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Fevereiro | 2009

Antigos Criadores VI, por Milton Lodi
05/02/2009 - 10h30min

O Chile havia passado por período político terrível, até com invasões de terras que eram coibidas mas até incentivadas por um governo populista. Houve naturalmente uma revolução, uma contrapartida para restaurar o direito de todos, e o líder da reviravolta foi idolatrado pelas populações das cidades e também dos campos. O General Pinochet era o herói nacional.

Um ano depois, o Jockey Club de São Paulo foi convidado a participar das festividades do Clássico El Ensayo, em 1.600m na grama, no Hipódromo do Club Hípico de Santiago, 1ª Prova da Tríplice Coroa chilena. Eu e o Bernardo Teixeira Vianna (Haras Capricórnio) fomos como representantes, e lá nós jantamos, com as nossas mulheres e os casais Resom Lahod (Haras Brasil) e Wasfi Júlio Zarzur (Haras Eduardo Guilherme). Lá encontramos um Chile otimista, idolatrando o líder Pinochet. O país se recuperava de um período terrível, de insegurança generalizada.

Visitamos algumas propriedades rurais, haras, que haviam sido invadidos e deteriorados por invasores, terras que tinham retornado às mãos de seus legítimos donos. Eram visíveis os estragos, mas tudo melhorava.

A natureza foi pródiga com o Chile, país rural, de solo privilegiado, água limpa, povo generoso. No sábado visitamos um haras que viria no dia seguinte a ser o criador do ganhador do El Ensayo, um lindo alazão de nome Royal Champion.

Em Santiago há dois hipódromos, o Club Hípico (só grama, corridas no sentido contrário ao brasileiro) e o Hipódromo Chile (só areia, e no sentido habitual). Há um terceiro importante no Chile, o Valparaiso Sporting Club, mas é em Viña Del Mar (só grama, sentido normal). Nos haras, nos hipódromos, na cidade, o sentimento era de alívio geral, o pesadelo já havia ido embora. Quando estávamos passeando pela zona comercial de Santiago, o Júlio encrencou.

Wasfi Júlio Zarzur era um homem boníssimo, rico, bom companheiro, que gostava de se comportar como um caipira. Era gentil e espirituoso. Entramos todos em uma loja que vendia rádios de pilha, uma novidade na época. O Júlio entendeu de comprar um; e a vendedora, com seu castelhano, e o Júlio, com seu português com sotaque de paulista caipira, não se entenderam. A moça foi ficando nervosa, o Júlio irritado. Nós nos acercamos, para procurar ajudar, e o Júlio dizia que a moça vendia o rádio mais negava–se a vender as pilhas, e a moça dizia que a loja não tinha pilhas, que deveriam ser compradas na loja da esquina. Aí chegou uma senhora educada, bem vestida, claramente a dona da loja, que logo percebeu o problema. Sorridente, dirigiu–se ao Júlio e perguntou “usted habla español?”, a resposta foi “não”. A senhora então perguntou “parlez–vous français?”, resposta “não”. A senhora insistiu “parla italiano?”, novamente não. Já meio desanimada, ela ainda tentou “dou you speak english?”, e levou outro “não”. E ante a surpresa de todos Júlio disparou “mas falo árabe”. O Júlio era assim, imprevisível. Tudo se resolveu bem quando, em meio às gargalhadas gerais o Tum (Restom Lahud) pegou o rádio, pagou, e levou o Júlio para comprar as pilhas na esquina.

