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Fevereiro | 2009

Os cavalos e a bigorna do sol
09/02/2009 - 11h47min

Quando o império britânico expandiu–se para o continente asiático e os confins da Oceania e África, levou consigo a cultura e os modos de vida da sociedade inglesa. Entre eles, a raça thoroughbred, conhecida entre nós como puro–sangue de corrida, ou psi. A partir daí, o turfe ganhou novos adeptos e se disseminou principalmente pela Índia, Singapura, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.

Um dos exemplos disso é o do atual Aga Khan, cujos ancestrais já criavam cavalos de corrida na Índia, mesmo antes de seu avô famoso dominar o turfe inglês a partir de 1920.

Mas havia uma diferença fundamental: por melhor e mais nobres que fossem suas origens e o dinheiro neles investido, a qualidade dos animais gerados nas fronteiras do império jamais esteve à altura daqueles criados nas Ilhas.

O fenômeno é conhecido: o thoroughbred convive mal – na verdade abomina – os climas quentes e úmidos de certos lugares do planeta. Eventuais exceções, como o craque neozelandês Pharlap, servem apenas para confirmar a regra geral.

Mas as dificuldades de adaptação do thoroughbred a certos tipos de clima não se esgotam aí. A experiência demonstra que, quando mudados de ambiente para zonas tropicais e sub–tropicais, mesmo a descendência de animais de excelente pedigree e boa campanha na Europa acaba se degradando ao final de três ou quatro gerações, em função da influência de um meio que lhe é totalmente hostil.

Isso vale não só para a criação, como para as corridas.

Trocas de calor e fadiga aguda

É um princípio básico da física que energia gera calor. Como tal, qualquer ser (ou objeto) que se mova a uma determinada velocidade aumenta inexoravelmente sua temperatura.

No caso de eqüinos a pleno galope, a temperatura corporal cresce progressivamente  até o limite em que todos os sistemas biomecânicos ameaçam entrar em colapso. Nesse instante, só lhes resta a alternativa de diminuir o ritmo para sobreviver.

Isso também explica porque os grandes felinos, cujo aparelho muscular é constituído em sua maioria por fibras de contração rápida, capazes, portanto, de produzir súbitas explosões de velocidade num pequeno espaço de tempo, jamais perseguem suas presas além de algumas centenas de metros. É que quando sua temperatura corporal sobe em conseqüência da enorme quantidade de energia que geram, ou eles insistem na perseguição e sucumbem, ou desistem e aguardam a oportunidade da surpresa se quiserem comer.

Todo esse processo ocorre através de constantes trocas de calor com o meio ambiente. E o cavalo de corrida, o único capaz de manter altas velocidades sobre a distância – e por  isso mesmo considerado a melhor máquina aeróbica do mundo animal – é o exemplo clássico das trocas de calor na natureza.

Poucos como ele estão equipados com uma trama tão vasta de vasos capilares e o número certo de poros para liberar o calor produzido por sua própria energia (daí porque, um dos bons indicadores da qualidade de um thoroughbred é a espessura de sua pele; quanto mais fina e mais irrigada, melhor). Mas isso é assunto para outro momento e outra ocasião.

No caso, o que interessa saber é que a perspectiva de desastre em matéria de performance de um cavalo de corrida acontece sempre que o meio ambiente está numa temperatura maior que a temperatura corporal. Quando isso ocorre, ao invés de liberar calor, o animal o recebe de volta em maior quantidade. Nessa hipótese, adeus performance. Nessa hipótese, tudo se resume a apenas aguardar a chegada da fadiga aguda antes do disco.

Horário das corridas

Num dia de sol  meridiano no Rio de Janeiro, o chamado sol a pino do verão carioca, qualquer termômetro colocado sobre as pistas da Gávea vai cravar temperaturas em torno de 40°/45° Celsius. Ou até mais.

Esses são os dias conhecidos nos trópicos como aqueles em que as cores primárias dão lugar aos cinzas e brancos da paisagem, e tudo que resta ao espectador é perceber sombra e luz. São os tais dias em que a claridade do ambiente ofende a vista e obriga a retração das retinas quando se pretende enxergar algo.

