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Janeiro | 2009
Antigos Criadores IV, por Milton Lodi 08/01/2009 - 00h42min
Matias Machline foi uma das mais fulgurantes
figuras surgidas no turfe brasileiro. Bageense, foi ainda moço para tentar a vida em São
Paulo. Dotado de extrema inteligência, investidor audacioso, obteve grande sucesso na área
empresarial.
Começou no turfe como pequeno proprietário, e aos poucos cresceu. Quando
decidiu criar, comprou as terras em Atibaia, SP, de Antonio Luiz Ferraz, e lá instalou um
formidável haras, que além das cocheiras e das pastagens, tinha uma bela e confortável casa,
e na área de lazer até um lago artificial para lancha e esquí aquático.
Matias comprou
um haras de porteira fechada na Argentina, e trouxe todas as éguas, cerca de 40, para formar
a base do seu haras paulista. A mãe dele chamava–se Rosa, e era de Bagé, cidade no extremo
sul do país, perto da fronteira com o Uruguai. O nome Haras Rosa do Sul era uma clara
homenagem à mãe dele. Um profissional argentino, Alejandro Lingfild, comprou para ele um
cavalo de campanha razoável nos Estados Unidos, mas considerado ótimo elemento de cruza para
o lote de éguas argentinas. Assim veio Tumble Lark, que foi extraordinário. Os produtos do
Rosa do Sul ganharam as provas mais importantes no Brasil, e no exterior, como por exemplo, o
Clássico Latino Americano, em Maroñas, Uruguai.
Com o nome de Haras Rosa del Sur,
Matias Machline montou outro centro de criação de cavalos de corrida, na Argentina, e para lá
levou o grande ganhador clássico brasileiro Dark Brown, que produziu muito
bem.
Alejandro Lingfild tinha excelente olho para analisar a morfologia, a parte
estética, o modelo físico, e orientava o movimento dos animais, selecionando a produção e
supervisionando as compras de éguas. É difícil se encontrar alguém com um olho clínico para
cavalos como aquele argentino.
Alceu José Athaide, veterinário paranaense radicado em
São Paulo, era o responsável pela sanidade dos animais. Clínica geral, mesa de operações,
farmacologia, em todos os setores o Dr. Alceu era um mestre. Foram muitos anos de grande
sucesso.
Matias posteriormente comprou um terceiro haras, no Paraná, em terras
compradas de Aramys Bertoldi, e lá montou uma seção acessória. Alceu e Aramys eram amigos de
infância, e daí Matias passou a apoiar o Jockey Club do Paraná, do qual Aramys foi o
presidente por muitos anos. Certa vez, em dia festivo, eu encontrei o Matias durante as
corridas no Tarumã. Ele só queria ajudar, e jogava em todos os páreos, no mesmo páreo dois ou
três vencedores e também duplas. Estava acompanhado de perto por um ótimo e saudoso diretor
de nome Goubert Dionísio, que a crédito fazia as apostas determinadas por Matias, que
encontrara essa forma de ajudar o Clube, aumentando o movimento de apostas. No fim da
reunião, Matias pediu ao Goubert para verificar como haviam terminadas as suas apostas.
Goubert informou que ele havia ganho, tinha um saldo credor. Eu ouvi porque estava perto, o
Matias perguntou qual o montante do saldo, que não era pequeno, e com voz baixa mandou que
ele encaminhasse o dinheiro para uma casa de caridade. Assim era o Matias.
Não gostava
de se sentir devedor de favores, qualquer um que recebia tinha que ter uma recíproca. Um dia
ele se beneficiou com uma informação que eu dei para ele, através o Dr. Alceu. Não era nenhum
segredo, eu soube por um acaso e contei para o Dr. Alceu, e esse por sua vez transmitiu para
o Matias. A informação foi boa, e ele entendeu que era meu devedor. Não era, mas ele entendia
que era. Mandou me avisar que ia me mandar uma caixa de champagne francesa, eu recusei, pois
não tinha feito nada para merecer um presente, mas como o Matias não tinha o mesmo
entendimento, ele queria me pagar o que ele considerava erradamente como um favor. Para
resolver o problema, após insistências de lado a lado, disse que em lugar da caixa de
champagne eu aceitava, não como um pagamento mas como um favor em troca de outro, uma
cobertura do Tumble Lark. Ele achou ótimo, eu também, e assim encerrou–se o
episódio.
Todas as terças–feiras, em um grupo de cocheiras em Cidade Jardim, ele
promovia um especial churrasco, sempre muito concorrido. Era boca livre, os amigos não
precisavam de convites, a entrada era franca. Como o Matias tinha um bom relacionamento no
mundo político, era comum a presença de gente importante que lá ia comer e conversar. O
churrasqueiro era um empregado dele, sempre o mesmo, que o acompanhava em um avião
particular, e era o encarregado. Onde quer que iam, sempre havia um churrasco especial à
tempo e à hora. Muito bom.
Matias gostava de todo tipo de corridas de cavalos, tinha
tanto entusiasmo em uma corrida de cavalo seu em Buenos Aires como no Uruguai, em Cidade
Jardim, na Gávea, no Tarumã ou no Cristal, como também era entusiasta das pencas. Ele tinha
um apurado instinto competitivo, era aparentemente frio, mas gostava das fortes emoções, dos
grandes desafios. Tinha negócios em vários Estados do Brasil, mas sempre havia tempo para os
cavalos. Era um autêntico turfista.
Matias chegou a comprar mais terras no Paraná, um
tradicional haras em extinção de nome São Joaquim, conhecido por suas pastagens de
leguminosas, que não teve oportunidade de participar ativamente da organização Rosa do
Sul.
A queda de um helicóptero, que ia de Nova York para Atlantic City, tirou do turfe
brasileiro um grande homem.
Ficou faltando nas pistas a vitoriosa participação dos
excelentes corredores, cujos jóqueis levavam a bonita, delicada e significativa blusa branca
com uma única e poética flor, uma rosa vermelha, da mesma cor do boné.
Rosa do Sul, um
nome a não ser esquecido. |

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