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Fevereiro | 2009
Anarquia e jogo de apostas, por Sergio Barcellos 02/02/2009 - 13h17min
No turfe
moderno, não existe a menor e mais remota possibilidade de aumento do volume de apostas sem a
existência do sistema simulcasting com outro(s) hipódromo(s). Sozinho, ninguém vai mais a
lugar algum.
Da mesma forma, não existe a menor e mais remota possibilidade de haver
simulcasting, se os horários da programação de corridas não são rigorosamente respeitados por
todos. Uma coisa depende diretamente da outra e as duas caminham juntas.
É exatamente
a partir desses pressupostos que funciona o simulcasting nos países desenvolvidos (o tal que
nós tanto admiramos). Ocorre que ali ninguém ousa brincar com o tema, pois, além de existirem
multas contratuais pesadas, as sociedades promotoras de corridas que descumprem os horários
de sua programação terminam invariavelmente alijadas do convívio internacional. Tornam–se
inconfiáveis.
Entende–se o rigor a respeito. O turfe do hemisfério norte de há muito
deixou de ser campo de experimentação de teorias exóticas, entre as quais aquela que vincula
o aumento das apostas ao atraso propositado das largadas – na esperança vã de que, com isso,
se consegue gerar maior volume de jogo. Nada mais falso. Não se consegue.
Ao
contrário, a falta de regras claras a respeito acostuma e vicia o apostador a adiar seu jogo,
ao invés de realizá–lo. Por óbvio, ele percebe imediatamente quando os horários não são para
valer.
E nem é preciso ser apostador em corridas de cavalo; qualquer um é capaz de
perceber manifestações continuadas de anarquia institucional, e passar a agir conforme toca a
música. Faz parte mesmo do instinto de defesa da natureza humana.
Mas a bagunça e o
desrespeito aos horários de largada não tem somente este efeito pernicioso, desmoralizante, e
cínico.
Muito mais grave, é transmitir a todos os envolvidos no processo –
profissionais, proprietários, apostadores, a mídia especializada, e o público em geral – a
desastrada imagem de que as corridas de cavalo são um esporte desorganizado, dirigido por
gente com os conceitos errados. E como tal, indigno de merecer a confiança e o apoio de
eventuais patrocinadores.
Por óbvio, nenhuma empresa séria arriscaria seu dinheiro,
sua marca, e seu prestígio como corporação, apoiando um esporte que não respeita nem a si
mesmo. Esta é a parte mais dolorosa do erro. Dói não apenas no bolso; dói e destrói a própria
imagem do esporte.
Tempos e rituais
O turfe
mais rico do mundo, aquele que apresenta níveis estratosféricos de apostas em comparação com
os demais, ou seja, o turfe da Ásia – e aqui estamos falando principalmente do Japão e Hong
Kong – é regido por dois conceitos básicos: (a) o culto aos “heróis certos” da atividade
(leia–se, o cavalo e tudo que o cerca); e (b) um temor reverencial à disciplina do espetáculo
das corridas.
Como corolário, todo o marketing do esporte é focado na exaltação das
qualidades intrínsecas do animal e na competência e habilidade dos jóqueis que os dirigem.
Cavalos e jóqueis, nesta ordem, constituem os únicos parâmetros de divulgação do turfe
asiático. Portanto, para a publicidade do esporte, tudo o mais perde sentido e consistência
diante dessas duas realidades.
Isso implica dizer que a orientação a todos
aqueles que transmitem e comentam as corridas (TV’s principalmente...) é somente uma:
deter–se prioritariamente na análise dos animais. Seja discorrendo sobre sua aparência e o
estado de seu “make up” mental nos instantes que antecedem a disputa; seja analisando a forma
como se apresentam no cânter; seja informando sobre a adaptação de suas origens às distâncias
e pistas do programa; seja fornecendo os dados de sua performance pregressa (retrospecto, no
jargão do turfe – embora esse seja meramente indicativo); seja examinando a qualidade e
competência dos jóqueis que os montam; seus diferentes níveis de peso (peso do jóquei é algo
fundamental em corridas de cavalo); etc. etc. etc.
Irrelevante – por tanger o ridículo
– insistir em conclamar o público a jogar. Até porque, apostadores em corridas de cavalo,
principalmente os profissionais, são infinitamente mais competentes, mais perceptivos, e
melhor informados que qualquer comentarista, por mais experiente que ele seja. Melhor,
portanto, que estes últimos se atenham exclusivamente à análise dos animais.
Este,
aliás, é o único e verdadeiro serviço que podem prestar ao público, e para o qual são pagos
pelas sociedades promotoras de corridas: falar e analisar os cavalos – e somente os
cavalos – do páreo. À exaustão. Quem não consegue, ou não sabe fazer isso, está certamente na
profissão errada.
O segundo conceito é o da estrita observância da disciplina do
espetáculo, o que equivale a obedecer religiosamente a cronologia de seus tempos e
rituais.
Entre esses, o principal é o do cumprimento da hora de largada. Salvo
qualquer incidente com algum animal – às vezes eles ocorrem – pode–se acertar o relógio pelo
horário de largada de qualquer hipódromo decente do mundo, da Europa à Ásia, da América à
Oceania. E aqui não importa se se trata do Derby inglês, ou de uma simples eliminatória do
programa.
Lição aprendida
Houve tempo em
que, também no Jockey Club Brasileiro, se podia acertar o relógio pela hora de largada das
provas (no dia do GP Brasil, inclusive). O resultado dessa atitude foi surpreendente, para
dizer o mínimo. O volume de jogo mais que duplicou em poucos meses, e todos – apostadores
principalmente – se adaptaram rapidamente ao fato de que, ou se apressavam, ou perdiam a
oportunidade da aposta.
Depois de um período de relativa incerteza – infelizmente,
sempre há quem equivocadamente ainda insista em acreditar no contrário – hoje na Gávea
tenta–se, na medida do possível, respeitar esse postulado. Melhor.
Entretanto, todo o
esforço para cumprir os horários da programação entre nós, correrá sempre o risco de se
esvair, diante da inexistência de uma efetiva contrapartida por parte de outras sociedades
promotoras de corridas, participantes do simulcasting com o Rio de Janeiro. A conseqüência
dessa falta de entendimento e de compromisso é uma só: perdem todos.
Perde a Gávea,
porque atrasos de eventuais contra–partes têm gerado o caos nas corridas do Rio de Janeiro;
perde a outra ponta do simulcasting, porque não aproveita em todas as suas potencialidades o
jogo de seus próprios apostadores nas corridas da Gávea.
E, claro, perde o turfe
brasileiro como um todo, porque ainda revela estar longe, muito longe, de transmitir aos
observadores externos a certeza de que, afinal, se tornou suficientemente maduro e
profissional para se organizar e começar a pensar em dias melhores.
Não. Não há saída.
Ou todos se adaptam, se convencem, e se preparam para cumprir os rituais básicos desse
esporte – transformando intenções e expectativas em realidades concretas – ou adeus
possibilidade de simulcasting nacional.
E nem se imagina aqui mencionar o simulcasting
internacional.
Diante de atrasos patéticos que começam já na largada do primeiro páreo
do programa – algo, sob todos os títulos, inaceitável – e podem alcançar quase uma hora antes
do último, qualquer ilusão de um dia virmos a participar do universo internacional do jogo de
apostas em corridas de cavalo equivale a fazer piada com coisa séria.
Se as sociedades
promotoras de corridas de cavalo no Brasil querem ser respeitadas, deviam começar a se fazer
respeitar pelo público e os apostadores que as mantêm. Ou, então, desistir de vez do
projeto.
Sergio Barcellos |

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