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Janeiro | 2009
Antigos Criadores V, por Milton Lodi 22/01/2009 - 10h57min
Há
cerca de 60 anos, entre 1945 e 1965, dois haras se destacavam no Estado do Paraná, o Valente
e o Paraná. Eram técnicamente diferentes, a começar de suas localizações. Como todos sabem,
as melhores terras para criação de cavalos de corrida no Brasil são as gaúchas,
principalmente aquelas perto das fronteiras do Brasil com o Uruguai e a Argentina. Quanto
mais longe de Porto Alegre, em direção ao pampa gaúcho, melhores as terras, que são extensões
do uruguaio e argentino. Os picos de calor no verão, chegando ao extremo do solo rachar com a
intensidade do sol, e do excessivo frio no inverno (eu mesmo cheguei a enfrentar em uma noite
em Bagé, ao mesmo tempo, chuva, vento e frio, com uma sensação térmica de verdadeiro
castigo), os animais soltos de madrugada não comendo e tentando se defender de uma situação
indefensável, repito, os picos do calor e do frio são muito exagerados, mas no geral a
natureza é muito generosa. Por outro lado, no Paraná, ocorre situação inversa. Quanto mais
perto de Curitiba, melhores as terras, que não tem o mesmo alto padrão das gaúchas mas que,
além de também serem boas, não têm os tais picos. O problema da criação paranaense é cada vez
maior, o crescimento da cidade de Curitiba, e o seu crescimento vai transformando ótimos
solos rurais em rodovias asfaltadas, fábricas, etc.
Naquela época, o Haras Paraná foi
instalado pràticamente na beira da cidade, na provavelmente melhor terra do Estado. Com a II
Grande Guerra Mundial (1939/1945), o medo de bombardeios e invasões, as destruições e as
necessidades, provocaram muitas ofertas de cavalos e éguas da Europa para a América do Sul. O
Haras Paraná era de propriedade do médico psicólogo (ou psiquiatra) Alô Ticoulat Guimarães e
de Farid Surugi. Compraram bem barato um filho de Fairway, cavalo de pretensões modestas,
regulares, mas que se mostrou muito bom, generoso, dando filhos de muito bom padrão.
Chamava–se Fair Trader. O Haras Paraná deveu a sua grandeza ao tripé “Fair Trader– solo
privilegiado– Heitor Berleze”. Esse Heitor Berleze era o faz–tudo, um homem competente e
dedicado que fazia os partos, consertava as cercas, mantinha em ordem todos os setores da
propriedade, que tinha que viver dos seus próprios meios, pois o Dr. Alô e o sócio eram
pessoas organizadas, corretas, mas que entendiam que o haras não era para ser sustentado por
eles, mas ao contrário, tinha que dar dinheiro a eles. Nunca compravam éguas, elas eram
ganhas de presente ou trocadas por produtos que delas viessem a nascer. Os potros eram
vendidos na barriga, em gestação, o comprador pagava desde logo uma mensalidade, e aos 2 anos
de idade recebia o produto criado com o dinheiro dele, dos bolsos dos dois criadores não saía
nada, só entrava. Quando uma égua abortava, havia umas poucas éguas descompromissadas para
uma substituição.
Com a velhice e a morte de Fair Trader, o Haras Paraná tentou
substitutos, mas sempre na base de cavalos dados (dentre outros, por exemplo, Djemlah, um
filho de Djebel), ou bem baratos, ou em permutas. É claro que assim é muito mais difícil. A
isso somou a morte de Heitor Berleze. E as abençoadas terras acabaram por serem vendidas para
a goela da valorização, e hoje estão asfaltadas. O criador Duílio Berleze conhece muito bem
essa história, pois foi parte dela, teve o privilégio de ser filho do “seu” Heitor.
Já
o Haras Valente teve uma história diferente. Antes naturalmente do atual proprietário, foi
implantado em terras do Município de Porto Amazonas, algumas dezenas de quilômetros longe de
Curitiba, em uma região muito bonita.
