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Março | 2009

Latino–Americano e o forfait dos argentinos, por Sergio Barcellos
11/03/2009 - 11h00min

A frustração de não se poder contar com a participação dos cavalos argentinos no Latino–Americano a ser corrido em São Paulo, levanta algumas questões sobre o turfe do continente, em especial sobre as cristalinas diferenças hoje existentes entre o nosso turfe e o deles.

É claro que há razões e motivos de ordem objetiva por trás da desistência em questão, como sejam os pesados custos da viagem; os riscos que ela sempre acarreta em relação ao transporte e à adaptação dos animais a um novo ambiente; o eterno problema do descumprimento dos horários por parte das empresas aéreas, etc. etc. etc.

Nada disso, porém, seria uma dificuldade definitiva, algo intransponível, a impedir a vinda de todos os argentinos, caso o turfe brasileiro atravessasse um momento mais feliz, onde o prestígio de vencer aqui, batendo os melhores cavalos do país em sua casa, compensasse os riscos da empreitada.

Infelizmente, não vivemos nossos melhores dias em matéria de turfe. E por ser assim, o desinteresse em correr no Brasil tem que ser lido de forma mais realista pelos responsáveis pelas sociedades promotoras de corridas entre nós, principalmente as do Rio e de São Paulo.

Em linguagem direta e sem voluntarismos de qualquer espécie, devemos reconhecer as atuais dificuldades de conseguir despertar o interesse de criadores e proprietários internacionais (mesmo que eles se limitem ao hemisfério sul), e motivá–los a vir correr aqui, enquanto não melhorarmos a organização, os métodos, as posturas, e a estrutura de nosso próprio turfe.

Para nós – sem sonhos juvenis, por favor – é sempre mais interessante hoje em dia enviar nossos cavalos para correr na Argentina, do que tentar sensibilizar os argentinos a correrem os deles no Brasil.

O principal motivo é que, neste momento, qualquer tentativa de comparação entre os dois turfes não se sustenta. Examinemos a questão.

O turfe deles e o nosso turfe

O que significa hoje para os criadores e proprietários brasileiros, bem assim para os profissionais e o público em geral estar na Argentina, ou estar no Brasil? Significa tudo.

Comecemos com uma pergunta e um exemplo bastante ilustrativos: em essência, o que é ir a uma corrida em Palermo?

De saída, para o público, é contar com 2 (duas) tribunas refrigeradas (é, refrigeradas!), entre as várias existentes no hipódromo (uma delas, a tribuna paddock, fechada para reformas no momento).

E mais: restaurantes panorâmicos envidraçados voltados para a pista; o extremo conforto de se poder jogar e receber sem ter sequer que se levantar das mesas; um programa de corridas que começa às 15:00 hs e termina ao redor das 22:00 hs, com cerca de 14/15 páreos por reunião (onde os frequentadores, entre eles vários jovens, terminam o expediente de trabalho e vão diretamente jantar no hipódromo); instalações que primam pela imaculada limpeza; funcionários impecavelmente uniformizados; e – o que é essencial – páreos que correm rigorosamente nos horários programados. Rigorosamente. Dá para acertar o relógio pelas largadas...

Não admira, assim, que, mesmo às segundas–feiras, ainda que na parte diurna da programação, exista sempre um público entusiasta nas corridas. Para esse público, apostador ou não, ir a Palermo ou a San Isidro, é um programa civilizado, não uma aventura de filme tipo “Lost” ou “Missão Impossível.”

E os argentinos vão. Seja em grupo com os amigos, seja com suas mulheres e a família, seja com as namoradas, corretamente trajados como convém a quem freqüenta os hipódromos do planeta. Há ambiente para isso. Ou eles souberam criá–lo, o que dá no mesmo.

Do ponto de vista técnico, as pistas são impecáveis (a de areia, em Palermo, é considerada das melhores de seu tipo no mundo, absolutamente uniforme em toda sua extensão, ampla, rápida, capaz de gerar excelentes tempos), só perdendo para a qualidade superior de sua manutenção.

O programa de corridas – que, à semelhança de todos os programas do turfe mundial, sempre começa com o nome dos proprietários, numa elegante reverência a quem investe e prestigia esse esporte com sua paixão e seu dinheiro – informa, de saída, quem são os comissários de plantão no dia. Aqueles a quem, e de quem, o público deve cobrar equilíbrio, critério, e propriedade em suas decisões.

A quem estiver interessado, o programa (em duas páginas) mostra as próximas provas da programação clássica do hipódromo; apresenta um breve resumo do retrospecto de cada animal nas últimas cinco corridas; e diz que tipos de apostas são permitidos em cada páreo. E há, ainda, a famosa “Revista Rosa” de Palermo com tudo que alguém precisa saber sobre cada animal, vendida na entrada a 5 pesos (cerca de R$ 2,60 ao câmbio de hoje). Detalhe: nos chamados “Clássicos” não se cobra taxa de inscrição dos proprietários dos animais.

