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Novembro | 2008

Seu Juca, por Milton Lodi
13/11/2008 - 22h32min

Tinha sido um menino pobre, que morava no interior, e estudava dia e noite em todos os livros de veterinária que lhe caíam às mãos. Como o ensino ao qual tinha acesso era fraco, de baixo padrão, ia de ônibus aos sábados às cidades mais próximas, à cata de bibliotecas que tivessem livros e/ou publicações de veterinária, a sua paixão.

Apesar de todos os esforços, o máximo que as precárias condições de que dispunha só lhe deram muito conhecimento e a chance de abrir uma farmácia, a única da redondeza. A sua dedicação ao trabalho e a bondade com que tratava aqueles que nada podiam pagar por consultas e remédios deram–lhe como compensação, muito prestígio pessoal e um bom casamento que lhe rendeu três filhos.

Cuidava com carinho de todos os animais que lhe eram levados, mesmo frisando que não era formado como veterinário e médico, atendia a todos. Seu Juca, como era por todos conhecido, passou a ir um dia por semana à cidade grande. Naquele dia, a mulher tomava conta do negócio, e ele saía no primeiro trem e voltava no último, após passar o dia comprando livros de veterinária e medicina, e conhecendo gente, abraçando velhos amigos do tempo de escola.

Foi num desses dias que ele ouviu uma conversa, no sentido de que, para o funcionamento de uma usina hidroelétrica a ser implantada pelo Governo Federal, havia um plano de desapropriação de terras no município onde morava desde criança. Um enorme açude iria inundar aquelas terras todas. A partir desse dia, além de prover a família, usava todo o dinheiro de que dispunha para comprar terras. Lá os preços de terras eram baratos, e com facilidade o Seu Juca passou à maior latifundiário da região.

Os anos se passaram. Para percorrer as suas terras, o Seu Juca comprou um burrinho marchador, manso, de confiança, e todos os dias nele andava mais de 2 horas. A mulher morrera, os filhos já crescidos tinham seus rumos definidos. O filho mais velho formou–se em medicina na cidade grande, montou consultório, era inteligente e muito capaz, e seus amigos eram como ele, homens de sucesso.

O segundo filho era uma moça muito quieta, prendada, tomava conta da casa, do jardim, cozinhava, lavava, passava e costurava, era a responsável por toda a faina doméstica. Ficava sempre calada, só parava de trabalhar quando no fim da tarde começavam as novelas na televisão. Aí, sequer respondia quando a chamavam, ela era toda da televisão. Não era brilhante, para ela bastavam as obrigações domésticas, a televisão e o pai, a quem obedecia cegamente, era limitada, mas por outro lado não chegava a ser como o irmão mais novo.

O caçula era muito trabalhador, acordava bem cedo e ia dormir ao anoitecer. Os necessários estudos não eram com ele, não entendia direito o que tentavam lhe ensinar, tinha uma cabeça de pedra, cérebro impenetrável. Ajudava a irmã no serviço pesado, e cuidava das terras com trabalho braçal.

Um dia, aconteceu o que já era esperado. Efetivou–se a tal desapropriação, todos da região foram indenizados e se mudaram, e o Seu Juca de um momento para outro se transformara de um remediado para um milionário.

O filho mais velho já morava na cidade grande, era muito respeitado pelos irmãos, e o Seu Juca comprou um sítio perto da cidade grande, afim de que, na sua falta, o filho mais velho assumisse o controle da família.

A vida prosseguiu sem maiores problemas, o Seu Juca montando diàriamente no burrinho marchador, o primeiro filho progredindo sempre na cidade, a filha zelando pela sede nova do sítio, fazendo de tudo para o maior conforto possível, o caçula capinando, consertando cercas, cuidando do galinheiro e do pequeno estábulo, carregando sacos e baldes, feliz, cansando o corpo sem ter que raciocinar.

Um dia, ao desmontar do burrinho marchador, o Seu Juca notou–lhe um cansaço maior, a respiração um pouco ofegante, a cabeça baixa. Foi aí que ele se deu conta que assim como ele, o burrinho marchador estava ficando velho. Ele trabalhara anos e anos, quase todos os dias, e aproximava–se a hora dele descansar. Desse dia em diante, a maior atenção do Seu Juca era proteger o burrinho, dar–lhe conforto e uma aposentadoria. Tentava dar–lhe uma sobrevida, mantê–lo nas melhores condições possíveis, com remédios, vitaminas, carinho, nada faltava.

Os anos seguiram, e um dia, Seu Juca sentiu–se mal, muita tonteira, e sentiu que ia morrer. Chamou separadamente os filhos. Ao mais velho, disse da responsabilidade em cuidar dos irmãos, do sítio, dos negócios, zelar para vida feliz de todos que os cercavam. Ao caçula, disse–lhe para não deixar a irmã sozinha, fazer–lhe companhia, ajudá–la sempre que necessário, protegê–la e sempre obedecer ao irmão mais velho. Antes de conversar com a filha, foi olhar o velho companheiro, o burrinho marchador, e não gostou do que viu. Aparência triste, meio descarnado, pelo fosco, quartelas arriadas, comendo pouco. Entendeu então que ele iria entrar em um período de sofrimentos.

Chamou a filha no seu quarto, agradeceu a sua total dedicação ao trabalho do lar e a sua obediência e respeito para com ele. Mas com a sua morte, que ela ouvisse a orientação do irmão mais velho. Também falou que a única coisa que temia era quanto à cuida do seu burrinho marchador. Deu a ela uma missão importante, no dia seguinte à sua morte, ela deveria matar o burro. A moça prometeu, sempre obediente ao pai.

O Seu Juca teve uma morte tranqüila.

No dia seguinte ao enterro, à tardinha, a moça pegou a espingarda de caça de dois canos que ficava em cima da lareira, nela colocou dois grossos cartuchos e foi para o quintal. O irmão tinha acabado de dar uma olhada no galinheiro e levava uns baldes para guardar no depósito. A moça o chamou, e quando ele se virou de frente para ela, levou dois balaços no peito que o mandaram de imediato fazer companhia ao pai.

A moça cumpriu a vontade do pai. Matou o burro.



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