Tinha sido um menino pobre, que morava no interior, e
estudava dia e noite em todos os livros de veterinária que lhe caíam às mãos. Como o ensino
ao qual tinha acesso era fraco, de baixo padrão, ia de ônibus aos sábados às cidades mais
próximas, à cata de bibliotecas que tivessem livros e/ou publicações de veterinária, a sua
paixão.
Apesar de todos os esforços, o máximo que as precárias condições de que
dispunha só lhe deram muito conhecimento e a chance de abrir uma farmácia, a única da
redondeza. A sua dedicação ao trabalho e a bondade com que tratava aqueles que nada podiam
pagar por consultas e remédios deram–lhe como compensação, muito prestígio pessoal e um bom
casamento que lhe rendeu três filhos.
Cuidava com carinho de todos os animais que
lhe eram levados, mesmo frisando que não era formado como veterinário e médico, atendia a
todos. Seu Juca, como era por todos conhecido, passou a ir um dia por semana à cidade grande.
Naquele dia, a mulher tomava conta do negócio, e ele saía no primeiro trem e voltava no
último, após passar o dia comprando livros de veterinária e medicina, e conhecendo gente,
abraçando velhos amigos do tempo de escola.
Foi num desses dias que ele ouviu uma
conversa, no sentido de que, para o funcionamento de uma usina hidroelétrica a ser implantada
pelo Governo Federal, havia um plano de desapropriação de terras no município onde morava
desde criança. Um enorme açude iria inundar aquelas terras todas. A partir desse dia, além de
prover a família, usava todo o dinheiro de que dispunha para comprar terras. Lá os preços de
terras eram baratos, e com facilidade o Seu Juca passou à maior latifundiário da
região.
Os anos se passaram. Para percorrer as suas terras, o Seu Juca comprou um
burrinho marchador, manso, de confiança, e todos os dias nele andava mais de 2 horas. A
mulher morrera, os filhos já crescidos tinham seus rumos definidos. O filho mais velho
formou–se em medicina na cidade grande, montou consultório, era inteligente e muito capaz, e
seus amigos eram como ele, homens de sucesso.
O segundo filho era uma moça muito
quieta, prendada, tomava conta da casa, do jardim, cozinhava, lavava, passava e costurava,
era a responsável por toda a faina doméstica. Ficava sempre calada, só parava de trabalhar
quando no fim da tarde começavam as novelas na televisão. Aí, sequer respondia quando a
chamavam, ela era toda da televisão. Não era brilhante, para ela bastavam as obrigações
domésticas, a televisão e o pai, a quem obedecia cegamente, era limitada, mas por outro lado
não chegava a ser como o irmão mais novo.
O caçula era muito trabalhador, acordava
bem cedo e ia dormir ao anoitecer. Os necessários estudos não eram com ele, não entendia
direito o que tentavam lhe ensinar, tinha uma cabeça de pedra, cérebro impenetrável. Ajudava
a irmã no serviço pesado, e cuidava das terras com trabalho braçal.
Um dia,
aconteceu o que já era esperado. Efetivou–se a tal desapropriação, todos da região foram
indenizados e se mudaram, e o Seu Juca de um momento para outro se transformara de um
remediado para um milionário.
O filho mais velho já morava na cidade grande, era
muito respeitado pelos irmãos, e o Seu Juca comprou um sítio perto da cidade grande, afim de
que, na sua falta, o filho mais velho assumisse o controle da família.
A vida
prosseguiu sem maiores problemas, o Seu Juca montando diàriamente no burrinho marchador, o
primeiro filho progredindo sempre na cidade, a filha zelando pela sede nova do sítio, fazendo
de tudo para o maior conforto possível, o caçula capinando, consertando cercas, cuidando do
galinheiro e do pequeno estábulo, carregando sacos e baldes, feliz, cansando o corpo sem ter
que raciocinar.
Um dia, ao desmontar do burrinho marchador, o Seu Juca notou–lhe um
cansaço maior, a respiração um pouco ofegante, a cabeça baixa. Foi aí que ele se deu conta
que assim como ele, o burrinho marchador estava ficando velho. Ele trabalhara anos e anos,
quase todos os dias, e aproximava–se a hora dele descansar. Desse dia em diante, a maior
atenção do Seu Juca era proteger o burrinho, dar–lhe conforto e uma aposentadoria. Tentava
dar–lhe uma sobrevida, mantê–lo nas melhores condições possíveis, com remédios, vitaminas,
carinho, nada faltava.
Os anos seguiram, e um dia, Seu Juca sentiu–se mal, muita
tonteira, e sentiu que ia morrer. Chamou separadamente os filhos. Ao mais velho, disse da
responsabilidade em cuidar dos irmãos, do sítio, dos negócios, zelar para vida feliz de todos
que os cercavam. Ao caçula, disse–lhe para não deixar a irmã sozinha, fazer–lhe companhia,
ajudá–la sempre que necessário, protegê–la e sempre obedecer ao irmão mais velho. Antes de
conversar com a filha, foi olhar o velho companheiro, o burrinho marchador, e não gostou do
que viu. Aparência triste, meio descarnado, pelo fosco, quartelas arriadas, comendo pouco.
Entendeu então que ele iria entrar em um período de sofrimentos.
Chamou a filha no
seu quarto, agradeceu a sua total dedicação ao trabalho do lar e a sua obediência e respeito
para com ele. Mas com a sua morte, que ela ouvisse a orientação do irmão mais velho. Também
falou que a única coisa que temia era quanto à cuida do seu burrinho marchador. Deu a ela uma
missão importante, no dia seguinte à sua morte, ela deveria matar o burro. A moça prometeu,
sempre obediente ao pai.
O Seu Juca teve uma morte tranqüila.
No dia
seguinte ao enterro, à tardinha, a moça pegou a espingarda de caça de dois canos que ficava
em cima da lareira, nela colocou dois grossos cartuchos e foi para o quintal. O irmão tinha
acabado de dar uma olhada no galinheiro e levava uns baldes para guardar no depósito. A moça
o chamou, e quando ele se virou de frente para ela, levou dois balaços no peito que o
mandaram de imediato fazer companhia ao pai.
A moça cumpriu a vontade do pai. Matou
o burro.