Parece ilógico, pois, que nesses dias se pretenda que os cavalos de corrida atuem na exata medida de suas potencialidades, principalmente se a programação começa, como ocorre entre nós, em torno das 14:30 hs (horário de verão), 13:30 hs, horário de Greenwich.

Já no galope de apresentação, os animais dão mostras de quanto estão sendo exigidos quando os submetemos a um tipo de teste inteiramente avesso à sua natureza e constituição. Não causa nenhuma surpresa, assim, perceber os inúmeros casos de anidrose, de esgotamento, e de fadiga aguda anotados após os páreos pelo departamento de veterinária do Jockey Club Brasileiro. E a lista dessas ocorrências pode ser alarmante.

Do ponto de vista da boa e equilibrada gerência do turfe, parece razoável evitar que isso ocorra. Inclusive porque, o efeito sobre o jogo de apostas é dramático. Diante do grau de incerteza sobre o resultado das pistas – amplificado por fatores externos à real capacidade dos animais – a tendência de quem arrisca seu dinheiro nos cavalos de corrida é sempre a de proteger–se, ao invés de agir.

Com efeito, quem se arrisca a jogar em cavalos de corrida no verão carioca (principalmente quando se trata dos concursos onde as apostas são antecipadas), nunca sabe exatamente qual vai ser o estado e a reação dos animais diante da autêntica provação a que são submetidos todos os fins de semana pelos horários de nossa programação.

Costumes e a bigorna do sol

Mesmo para os beduínos, inventores do cavalo árabe que está na origem do thoroughbred, mesmo para eles, nascidos e criados no deserto, algumas regiões do Oriente Médio e do norte da África são irreconciliáveis com a vida. Tais regiões são conhecidas como a “bigorna do sol.” E nelas, o meio de locomoção é o camelo – nunca o cavalo, mesmo que árabe ou berbere.

As pistas da Gávea ao redor das 13:00/14:00 horas de um dia quente de verão, não são muito diferentes da bigorna do sol, com o agravante do clima aqui ser sempre úmido, o que geralmente não ocorre no deserto.

Mas este não é o único argumento a sugerir uma mudança radical em nossas posturas. Há outro tão importante quanto, a clamar que pensemos seriamente no assunto.

Nos últimos vinte ou trinta anos, tudo mudou no Rio de Janeiro. Mudaram os hábitos da população; mudaram as alternativas de lazer; mudaram os meios de transporte; mudaram, de forma rápida e revolucionária, as comunicações; quase duas gerações se sucederam; novos bairros cresceram e se consolidaram como importantes pólos urbanos; mudou decisivamente o perfil de renda dos habitantes. Nada é mais como antes nesta cidade.

Só uma coisa teimosamente não mudou: o vetusto horário da programação de corridas do hipódromo da Gávea nos fins de semana do verão. E a pior conseqüência disso não é só obstinação e pertinácia: a pior conseqüência é tentar impor ao público turfista (apostadores ou não), uma forma de ser, de pensar, e de agir, como se o turfe, e só ele, tivesse parado no tempo.

Na verdade, o turfe em si não parou; pararam no tempo, isso sim, as sociedades promotoras de corridas que inexplicavelmente se recusam a admitir que os usos e costumes da sociedade carioca mudaram radicalmente. E o turfe, queira ou não, é apenas um microcosmo dela.

Nada pode ser menos inteligente que a falta de percepção de que sistemas fechados tendem inexoravelmente à extinção. Infelizmente, a recusa de admitir mudanças no turfe vai acabar gerando a entropia que acabará por destruí–lo entre nós.

Submeter cavalos de corrida, principalmente os juvenis, à agonia de ter que correr na bigorna do sol não é nada. Erros de avaliação sempre os há. Pior, é candidamente imaginar que algum dia ainda haverá público que se disponha a vê–los atuar nessas circunstâncias. E apostar neles.

Sergio Barcellos



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