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Dezembro | 2008

Antigos Criadores I, por Milton Lodi
04/12/2008 - 11h03min

Vicente de Almeida Prado fundou o forte Banco de São Paulo, e com a morte dele assumiram os filhos João Adhemar e Nelson. João Adhemar tinha grande prestígio pessoal, gostava das coisas boas da vida, embora tímido era bom companheiro, bom negociador e empreendedor. Era amigo dos amigos, e quando em dificuldades financeiras o procuravam, era comum atendê–los do próprio bolso. O Banco era sólido, na era do café cresceu muito. O irmão Nelson havia estudado na Alemanha as artes bancárias, era extremamente organizado, formal, e por trás de uma timidez ainda maior que a do irmão, controlava as contas. Os dois irmãos eram muito amigos, havia um grande respeito e confiança, nunca discutiam ou brigavam, eram sócios em todos os empreendimentos.

Montaram um bem sucedido stud, ao qual denominaram Almeida Prado e Assumpção. Esse Assumpção não era sócio, apenas figurava como homenagem e amizade dos irmãos a Luiz Nazareno de Assumpção, nome importante no turfe paulista, segundo me consta viúvo de uma irmã de João Adhemar e Nelson. Na fase de Stud, o cavalo que mais brilhou foi Gualicho, bi–campeão do G.P. Brasil.

Depois montaram no município de Ibiúna um haras, o Jahú, que era administrado por um primo deles, por sinal muito competente. Foi lá que entre outros ótimos ganhadores nasceu e foi criado Farwell, para muitos o melhor corredor brasileiro de todos os tempos.

Com o correr do tempo, o número de animais cresceu, o Dr. Adhemar não ia ao Jahú, Nelson ia uma manhã por semana. Uma das modestas casas era usada como escritório, não havia acomodações adequadas, o próprio administrador morava em cidade próxima indo ao haras de manhã, voltando em casa para almoçar, retornando à tardinha indo para casa. Nelson gostava do esquema, mas Adhemar queria receber os amigos, passar bons momentos junto ou perto dos cavalos, jogar cartas.

João Adhemar comprou uma ótima propriedade em Paulínia, juntinho a Campinas, montou uma maravilhosa sede colonial, uma pista para aviões pequenos que o deixavam perto da piscina do casarão, e era ali que ele entrava no avião para voltar para São Paulo. Em frente à varanda havia num tratado jardim uma pequena colina arborizada, pela qual descia cascateando um riacho que saltitava em uma escadaria de pedras. À noite, a visão do riacho iluminado adequadamente descendo por aquelas pedras era um encanto, uma beleza. Dalí saiu o nome do haras, Rio das Pedras.

Os animais foram distribuídos nos dois haras, mas corriam sob responsabilidade de um mesmo treinador e sob o nome de Haras Jahú e Rio das Pedras.

Certa manhã, Nelson pegou um avião de carrera em São Paulo e foi para Araraquara, onde ele tinha enorme propriedade rural, que era administrada por um cunhado, irmão da mulher Guanahyra. O avião caiu, Nelson morreu.

Após as missas de praxe, o Dr. Adhemar e D. Guanahyra acertaram os interesses então em comum, e ficou estabelecido que seriam providenciadas relações dos animais por categorias, tais como, garanhões, éguas cheias, éguas vazias, potros em criação, machos em treinamento, fêmeas em treinamento. Haveria um sorteio inicial, para definir o primeiro a escolher na primeira lista, que era a dos garanhões, em escolhas alternadas, e daí em diante o primeiro a escolher em cada lista cederia o privilégio ao outro na relação seguinte. O veterinário Fernando Pereira Lima pelo Dr. Adhemar e o primo Almeida Prado por D. Guanahyra, de comum acordo, prepararam tudo e foram encarregados das escolhas.

O sorteio inicial favoreceu o Dr. Adhemar, pois ele certamente ficaria com o Rhone, um ganhador clássico filho de Coaraze, que estava iniciando na reprodução e que era a grande esperança. A D. Guanahyra fez um apelo, que fosse ela a primeira a escolher, pois o Rhone seria uma das paixões do Nelson. O Dr. Adhemar concordou, para grande irritação do veterinário Fernando. E assim, Rhone, que viria a ser um fracasso na reprodução, foi para o Jahú, e Figuron, um sucesso, para o Rio das Pedras. E o fato se repetiu ao início das escolhas em todas as listas, a D. Guanahyra apelava para ser a primeira a escolher, sempre alegando o afeto do Nelson, e o Dr. Adhemar sempre concordava.

A divisão chegou ao fim com a D.Guanahyra e o seu representante muito satisfeitos, o veterinário muito irritado, e o Dr. Adhemar como sempre tranqüilo e cordato, tenho certeza ele pensava no irmão Nelson. No Stud Book Brasileiro ficou então metade dos animais com o Jahú, que também ficou com a tradicional farda “cinza e verde em listas horizontais”, e a outra metade com o Rio da Pedras, que registrou a farda “rosa, cruz de Santo André e boné verdes”.

A partir daí, o sucesso no haras e nas pistas do Rio das Pedras foi crescente, ao inverso do Jahú, que regrediu cada vez mais.

Nesta fase, ocorreu um fato curioso. Eu fui à agência Pinheiros do Banco de São Paulo, e lá encontrei o veterinário Fernando, que tinha ido buscar dinheiro para pagamentos no Haras Rio das Pedras. De curiosidade ele me mostrou o cheque que ia descontar. O valor era grande, o gerente já havia sido avisado para providenciar o numerário, e a assinatura do Dr. Adhemar (que não assinava “João Adhemar”, mas “J. Adhemar”) era contra uma conta conjunta com uma mulher de nome Vicentina. Como ele era casado havia muitos anos com a argentina D. Ester, casamento duradouro, estranhei mas nada falei. O Fernando riu e me fez uma confidência, a D. Ester, que era por todos e muito conhecida em seu círculo social e também no turfe, com muitos anos de Brasil, mas que detestava o seu verdadeiro nome, fazia–se conhecer como Ester, nome do seu agrado.

Assim como Nelson e Guanahyra, João Adhemar e Ester não tiveram filhos. Pela ordem morreram Nelson, João Adhemar, Ester e Guanahyra.

O encerramento das atividades dos Haras Jahú e Rio das Pedras foi péssimo para o turfe brasileiro.

O melhor garanhão deles foi Burpham, um filho de Hyperion, que produziu Farwell com uma égua clássica de criação do Haras Bela Esperança de José Paulino Nogueira. A mãe do crack chamava–se Marilú, uma filha de Wood Note e Tower Bridge, por Gold Bridge.



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