal mais velho permanece constante, o peso atribuído aos mais jovens nos confrontos de peso–por–idade deve crescer a cada período de tempo até atingir a paridade.

Como já foi mencionado, os efeitos do peso sobre a performance do animal são diretamente proporcionais ao aumento da distância e ao estado da pista. Quanto mais pesada ela se encontre, mais se acentua a vantagem do competidor que carrega menos peso, mesmo que a diferença seja mínima; principalmente nas provas de meio–fundo, que exigem velocidade e superior resistência à fadiga (algo equivalente aos 800 metros rasos no atletismo).

Assim, a boa e coerente administração das vantagens de peso é decisiva –  principalmente nos “handicaps” de peso–por–idade, onde cinco quilos de diferença significam nada menos que 15 metros (ou mais de sete corpos) em 2.000 metros de percurso.

Aliás, todas essas observações foram objeto de grande cuidado na elaboração da Programação Clássica do Jockey Clube Brasileiro para 2009.

Assim, não faz o menor sentido tolerar que a falta de disciplina e de profissionalismo de certos jóqueis com respeito à manutenção de sua condição física, sirva para estragar todo o trabalho da Comissão de Corridas, irritar o público turfista e, no mínimo, lesar os apostadores.

A não ser que desejemos que as corridas da Gávea obedeçam ao silogismo aristotélico, onde os melhores e mais rápidos perdem sempre para as tartarugas.

Em tempo: nos turfes desenvolvidos, até os peitorais hoje em dia são mais estreitos e menos pesados (uma simples tira em torno da paleta), a blusa dos jóqueis caminha para ser feita de tecidos especiais, e as mantas e culotes (de preferência breeches) não absorvem água. Ali, a idéia é poupar gramas, e não quilos, a demonstrar quão fundamental é a vantagem do peso neste esporte.

por Sergio Barcellos



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