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Dezembro | 2008

Comentários sobre a programação clássica 2009
04/12/2008 - 11h00min

A Comissão de Corridas do Jockey Club Brasileiro vem de concluir o projeto da programação clássica para a temporada 2009. Parece oportuno comentar certos aspectos do documento, certamente um dos mais importantes do turfe. Como se segue.

A programação clássica – com os inúmeros detalhes nela contidos – interessa de perto a todos aqueles que vivem o esporte no seu dia a dia, sejam proprietários, criadores e o público em geral. Mas é aos treinadores de cavalos de corrida que ela se destina de modo particular. Conhecê–la em profundidade pode ajudar a inscrever na distância, pista, turma e "timing" certos, sem deixar–se levar pelo impulso ou ter que recorrer à improvisação.

Na verdade, é a perfeita noção de como funciona o conjunto da programação clássica – aliada à capacidade de dominar suas múltiplas combinações e possibilidades – que distingue os grandes profissionais do treinamento, aqui e alhures. O’Brien, Head e Boutin viviam com ela debaixo do braço. Tesio a transformou em livro de cabeceira. E seus cavalos imortais sempre agradeceram tanto zelo e interesse.

Conceitos

O calendário clássico da Gávea para 2009 foi construído com base em 6 (seis) conceitos:

(1) Evolução lenta e gradual das distâncias das provas destinadas aos juvenis, assim entendidos como os potros e potrancas de 2 anos de idade, evitando–se saltos e lacunas que tendem a prejudicar sua iniciação.

(2) Retorno aos nomes e às características das provas tradicionais do turfe do Rio de Janeiro (caso, por exemplo, dos GP’s Dezesseis de Julho, Cordeiro da Graça, Nelson e Roberto Grimaldi Seabra – Taça OSAF, etc etc.).

(3) Adesão ao paradigma universal das “chamadas restritivas”, no que diz respeito às Listed Races e Provas Especiais. Dois são os objetivos: (a) tornar mais equânime a disputa entre os concorrentes, através do manejo racional das tabelas de peso; e (b) dar oportunidade de expressão àqueles animais que se situam alguns furos abaixo do padrão clássico.

(4) Reintrodução da idéia de "meeting" ou "festival" (vide exemplos de Ascot e da semana do GP do Arco do Triunfo) por ocasião das grandes datas do JCB, tais como a semana do GP Brasil, em agosto, e a do GP Cruzeiro do Sul (Derby carioca), em abril de 2009. Em ambos os casos, há vários clássicos tendo o "Brasil 2009" e o Derby como âncoras, circunstância que contribui para aumentar o interesse do público e da mídia especializada, abrindo maiores perspectivas ao patrocínio das provas.

(5) Organização das provas preparatórias dos grandes eventos de Grupo I, respeitada a antecedência padrão mínima de 21 dias (3 semanas) entre os testes preparatórios e os eventos em si.

(6) Criação de duas novas Taças no segundo semestre, denominadas respectivamente de Taça de Ouro e Taça de Prata, e destinadas aos animais de 4 anos e mais idade, machos e fêmeas, como forma de captar e manter o interesse do público – da semana do GP Brasil até o final da temporada, em dezembro. As mencionadas Taças usam o conjunto de três tradicionais provas de Grupo já existentes, há anos, no calendário do JCB.

Eis aí, os seis conceitos básicos que orientam a Programação Clássica 2009 da Gávea.

É bem de ver que uma leitura atenta do documento, pode servir para revelar a existência de não apenas um único teste preparatório para os grandes eventos de Grupo I.

De fato, existem outras possibilidades dentro do calendário clássico que ensejam a escalada gradual do treinamento dos animais, visando sua participação nas provas de elite do turfe brasileiro, seja no Rio de Janeiro, seja em São Paulo. Um estudo mais atento do projeto revelará este fato.

Programação clássica e programação normal

Tendo em vista que a programação clássica é o eixo em torno do qual deve ser montada a programação normal de corridas de qualquer Jockey Club, torna–se necessário que a segunda esteja em consonância com a primeira.

Raríssimos são os cavalos que conseguem se expressar na plenitude de sua classe, assim que pisam uma pista de corrida. Estes, quando existem, são a exceção da exceção. Mesmo aqueles considerados acima da média da raça, precisam, todos eles, de um determinado tempo de maturação. Na natureza, como é sabido, nada ocorre aos saltos.

Isso implica dizer que o caminho para a pirâmide clássica – principalmente no caso dos animais de 2 e 3 anos de idade – passa necessariamente pela existência de uma programação semanal de corridas que contenha, na medida e no ritmo certos, todos os degraus que levam à elite dos competidores de alta performance.

Numa palavra, a construção da programação normal, ou seja, o dia a dia do turfe, deve servir de apoio e levar em conta prioritariamente a existência da programação clássica. Qualquer eventual conflito entre as duas, só serviria para inibir esta possibilidade.

Equilíbrio e consistência

Como toda estrutura montada em torno de uma série de eventos ligados entre si, com o detalhe de serem limitados a um determinado espaço de tempo (o ano–hípico), uma programação clássica racional não admite mudanças adjetivas, sob pena de desequilibrar todo o conjunto. Tampouco, ela é feita para servir a qualquer interesse particular. A experiência com o assunto, tem demonstrado que no competitivo mundo do turfe, a melhor conduta é sempre a das regras claras e da completa isenção.

Assim, embora seja possível ponderar sobre alguns de seus conceitos, e eventualmente introduzir futuras melhorias no trabalho – a rigor, qualquer documento é passível de refinamento – o grande cuidado, no caso, deve ser o de evitar a perda de sua consistência.

Uma programação clássica que se preze, deve funcionar, guardadas as devidas proporções, como uma espécie de sistema planetário onde tudo gira, com implacável equilíbrio, em torno do sol dos grandes testes seletivos do turfe.

Afinal, foi para revelar os melhores em cada geração que este esporte foi criado. E é assim que funciona toda a indústria do puro–sangue de corridas até hoje, desde que os ingleses montaram sua primeira programação clássica nos idos do século XIX.

por Sergio Barcellos
Transcrito do Site do JCB



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