Em matéria de turfe, o Brasil é um país sui generis,
sem similar no mundo civilizado.
Criamos e exportamos excelentes cavalos de corrida,
hoje capazes de competir em igualdade de condições com os melhores do hemisfério norte, dos
EUA ao Dubai, da Inglaterra e França aos confins da África e América do Sul. Mas não
conseguimos cuidar decentemente de nossas pistas.
Temos uma legião de proprietários
entusiasmados que continuam a comprar potros em leilão e a prestigiar as corridas. Embora
sejam tratados com o costumeiro desdém, além de remunerados com prêmios totalmente
defasados.
Nossos criadores continuam investindo na progressiva melhoria de seus
plantéis, importando matrizes e reprodutores, participando de caríssimos shuttles de
garanhões, melhorando suas terras, e atingindo níveis internacionais de excelência. Mas não
mais os convidamos sequer para almoçar no JCB no dia do Derby carioca. Nem isso. Para nós,
tudo se passa como se eles simplesmente não existissem.
Vários de nossos profissionais
do treinamento hoje brilham no turfe extremamente competitivo do exterior. Mas não investimos
internamente mais um centavo em sua formação. A última escola de treinadores do Jockey Clube
Brasileiro foi fechada há décadas.
Nossa atual Escola de Aprendizes já formou jóqueis
excepcionais ao longo dos anos – entre eles o atual recordista mundial de vitórias. Mas hoje
negamos à instituição os investimentos que ela necessita para ampliar suas atividades e seu
trabalho – mesmo que este seja de cunho eminentemente social, ao dar uma profissão digna a
quem quase sempre não tem nenhuma.
A indústria farmacêutica, de equipamentos, de
fertilizantes, de forragens, destinada ao cavalo de corrida continua a crescer e se expandir,
mas ninguém dá a menor importância a isso.
Como um todo, o cavalo de corrida emprega
milhares de pessoas Brasil a fora, nos haras, nos hipódromos, nos centros de treinamento. Mas
não conseguimos divulgar o fato, e convencer as autoridades públicas da decisiva importância
econômica do turfe entre nós.
A mídia eletrônica privada criou e mantém em plena
atuação um considerável número de sites dedicados exclusivamente ao puro–sangue inglês (basta
verificar o enorme número de links a respeito). Mas tendemos a considerar isso um fato banal,
algo, para alguns, irrelevante. Quando não, desprezível. Talvez coisa de fanáticos
fundamentalistas.
Somos o único esporte que tem à mão a mais rápida máquina aeróbica
do mundo animal – a única capaz de manter altas velocidades sobre a distância, uma das
maravilhas da natureza. Mas não conseguimos sensibilizar a mídia, nem a juventude, nem
ninguém, sobre quão assustadoramente belos podem ser os cavalos de corrida. E quão plástica e
excitante é, há mais de três séculos, a disputa entre eles.
Na verdade, estamos
jogando fora um veículo de marketing que faria (como ocorre no resto do mundo) a fortuna de
qualquer esporte moderno. Novamente, nos embaralhamos em nossas eternas perplexidades, que
confundem o marketing dirigido para o cavalo de corrida, com o marketing dirigido somente
para o jogo – incapazes que somos de perceber que este é mera conseqüência daquele, não o
contrário.
Nossos hipódromos – os que ainda funcionam – caem aos pedaços,
dilapidados, imundos, sem a menor condição de receber o público que ainda teima em prestigiar
as corridas. Embora não deixemos de admirar a correção dos hipódromos e pistas de outros
países, vários deles certamente muito menores e mais pobres que o nosso.
Onde, então,
está o enigma de nossa incapacidade congênita para promover o desenvolvimento de um turfe
moderno e próspero no Brasil? Onde o abismo entre a postura de criadores, proprietários e
profissionais, de um lado, e o resto do outro? Boa pergunta.
Numa tentativa corajosa
de simplificação, enigma e abismo resultam de dois singelos aspectos da questão: (1) da atual
estrutura e organização das sociedades promotoras de corridas; e (2) da ausência de um
calendário nacional de eventos. Tentemos desenvolver os temas.
E se isso servir para
passar a discuti–los seriamente, melhor.
As sociedades promotoras de
corridas
No primeiro caso, é evidente que a estrutura de "clube" de
nossas sociedades promotoras de corridas está inteira e irremediavelmente ultrapassada. Clube
é uma invenção inglesa para reunir amigos em torno de gostos comuns. Quando eles deixam de
ser comuns, o clube simplesmente se divide, depois se dispersa, finalmente desaparece. Vários
já desapareceram dessa forma, aqui e alhures.
Este, infelizmente, não está longe de
ser o nosso destino. E inexoravelmente será, se continuarmos a acreditar – e, sob certos
aspectos, incentivar – a notória dicotomia da convivência, sob o mesmo teto, do gosto
original e exclusivo de uns pelos cavalos de corrida, com os gostos e preferências menos
ortodoxos de outros, ainda que todos sejam partícipes dos mesmos Jockeys Clubs do
país.
Mas só a existência do gosto comum pelo cavalo de corrida, não basta para
garantir a sobrevivência de um Jockey Club.
