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Fevereiro | 2009
Tablada, por Milton Lodi 26/02/2009 - 12h14min
Espalhadas pelo interior do país, principalmente no Rio
Grande do Sul, as “pencas” são uma constante como atividade de lazer, de entretenimento, de
competição. Quando pequenas comunidades se transformam em vilarejos, daí em pequenas cidades,
o progresso vai chegando e o dinheiro começa a “engrossar”, o “meu na frente do seu” vai
dando lugar a competitividades mais generalizadas. O maior número de corredores dá lugar a
várias competições em grupos, são os páreos que compõem os programas das corridas que exigem
regras e regulamentos, disciplinas de condutas que permitam corridas limpas, procurando dar
ensejo a que os melhores se sobreponham aos piores, que a competição nas pistas qualifique os
corredores em ruins, regulares, bons, muito bons e ótimos. É dessas competições que saem os
ótimos e os muito bons, responsáveis pela pretendida melhoria da criação nacional, os
melhores machos escolhidos pelas melhores performances e pedigrees, as fêmeas não sendo
exigidas as ótimas performances, mas verificadas as produções de suas linhas femininas, tudo
isso condicionado a tipos físicos adequados ao enfoque de “chegar na frente”, mais vale um
feio ganhador que um bonito perdedor. O que interessa é a vitória.
Naturalmente os
animais melhores procuram os hipódromos mais adiantados, onde os prêmios são melhores,
maiores. Com o longo mau momento que o turfe brasileiro atravessa, as dotações cada vez ficam
mais defasadas, clubes não promovem mais corridas, outros promovem corridas mas não pagam os
prêmios, e por aí vai. Com a desleal concorrência de bingos, de mega–senas, raspadinhas e
semelhantes, aliada ao descaso governamental e muitas vezes uma inadequada cultura turfística
por parte de dirigentes dos clubes, os “pequenos”, os clubes da terceira faixa, foram
fechando. Os da primeira vivem sob as luzes das duas principais e mais ricas cidades do país,
os da segunda vivem de esforços e “malabarismos” financeiros para subsistir, e os da
terceira, os poucos que ainda promovem corridas, vivem de teimosos.
Em termos gerais e
a “vôo de pássaro”, como dizia Hernani Azevedo Silva, a maior parte das vilas hípicas é
ocupada pelos corredores inferiores, os que “lutam pela ração”, os matungos. São eles as
bases da programação, são eles que enchem os programas. Eu diria que eles constituem, nos
hipódromos da primeira faixa, por volta de 70% do contingente. Mais ou menos 25% são de
animais úteis, bons corredores, os que dão animação aos programas. Fica uma margem da ordem
talvez de 5% para os melhores, aqueles que pretendem as provas de Grupo, aqueles que terão a
responsabilidade de dar continuidade à criação. É claro que os percentuais alvitrados não têm
maior valor do que caracterizar os três grupos, são números inexatos, apenas
indicativos.
Nos clubes menores, os da terceira faixa, só há corredores de expressão
menor, que são sustentados pela paixão e pelo amor ao turfe. Há também potros em iniciação e
um ou outro cavalo melhor em descanso ou sendo preparado para ir embora, à procura de
dotações que permitam o sustento mensal e mais a possibilidade de vantagens
financeiras.
Muitos dos hipódromos dos clubes da terceira faixa estão fechados. Faltam
cavalos, conseqüentemente não promovem corridas, não há circulação de dinheiro. São mausoléus
do turfe, atividade que perdeu a sua popularidade em parte pelo abandono dos canais de
divulgação (jornais, revistas, rádio, televisão), que preferem falar de tênis, de surfe, de
voleibol, de basquetebol, de corridas de automóveis, de alpinismo, de natação, de “skate”, e
naturalmente de futebol. Os meios de comunicação estão de costas para o turfe.
Dentro
desse ambiente desolador, há uma exceção, o Jockey Club de Pelotas, com o seu hipódromo da
Tablada.
