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Janeiro | 2009

O Sexteto CC, por Milton Lodi
29/01/2009 - 11h20min

Eram duas meninas e quatro meninos, que eram filhos de treinadores, de jóqueis, de cavalariços e de funcionários do setor hípico do Jockey Club Brasileiro, que fizeram os antigamente chamados cursos primário e ginasial. Escola gratuita, considerada pelas autoridades como de ótimo nível, proporcionava uma sadia integração da comunidade que profissionalmente trabalha no turfe carioca.

Aqueles seis se davam muito bem, além do que tinham em comum um pendor musical, todos gostavam e conheciam a boa música, não “som”, barulho, mas música nacional de boa qualidade.

Terminado o período escolar, cada um procurou o seu caminho, todos na área musical, até que um dia, passados os anos, encontraram–se em uma festividade promovida pelo JCB para ex–alunos. Daí surgiu à idéia de um sexteto musical. Repertório bem escolhido, de boa qualidade, muitos sambas antigos, sambões mesmo, com aquelas poesias musicadas inesquecíveis.

“O nosso doce amor é falso, mas é muito bonito, ela diz que me ama, e eu finjo que acredito”.

Por coincidência, os seis eram conhecidos, nomes e sobrenomes, com a inicial C.

No violão, Célia Cebola tocava um de sete cordas. Sabia ler música, aprendera com professor qualificado, era uma senhora instrumentista. Era à base do conjunto. Ninguém sabia mais se o verdadeiro sobrenome dela era mesmo Cebola ou um apelido de criança, na verdade, só era conhecida como Célia Cebola. Mulata clara, quieta, tocava compenetrada, com precisão e suavidade. Célia Cebola era o primeiro CC.

No cavaquinho, Clóvis Careca. De careca ele não tinha nada, era até bem cabeludo, mas um apelido de criança ficara para sempre. Tocava o seu instrumento com um dedilhar perfeito, ágil, rápido, repicava e respondia a voz do violão da Célia Cebola. Branquelo, magro, Clóvis Careca tinha a sua formação musical ouvindo os saraus e pagodes que todas as noites rolavam no Morro em que passara a infância. Clóvis Careca era o segundo CC do sexteto, e disputava com Chico Chocolate os amores de Célia Cebola.

Chico Chocolate era um nego bonito, alegre, sestroso, que tocava um pandeiro dos mais rebuscados, era sempre requisitado nos carnavais para desfilar em escolas de samba, tanto pelas artes de ritmista como pelas estripulias e gingados do seu samba no pé, uma constante alegria. Sempre de olho na Célia Cebola, Chico Chocolate era o terceiro CC do conjunto.

Cláudio Carambola era um dos destaques nas apresentações em festas e palcos, com o seu tamborim. Sempre de sapatos, meias, calça, camisa e um chapéu brancos, sempre todo de branco, no seu tamborim com muita competência, um complemento rítmico do violão, do cavaquinho e do pandeiro, enquanto sambava com leveza, com graça, com arte. Só a figura do Cláudio Carambola valia o espetáculo. Nos intervalos entre as músicas, contava piadas, casos engraçados que teriam ocorrido com ele, na verdade quase tudo mentira, mas o que importava era a alegria que transmitia Cláudio Carambola, nunca tirava o chapéu, e com sua simpatia anualmente desfilava na passarela do samba no Sambódromo do Rio. Cláudio Carambola era o quarto CC do grupo.

Cacilda Caneca era cantora, uma voz divina, límpida, maravilhosa, sabe–se lá de onde ela tirava a suavidade e a clareza com que dizia as poéticas palavras de seu canto, ainda mais bebendo como ela fazia a toda hora, a todo o momento, sempre com uma caneca de cerveja na mão (daí o apelido de Caneca), mas como que por milagre nas apresentações do sexteto a sua voz era límpida, angelical. Ela era sempre muito aplaudida. Cacilda Caneca era pequena e gorducha, branquinha e sardenta. Ela não escondia a paixão que tinha pelo Carlão Curió, e que disputava com a Célia Cebola. Cacilda Caneca era o quinto CC do grupo.

Carlão Curió, o sexto do sexteto, era o cantor. Magro, alto, com a pele tão preta que chegava a azular, com a voz macia e bem entoada, acompanhava o canto da Cacilda Caneca em contraponto. O seu tipo físico, a sua cor totalmente escura e seu olhar de cachorro abandonado faziam grande sucesso com o mulherio das platéias, mas ele a todas ignorava, só tinha olhos para uma mulata que não era do sexteto, era a irmã do Chico Chocolate, o do pandeiro. A tal mulata era a empresária, tomava conta e fazia de tudo, era uma fera em organização.

As viagens quase semanais pelos anos afora, dinheiros bem ganhos e bem gastos, até que um dia a irmã do Chico Chocolate morreu. O sexteto ficou sem direção.

Os primeiros a sair do grupo foram Chico Chocolate e Cláudio Carambola, pandeiro e tamborim, contratados pela televisão e também pelo carnaval.

Sem o pandeiro do Chico Chocolate e o tamborim do Cláudio Carambola, o sexteto virou quarteto.

Não demorou muito e o Carlão Curió, o cantor, em profunda depressão com a morte da sua amada, a irmã do Chico Chocolate, mergulhou na cachaça até que uma tarde ele dormiu para não mais acordar.

Célia Cebola no violão e Clóvis Careca no cavaquinho passaram a formar um trio com a voz maravilhosa da Cacilda Caneca.

A idade chegou para Clóvis Careca, os seus dedos perderam o ágil toque que era o seu ponto forte, e ele teve que se aposentar.

Ficou o Dueto CC composto por duas mulheres, as duas remanescentes do Sexteto, a voz maravilhosa de Cacilda Caneca e o extraordinário violão da Célia Cebola. Os anos foram se passando, as músicas com as lindas e poéticas letras dos sambões antigos foram sendo substituídas por música eletrônica, rock, funk, além do que as duas moças ficaram duas velhas e respeitáveis senhoras, que até hoje encantam os saudosistas, os apreciadores da boa música.

O Dueto CC, de Célia Cebola e Cacilda Caneca, sempre uma surpreendente voz macia, encantadora, acompanhada por um violão da melhor qualidade em técnica e musicalidade, o Dueto CC ainda está por aí.

Eu acho que as duas vão acabar indo juntas para o Céu, pois lá com certeza estará alguém ou “A” de bom gosto que certamente gostará de tê–las por perto. E tudo começou na escola gratuita do JCB.



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