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Dezembro | 2008
Antigos Criadores
III, por Milton Lodi 18/12/2008 - 13h05min
Falar de José Paulino Nogueira, do Haras Bela Esperança, é
falar de estudos, de observação, de conhecimentos, de técnicas. Ele era um homem rico, mas
não dispunha de meios para enfrentar em quantidade as produções dos grandes haras da época.
Era um homem educado, tímido, mas de temperamento complicado, colaborando para isso o tipo de
vida que levava, normalmente sozinho em seu haras, só ocasionalmente recebendo uns poucos.
Dormia a maior parte das manhãs, lia a Bíblia, almoçava, e passava os dias lendo as melhores
revistas internacionais da época, à francesa Courses et Elevage e a inglesa The British
RaceHorse. Ali encontrava o material que interessava para os seus estudos, os ganhadores das
grandes provas européias. Em outras publicações, artigos, livros, complementavam o que seus
conhecimentos necessitavam para “construir” no papel o pedigree que procurava, em seu plantel
ou em eventuais compras. O primeiro passo era um pedigree equilibrado, constituído por machos
ganhadores ou bem colocados nas principais provas inglesas e francesas, e seus eventuais
entrelaçamentos com o sangue dos garanhões de que dispunha. Uma linha feminina clássica era
fundamental. Dos machos exigia pelo menos uma ponta de classe, uma performance de destaque
mostrando qualidade, isso no início da campanha, que tinha que ter sido curta, pois uma
extensa implicaria em sucesso encarecedor e em desgastes físicos indetectáveis. É claro que
uma campanha promissora com um bom pedigree supunha um físico de bom padrão, pois o
verdadeiro sucesso está no tripé “pedigree–performance–tipo físico”.
Para comprar um
garanhão, José Paulino Nogueira se utilizava dos préstimos profissionais de Walter Noble, um
inglês que morava em um clube em Londres, que freqüentava normalmente as corridas, que tinha
muita sensibilidade na análise das corridas. Como José Paulino fazia as suas encomendas com
suas preferências pedigrísticas, restava ao inglês encontrar um potro promissor de bom tipo
físico. Os garanhões vinham já adequados ao plantel, que era da ordem de 20 éguas. O número
de éguas tinha que ser compatível com a área disponível para as pastagens, os animais em
criação necessitam de espaço para andar, correr, se exercitar de acordo com suas vontades,
não podem ser condicionados a áreas pequenas. Excesso de animais implica em espaços menores
que os necessários.
A tarefa de Walter Noble não era fácil, pois tinha que
complementar a linha traçada por José Paulino. Os sucessos de Tintoretto (Solario) e
Seventh Wonder (Pharos) dizem tudo.
Além de “bossa”, de sensibilidade pessoal, José
Paulino Nogueira conhecia a arte de criar bem, pois teve como mestre o “Tesio sul–americano”,
o uruguaio Don Juan Amoroso, do Haras Casupá, o maior nome da época do turfe uruguaio.
Evidentemente com variações, pois turfe não é matemática, não é ciência exata, basicamente
garanhão bom, inglês, com performances ou tendências para o melhor desempenho na distância
clássica de 2.000 a 2.400 metros, não um galopador, mas um dotado de aceleração, distância do
Derby de Epsom, e as reprodutoras boas velocistas, de preferência uruguaias, argentinas ou
brasileiras, sempre com uma linha baixa importante. O mesmo mestre uruguaio, assim como
posteriormente o hindu Aly Khan, foram “professores” dos irmãos Nelson e Roberto Grimaldi
Seabra.
Em suas idas ao Uruguai, José Paulino ficou amigo de Luciano Pomar. Anos mais
tarde, José Paulino já vivera um curtíssimo casamento e já vivia sozinho no Bela Esperança,
quando lhe surgiu Luciano, que tinha vindo em definitivo para o Brasil e pleiteava, orar como
“cabanero” em um haras. Foi o “homem de cavalos” por muitos anos, e protagonista de um fato
curioso e raro. Em uma manhã, foi ao Dr. Paulino e lhe disse que pela primeira vez uma
ocorrência desagradável havia acontecido, ele não acordara de madrugada para fazer um parto,
pois não escutara os insistentes chamados do vigia por ter dormido com o ouvido bom para
baixo, no travesseiro, e o surdo naturalmente não o acordara. A égua havia dado cria sem
problemas, mas o fato não iria mais se repetir, porque ele já tinha uma solução. Resolvera se
casar, ficando a mulher como despertador, com incumbência de acordá–lo. Procurou no próprio
haras, e entendeu que a filha do tratorista tinha as qualidades que queria. Com autorização
do pai dela, todo fim de tarde lá ia o administrador e chefe Luciano Pomar namorar a moça,
que era bem mais nova, na casa do tratorista. Foi um casamento de sucesso, ela era boa
pessoa, tiveram uma filha, essa veio a se casar com um funcionário de uma multinacional,
rapaz competente e que a cada dois anos mudava de domicílio, de cidade. Após um felicíssimo
casamento, e a tranqüilidade de sempre que necessário ser acordado pela mulher, Luciano Pomar
aposentou–se, e até o fim da vida viajava a cada dois anos, com a mulher, acompanhando as
transferências da filha e do genro.
José Paulino tinha cismas, como por exemplo, só ia
ver um potro que nascera, um dia depois do nascimento. Ia algumas vezes do haras em Campinas
para o Jockey Club de São Paulo, em programas em que animais de sua criação correriam um
grande prêmio. Quando de vitória, descia do carro, ia até a arquibancada social, abraçava os
amigos e depois voltava ao carro, onde ouvira a vitória pelo rádio enquanto acompanhava de
binóculo no estacionamento. Eventual derrota era uma volta imediata para o haras.
Essa
“escrita” foi quebrada pelo meu pai, dono da Jocosa que ia correr o Grande Prêmio São Paulo.
Na véspera o meu pai foi do Rio para dormir no Bela Esperança, e no domingo de manhã levou o
Dr. Paulino com ele. Foram felizes, a vitória de Jocosa deu ao criador e ao proprietário,
respectivamente o Dr, Paulino e o meu pai momento de grande euforia.
O Dr. Paulino era
tio do criador José Bonifácio Coutinho Nogueira, que criava em um haras vizinho, o São
Quirino. O Dr. Paulino não tinha filhos, era um homem solitário, e quando no fim da vida
sentiu–se doente, negociou o haras com o sobrinho e foi morar em São Paulo, em um apartamento
no bairro de Higienópolis, e teve a proteção financeira de José Bonifácio.
Atualmente,
dois sobrinhos–netos de José Paulino são criadores de cavalos de corrida, Antonio Carlos
Coutinho Nogueira (Haras São Quirino) e Sergio Luis Coutinho Nogueira (Haras
Regina).
Na minha opinião, José Paulino Nogueira foi o melhor criador brasileiro em
todos os tempos, o mais conhecedor da arte, o mais técnico, o número um. |

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