Quando o império britânico expandiu–se
para o continente asiático e os confins da Oceania e África, levou consigo a cultura e os
modos de vida da sociedade inglesa. Entre eles, a raça thoroughbred, conhecida entre nós como
puro–sangue de corrida, ou psi. A partir daí, o turfe ganhou novos adeptos e se disseminou
principalmente pela Índia, Singapura, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul.
Um dos
exemplos disso é o do atual Aga Khan, cujos ancestrais já criavam cavalos de corrida na
Índia, mesmo antes de seu avô famoso dominar o turfe inglês a partir de 1920.
Mas
havia uma diferença fundamental: por melhor e mais nobres que fossem suas origens e o
dinheiro neles investido, a qualidade dos animais gerados nas fronteiras do império jamais
esteve à altura daqueles criados nas Ilhas.
O fenômeno é conhecido: o thoroughbred
convive mal – na verdade abomina – os climas quentes e úmidos de certos lugares do planeta.
Eventuais exceções, como o craque neozelandês Pharlap, servem apenas para confirmar a regra
geral.
Mas as dificuldades de adaptação do thoroughbred a certos tipos de clima não se
esgotam aí. A experiência demonstra que, quando mudados de ambiente para zonas tropicais e
sub–tropicais, mesmo a descendência de animais de excelente pedigree e boa campanha na Europa
acaba se degradando ao final de três ou quatro gerações, em função da influência de um meio
que lhe é totalmente hostil.
Isso vale não só para a criação, como para as
corridas.
Trocas de calor e fadiga aguda
É
um princípio básico da física que energia gera calor. Como tal, qualquer ser (ou objeto) que
se mova a uma determinada velocidade aumenta inexoravelmente sua temperatura.
No caso
de eqüinos a pleno galope, a temperatura corporal cresce progressivamente até o limite
em que todos os sistemas biomecânicos ameaçam entrar em colapso. Nesse instante, só lhes
resta a alternativa de diminuir o ritmo para sobreviver.
Isso também explica porque os
grandes felinos, cujo aparelho muscular é constituído em sua maioria por fibras de contração
rápida, capazes, portanto, de produzir súbitas explosões de velocidade num pequeno espaço de
tempo, jamais perseguem suas presas além de algumas centenas de metros. É que quando sua
temperatura corporal sobe em conseqüência da enorme quantidade de energia que geram, ou eles
insistem na perseguição e sucumbem, ou desistem e aguardam a oportunidade da surpresa se
quiserem comer.
Todo esse processo ocorre através de constantes trocas de calor com o
meio ambiente. E o cavalo de corrida, o único capaz de manter altas velocidades sobre a
distância – e por isso mesmo considerado a melhor máquina aeróbica do mundo animal – é
o exemplo clássico das trocas de calor na natureza.
Poucos como ele estão equipados
com uma trama tão vasta de vasos capilares e o número certo de poros para liberar o calor
produzido por sua própria energia (daí porque, um dos bons indicadores da qualidade de um
thoroughbred é a espessura de sua pele; quanto mais fina e mais irrigada, melhor). Mas isso é
assunto para outro momento e outra ocasião.
No caso, o que interessa saber é que a
perspectiva de desastre em matéria de performance de um cavalo de corrida acontece sempre que
o meio ambiente está numa temperatura maior que a temperatura corporal. Quando isso ocorre,
ao invés de liberar calor, o animal o recebe de volta em maior quantidade. Nessa hipótese,
adeus performance. Nessa hipótese, tudo se resume a apenas aguardar a chegada da fadiga aguda
antes do disco.
Horário das corridas
Num
dia de sol meridiano no Rio de Janeiro, o chamado sol a pino do verão carioca, qualquer
termômetro colocado sobre as pistas da Gávea vai cravar temperaturas em torno de 40°/45°
Celsius. Ou até mais.
Esses são os dias conhecidos nos trópicos como aqueles em que as
cores primárias dão lugar aos cinzas e brancos da paisagem, e tudo que resta ao espectador é
perceber sombra e luz. São os tais dias em que a claridade do ambiente ofende a vista e
obriga a retração das retinas quando se pretende enxergar algo.