Com o Júlio costumavam acontecer coisas inusitadas. Em 1962, o Grande Prêmio Brasil foi vencido pelo cavalo uruguaio Montecristo. Com a desclassificação posterior por doping, passou a ganhador o nacional Ortille, de propriedade do Júlio. Ele me telefonou de São Paulo pedindo que eu fosse à diretoria do JCB solicitar providências para que as taças lhe fossem encaminhadas. Tentei com mais de um diretor, cheguei a sugerir que caso o JCB não conseguisse recuperar as taças originais, que providenciassem outras. A resposta foi sempre a mesma, o problema era do Júlio, ele que se virasse. Essa odiosa postura era a tônica, os criadores e os proprietários eram marginalizados. Os sedistas viviam às custas do hipódromo, usufruíam e mandavam, o pessoal do turfe, que produzia o dinheiro e dava vida à atividade, não era considerado. Foram necessários muitos anos para que obstáculos desse teor fossem derrubados. E o Júlio ficou sem as taças.

Com o mesmo Ortille o Júlio teve outro fato inusitado. A vitoriosa excursão dos oito cavalos brasileiros ao 25 de Mayo, da qual o Júlio participara diretamente como proprietário de Derah, ganhadora em Palermo da milha das éguas, provocou nova tentativa, mais uma vez com o amparo do Jockey Club de São Paulo. Hoje em dia, os cavalos são colocados em, digamos assim, mini–boxes, cubículos metálicos fechados, apenas com espaço para movimentos mas sem possibilidades de se locomoverem ou se soltarem, andarem ou semelhante. Normalmente esses “pallets” são para três cavalos, completamente separados mas em um só bloco metálico. Os aviões modernos são maiores, mais altos e mais longos. Uma maquina empilhadeira levanta o “pallet” até o porão de carga, e lá o bloco é fixado. O mesmo procedimento, ao inverso, é adotado na retirada dos “pallets”. Mas naquela época os cavalos entravam nos aviões–cargueiros acessando por rampas, andando puxados e colocados em grupos de 3 ou 4, emparelhados, um lote na frente do outro, separados por um espaço para cavalariços, material, etc. Entre o grupo o grupo da frente e a cabine dos pilotos, havia outro espaço, maior, com uma larga porta lateral. Os animais entravam pela traseira do avião, que era bem mais baixo, para facilitar a colocação e a retirada das cargas. Os cavalos ficavam lateralmente separados por madeira e ripas, e à frente ficavam atados a uma larga tábua, onde eram amarrados. Não era uma segurança como a de hoje, mas os cavalos comportavam–se bem.

Entre os animais selecionados estavam Fama para o quilômetro das éguas, Initié para a milha das éguas, e Ortille para o páreo principal. Os animais se acomodavam normalmente, o Ortille estava no grupo da frente, Fama e Initié no de trás. Tudo em ordem, só que o tempo foi passando e o avião permanecia parado. A demora irritou os animais, Initié escoiceava sem parar. Mais de duas horas após o embarque, a porta traseira teve que ser para a retirada de Initié, que com um pé machucado não podia correr. O acesso traseiro foi novamente fechado, e o avião continuou parado. E a impaciência aumentando.

De repente, o Ortille arrancou, quebrou madeiras e ripas, ficou completamente solto no “salão” da frente, que estava com a porta lateral aberta. Ortille foi até lá e saltou. A altura não era grande, o cavalo ralou–se um pouco no chão e, solto, saiu galopando no piso de asfalto da área de estacionamento e manobras de aviões do Aeroporto de Congonhas. Foi uma correria geral, o medo maior era que o cavalo fosse para as pistas de pouso e decolagem. Mas Ortille galopou mais um pouco pela área, e calmamente parou e ficou comendo um capinzinho que havia em um canteiro. Não criou caso, deixou–se pegar sem problemas.

Os animais foram levados de volta para seus boxes em Cidade Jardim. Luiz de Oliveira Barros, então presidente do JCSP, chamou os proprietários dos viajantes, colocando o clube à disposição para a resolução, retornarem os animais no dia seguinte ao aeroporto ou cancelar a excursão. Prevaleceu o bom senso, a viagem foi cancelada. Havia coisas que só aconteciam com Wasfi Júlio Zarzur, o Júlio, um ótimo proprietário e um criador médio, amigo de todos, engraçado com seu jeito de caipira paulista. Grande figura.



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