Alguma diferença conosco?...

Irrelevante e desnecessário falar dos jóqueis e dos cavalos. Lá está Ricardo, o recordista mundial de vitórias, padrão universal de profissional de seu ofício, mais os ótimos Falero e Talaverano (o de percurso considerado perfeito), entre vários outros. E montando, todos, sem exceção, no peso do programa...

Os cavalos? Bem, os cavalos são os argentinos, os tais que habitam há anos nossa imaginação de turfista, alguns dos quais fazem parte das doces lembranças das melhores primaveras de nossas vidas.

Não, não há como comparar. Se alguém deseja um resumo, em linguagem coloquial, aí vai um: eles não “estão à brinca” em matéria de turfe, estão “à vera”.

Mas a verdadeira diferença a nos separar, é o fato de reconhecerem que turfe não é mais somente lazer: é hoje uma indústria com regras específicas, com enormes responsabilidades em relação ao seu público consumidor, implacável na defesa de sua própria imagem. Além de  dirigida por gente que sabe exatamente o que está fazendo.

Novidade nisso? Nenhuma. É assim que funciona em qualquer lugar do mundo desenvolvido.

Então, por que eles viriam correr no Brasil, quando podem correr lá, com menos risco, prêmios mais compensadores, diante de um mercado excepcionalmente mais dinâmico?

Acreditar o contrário é iludir–se.

Criadores e proprietários daqui, e os de lá

Nosso problema e nossas diferenças, em essência, não estão especificamente na criação do cavalo de corridas. Nem na competência dos homens que os treinam e pilotam. Muito menos, na permanente excitação e entusiasmo daqueles que ainda – apesar de tudo – os adquirem e fazem correr. Não é isso.

Criamos tão bem quanto eles, embora a terra, inclusive, lhes seja mais favorável sobre certos aspectos. Nossos animais hoje são capazes de ganhar dos deles, mesmo que se trate de eventos importantes em suas pistas. O líder da estatística de vitórias lá, é um jóquei nascido e criado aqui, formado na Escola de Aprendizes do Jockey Clube Brasileiro.

Não. O problema não está aí.

A grande diferença entre nós – repita–se até a exaustão, e à náusea, se preciso for... – está no verdadeiro abismo que hoje separa, de um lado, a indústria brasileira do puro–sangue de corridas, aquela mesmo que: (i) gera mais de 12.000 empregos; (ii) mantém quase 400 haras em pleno funcionamento; (iii) dezenas de esplêndidos centros de treinamento construídos com capital privado; e (iv) faz girar a roda de todo um complexo sistema de prestação de serviços; e, do outro, as trágicas deficiências estruturais das sociedades promotoras de corridas do país.

E, por favor, não se diga que lá existem as tais “slot–machines” (as famosas “maquininhas”), a melhorar as rendas da atividade. Melhoraram sim, evidentemente.

Mas as “maquininhas” não nos socorrerão em absolutamente nada, se não mudarmos radicalmente nossas posturas em relação à boa e competente gerência do turfe entre nós. Se dinheiro e afluência econômica sozinhos, sem gerência e responsabilidade, resolvessem qualquer coisa, o mundo não estaria mergulhado na atual crise econômica...

A questão do turfe brasileiro parece muito mais complexa e mais grave para que, candidamente, acreditemos que as “maquininhas” nos salvarão do cortejo infernal de nossas crônicas deficiências. Ou de nossa mediocridade gerencial. Não salvarão.

Pelo menos, enquanto as atuais sociedades promotoras de corridas continuarem a agir simplesmente como clubes sócio–recreativos – sem nenhum compromisso formal com a excelência da gestão da atividade turfística.

E já que o tema é esse, vamos em frente. Muito menos nos salvará todo ou qualquer projeto de aumento dos ingressos das sociedades promotoras de corridas de cavalo, baseado na simples alienação de seu patrimônio físico, não importa a que título, ou sob que forma.

Igualmente, acabaríamos dilapidando o que resta dele, sem nenhum efeito concreto, consistente, e continuado.

Sem uma moderna e eficiente gestão do turfe, tudo seria apenas uma questão de tempo para voltar ao que hoje somos – e o que hoje somos, infelizmente, é apenas nevoeiro e a ânsia distante dos antigos dias de paraíso do turfe brasileiro.

E o pior que poderia nos acontecer, seria trocar “maquininhas” e patrimônio por necessidade de gerência, repetindo a figura bíblica que trocou seu direito de primogenitura por um reles prato de lentilhas.



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