Para se ter um turfe moderno, é necessário
reestruturar todos os seus segmentos. Pois é inconcebível que, no século XXI, continuemos a,
candidamente, imaginar que teremos qualquer sucesso, a partir de quadros funcionais em que os
responsáveis diretos pelas várias e complexas decisões que cercam o universo do cavalo de
corrida sejam amadores diletantes de fim de semana, em sua grande maioria.
E aqui, não
importa quanto eles conheçam da raça puro–sangue inglês, ou das regras e meandros do esporte.
Continuarão a ser amadores.
Não é mais assim que ocorre nos turfes desenvolvidos,
onde todos aqueles que conduzem a atividade, todos, sem exceção, são profissionais de seu
ofício, contratados em tempo integral – e respeitados como tal pelos chamados "membros
do clube".
Sem o profissionalismo da gestão dos “clubes de corridas”, não há a
menor e mais remota possibilidade de salvação. E tudo será apenas uma questão de marcar o
tempo para o fim amargo.
E não se diga que profissionalização custa caro; bobagens de
amadores no atacado, são sempre mais caras que os erros de profissionais no
varejo.
Numa reverência a Gibbon, pior que isso, é a vaidade da estirpe, a insolência
do valor, a inveja do comando, a impaciência da subordinação, e o conflito de opiniões, de
interesses e de paixões entre tantos dignitários, que não aprenderam a ceder, nem
obedecer.
Calendário nacional
O segundo
aspecto – o da inexistência de um calendário nacional das provas nobres da programação
clássica – é ainda mais óbvio. Tange o ridículo imaginar que continuemos a praticar dois,
três, ou mais turfes no país, tentando dividir algo que é por si só uno e
indivisível.
Por outras palavras, o turfe brasileiro não pode – ou não deve, ou não
mais resiste – a ser somente o turfe do Rio de Janeiro, ou o turfe de São Paulo, ou o turfe
do Paraná, ou o turfe do Rio Grande do Sul. A manutenção dessa perspectiva (bairrista,
limitada, paroquial), tem o condão de significar um convite ao desastre. E desastre do tipo
bíblico, o das pragas do Egito.
As grandes provas de Grupo I do calendário brasileiro
de corridas – os chamados "grandes clássicos” – e aqui queremos nos referir
especificamente às tríplices–coroas e aos confrontos de peso por idade (sejam eles na grama,
sejam na areia) têm que evoluir no sentido de sua universalidade. Inclusive, com todas as
chamadas abertas aos potros de 3 anos de idade.
Isso só se consegue a partir da
construção de um Calendário Clássico Nacional, onde as datas do "Brasil", do
"São Paulo", do "Paraná" e do "Bento" estejam perfeitamente
encadeadas. Além de permitir que as duas principais tríplices–coroas do país, as do Rio de
Janeiro e as de São Paulo, sejam uma só e única tríplice–coroa, alternando–se as respectivas
provas, de fêmeas e de produtos, entre a Gávea e Cidade Jardim.
Não faz mais nenhum
sentido, dispersar esforços (e dinheiro das sociedades promotoras) para ter–se,
eventualmente, um tríplice–coroado paulista ou carioca, quando é perfeitamente possível
ter–se um tríplice–coroado brasileiro (com valor de mercado certamente muito maior). Turfe é
um negócio como outro qualquer, feito para que se ganhe dinheiro com ele.
É exatamente
assim que o esporte é visto pelo mundo moderno, não importa o tamanho da fortuna de seus
participantes, não importa seu grau de afluência econômica.
Em 1940, o
arqui–milionário Aga Khan, avô do atual, vendeu aos americanos seus melhores animais para
estupefação dos ingleses (e lá se foram Nasrullah, Blenheim, e Mahmoud revolucionar a criação
dos EUA).
O atual Aga Khan, líder religioso e Imã dos ismaelitas, certamente hoje o
maior criador de nosso tempo, acaba de vender mais de 70 éguas de cria nos leilões de
dezembro da sociedade Arqana, na França. De igual forma, também vendeu, antes da prova, o
invicto Blushing Groom, então favorito do Derby de Epsom.
Tesio vendeu o invicto
Nearco aos ingleses contra a vontade de Mussolini, e Paul de Moussac vendeu Trempolino uma
semana antes do Prix de l’Arc du Triomphe de 1987, que ele venceu em tempo recorde para a
época.
Em seu discurso de criador no podium de Longchamps, justificou: “Para ter,
preciso vender”. É assim que funciona um turfe moderno, organizado e próspero. Um turfe que
dá lucro, e não prejuízo a quem o ama e pratica.
Com tríplices–coroas mediocremente
regionais; com a impossibilidade de termos os potros de 3 anos participando de literalmente
todos os grandes eventos de Grupos I de peso por idade; sem a menor e mais remota
possibilidade de um quádruplo–coroado, jamais nossos produtos alcançarão os preços que o
mercado está disposto a pagar pelos competidores de elite. Com crise ou sem
crise.
Numa palavra, sem um Calendário Clássico Nacional que alterne as provas da
tríplice–coroa entre Rio e São Paulo, e que coloque “Brasil” – “São Paulo” – “Paraná” – e
Bento Gonçalves na mesma e única corrente de eventos, estaremos cada vez mais distantes do
turfe dos países desenvolvidos.
Infelizmente, resta muito pouco tempo para demonstrar
que ainda somos capazes de mudar as perspectivas do turfe brasileiro.
por
Sergio Barcellos