O criador era um homem de espírito alegre,
simpático, comunicativo, de nome Luiz Gurgel do Amaral Valente, daí o nome do haras. Vivia
bem, tinha negócios em Curitiba, e que teve dois momentos diferentes como criador de cavalos.
Um que só tinha como técnico o grande veterinário professor Heliodoro Duboc, da escola
francesa de veterinária, em cujos ombros se apoiou durante muitos anos o turfe paranaense, e
um outro ao qual se somou Paulo Valente Soledade, sobrinho de Luiz Valente, tinha sido um
exímio aviador, tinha passado parte da guerra como instrutor de pilotos de aviões de caça
norte–americanos que iam para guerra. Posteriormente, Paulo teve que operar um pulmão, e a
recuperação tinha que ser prolongado descanso fora de cidades grandes. Ele foi para o Haras
Valente, e nos poucos anos em que lá dirigiu deu novos rumos ao haras. As éguas eram apenas
regulares, na verdade bem melhores que as do Haras Paraná, mas os garanhões deixavam muito a
desejar.
Paulo entendeu que tinha que ser criada uma solução diferente, pois a normal
era fracasso certo, com Angélico e Nilgiris a chance de sucesso era muito pequena. Resolveu
inovar. Partindo do princípio de que o proprietário pequeno, antes de visualizar vitórias
clássicas quer ganhar logo para se ressarcir dos investimentos, traçou um plano de iniciação
dos potros no sentido de, ao se iniciarem os páreos de potros na Gávea, os criados no Valente
já estariam mais preparados, mais prontos, pretendendo com isso que os seus compradores, que
formavam com ele uma roda de amigos nas arquibancadas do Hipódromo da Gávea, já estariam com
seus potros com bons resultados financeiros e conseqüentemente com dinheiro para novas
compras.
E enquanto maiores e melhores haras brasileiros da época criavam
tradicionalmente seus potros, o Haras Valente fazia os potros galoparem soltos em piquetes
com espaço suficiente para se exercitarem livres, e depois, para entrarem nos piquetes de
pastagens, tinham que atravessar um açude. Os diários galopes em liberdade, sem exageros,
desde logo iniciando musculação apropriada, e a natação colaborando para um melhor
desenvolvimento pulmonar (vamos dizer assim), iam “adiantando” os potros. Muito manuseio,
ração de primeira, uma natural facilitação para um amansamento natural e gradativo, tudo na
função de, na chegada à Rio de Janeiro, uma vantagem inicial bem grande.
Assim, o
Haras Valente vencia a estatística dos “2 anos” na Gávea, os seus produtos venciam ou se
colocavam nas principais provas clássicas da nova geração. O sucesso foi muito grande.
Antes de voltar a morar no Rio de Janeiro, uns anos depois, Paulo Valente Soledade, o
“Centelha” para os mais íntimos, fez o tio Luiz importar da França o garanhão Dernah, esse
mais pretensioso que os outros e já visando uma continuidade na campanha que necessitava de
mais pedigree, mais qualidade.
O tempo também passou para Luiz Gurgel do Amaral
Valente, mas o seu Haras Valente continua vivo, em mãos de gente que gosta da criação, do
turfe.
Daqueles haras paranaenses antigos, também merece ser lembrado o Santa Ângela,
de José Bastos Padilha, que criava no Município de Castro. Terra inapropriada para cavalos, a
criação não era cuidada como o Paraná e o Valente, mas às custas de um formidável garanhão de
nome Guaycurú, um invicto em 3 corridas na Gávea, filho de Fosmasterus e Schoolmistress, por
Felstead. Guaycurú foi o responsável pelo sucesso da Fazenda Santa Ângela.
Luiz Gurgel
do Amaral Valente simboliza a tradicional criação paranaense. |

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