Parece ilógico, pois,
que nesses dias se pretenda que os cavalos de corrida atuem na exata medida de suas
potencialidades, principalmente se a programação começa, como ocorre entre nós, em torno das
14:30 hs (horário de verão), 13:30 hs, horário de Greenwich.
Já no galope de
apresentação, os animais dão mostras de quanto estão sendo exigidos quando os submetemos a um
tipo de teste inteiramente avesso à sua natureza e constituição. Não causa nenhuma surpresa,
assim, perceber os inúmeros casos de anidrose, de esgotamento, e de fadiga aguda anotados
após os páreos pelo departamento de veterinária do Jockey Club Brasileiro. E a lista dessas
ocorrências pode ser alarmante.
Do ponto de vista da boa e equilibrada gerência do
turfe, parece razoável evitar que isso ocorra. Inclusive porque, o efeito sobre o jogo de
apostas é dramático. Diante do grau de incerteza sobre o resultado das pistas – amplificado
por fatores externos à real capacidade dos animais – a tendência de quem arrisca seu dinheiro
nos cavalos de corrida é sempre a de proteger–se, ao invés de agir.
Com efeito, quem
se arrisca a jogar em cavalos de corrida no verão carioca (principalmente quando se trata dos
concursos onde as apostas são antecipadas), nunca sabe exatamente qual vai ser o estado e a
reação dos animais diante da autêntica provação a que são submetidos todos os fins de semana
pelos horários de nossa programação.
Costumes e a bigorna do
sol
Mesmo para os beduínos, inventores do cavalo árabe que está na origem
do thoroughbred, mesmo para eles, nascidos e criados no deserto, algumas regiões do Oriente
Médio e do norte da África são irreconciliáveis com a vida. Tais regiões são conhecidas como
a “bigorna do sol.” E nelas, o meio de locomoção é o camelo – nunca o cavalo, mesmo que árabe
ou berbere.
As pistas da Gávea ao redor das 13:00/14:00 horas de um dia quente de
verão, não são muito diferentes da bigorna do sol, com o agravante do clima aqui ser sempre
úmido, o que geralmente não ocorre no deserto.
Mas este não é o único argumento a
sugerir uma mudança radical em nossas posturas. Há outro tão importante quanto, a clamar que
pensemos seriamente no assunto.
Nos últimos vinte ou trinta anos, tudo mudou no Rio de
Janeiro. Mudaram os hábitos da população; mudaram as alternativas de lazer; mudaram os meios
de transporte; mudaram, de forma rápida e revolucionária, as comunicações; quase duas
gerações se sucederam; novos bairros cresceram e se consolidaram como importantes pólos
urbanos; mudou decisivamente o perfil de renda dos habitantes. Nada é mais como antes nesta
cidade.
Só uma coisa teimosamente não mudou: o vetusto horário da programação de
corridas do hipódromo da Gávea nos fins de semana do verão. E a pior conseqüência disso não é
só obstinação e pertinácia: a pior conseqüência é tentar impor ao público turfista
(apostadores ou não), uma forma de ser, de pensar, e de agir, como se o turfe, e só ele,
tivesse parado no tempo.
Na verdade, o turfe em si não parou; pararam no tempo, isso
sim, as sociedades promotoras de corridas que inexplicavelmente se recusam a admitir que os
usos e costumes da sociedade carioca mudaram radicalmente. E o turfe, queira ou não, é apenas
um microcosmo dela.
Nada pode ser menos inteligente que a falta de percepção de que
sistemas fechados tendem inexoravelmente à extinção. Infelizmente, a recusa de admitir
mudanças no turfe vai acabar gerando a entropia que acabará por destruí–lo entre
nós.
Submeter cavalos de corrida, principalmente os juvenis, à agonia de ter que
correr na bigorna do sol não é nada. Erros de avaliação sempre os há. Pior, é candidamente
imaginar que algum dia ainda haverá público que se disponha a vê–los atuar nessas
circunstâncias. E apostar neles.
Sergio Barcellos