Pelotas deve ser a terceira cidade do Rio Grande do Sul (depois de Porto
Alegre e Caxias do Sul), e lá há corridas semanalmente, um programa de 3, 4 ou 5 páreos,
ocasionalmente dois programas na semana. A dotação naturalmente é pequena, 300 reais ao
vencedor, com 90 para o 2° e 60 para o 3°. Na tarde em que assisti as corridas, houve um
páreo em 1.400 metros, outro em 1.200, outro em 1.300 e o último em 600 metros. O movimento
de apostas é irrisório, o interesse maior é pelos “remates”, que só terminam quando não há
mais interessados. Assim, o horário determinado para os páreos é apenas figurativo. O 1°,
marcado para as 3,20 (correu com 35 minutos de atraso), o 2°, das 4,20 largou às 5,05 (45
minutos depois), o 3°, o das 5,20 saiu às 6,15 (atraso de 55 minutos, 5 minutos antes do
horário previsto para o 4° e último páreo). Perguntei a um dirigente, muito solícito e
agradável como todos da Tablada, a que hora ele imaginava que ia ser dada a partida do último
páreo. Ele riu e disse que muitas vezes o último só saía depois que o público começava a
gritar “está na hora”.
O Hipódromo da Tablada é muito bem cuidado, tudo pintadinho e
no lugar, limpo, a área do paddock ampla, o setor de identificação e controle veterinário
adequado às circunstâncias, a raia muito boa de areia de rio, um ambiente de tranqüilidade,
amizade e cortesia. Apesar das pequenas dotações, todos entendem a situação sem reclamações,
pois o clube está em dia com todos os seus compromissos, inclusive os prêmios que são pagos
no primeiro dia útil após a corrida (normalmente pagamento às segundas feiras).
Quatro
detalhes me chamaram a atenção em particular.
O primeiro detalhe, é que nos programas
não consta a enturmação. Foi–me explicado que lá, dada a diversidade das idades e das
categorias dos animais, os animais são inscritos e divididos em grupos, e uma distribuição de
pesos procura equilibrar as chances. Não importam nem a idade nem o número de vitórias, os
lotes ficam os mais homogêneos possíveis em função de suas últimas atuações.
O segundo
detalhe, é que não há irradiação dos páreos. Uma sirene avisa que já há ordem de alinhamento,
a partida é dada, o páreo é corrido, e o público começa a gritar na metade da última reta (a
raia, além de bom piso, tem 1.600 metros de volta fechada). Os páreos são corridos quase que
completamente em silêncio.
O terceiro detalhe, dito pelos turfistas mais antigos,
quando perguntei por que não havia a preocupação do cumprimento dos horários. A resposta veio
completamente satisfatória. As corridas na Tablada eram para os turfistas passarem uma tarde
agradável, reunião de amigos, gente que tinha seus afazeres durante a semana e que ia se
encontrar para passar uma tarde agradável. De quando em quando corria um páreo, as conversas
eram interrompidas mas logo reatadas. O domingo turfístico era na verdade um dia especial
para o encontro de amigos. O cumprimento rígido de horários não era importante. Confesso que
adorei essa explicação.
O quarto detalhe não obteve explicação, a não ser pela
perplexidade, falta de lembrança, de idéia. Foi quando eu perguntei por que o Jockey Club de
Pelotas não tinha um grande prêmio com o nome do sócio–fundador número 1, benemérito Zeferino
Costa, nome até da avenida onde está instalada a Tablada. Ninguém sabia, lapso
geral.
Tablada era o local para onde os produtores de carne e os comerciantes levavam
as boiadas para serem leiloadas, vendidas. Do porto de Pelotas saiam navios carregados de
carne, e era na Tablada que se concentravam os animais vindos de várias partes do estado.
Depois dessa época, foi nesse local implantado o Hipódromo da Tablada.
Só me resta
parabenizar os turfistas pelotenses pelo esforço em manter o hipódromo em atividade, mesmo
com o custo do trato mensal sendo maior que o prêmio de uma vitória, agradecer a gentil e
amistosa hospitalidade geral e em especial do turfista Humberto Luzzardi, que cercou a mim e
ao meu companheiro de viagem Walter Nunes Flores de todas as gentilezas, e informar que lá
voltarei logo que possível.
O Hipódromo da Tablada é um caso de amor ao turfe. |

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