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Novembro | 2008

Turfe e Patrocínio, por Sergio Barcellos
10/11/2008 - 13h14min

TURFE E PATROCÍNIO: A LIÇÃO EUROPÉIA

A ausência de patrocínio das corridas é hoje a tônica do turfe brasileiro. Raríssimas foram as provas do calendário clássico que despertaram algum interesse de empresas e instituições do país nos últimos anos. Explicações e motivos para justificar esse comportamento não faltam.

Uns proclamam que o turfe teria perdido seu charme entre nós, e não é capaz de atrair público, principalmente o público jovem; outros garantem que o principal problema está na ausência de investimento dos Jockeys Clubes na maior divulgação das corridas de cavalo; alguns culpam o desinteresse da mídia pelo esporte. E há mesmo aqueles que – agitando uma espécie de divinação premonitória – doutrinam que as corridas de cavalo, e todo o ambiente que as cerca, é algo perdido para sempre no passado de nossa sociedade.

Nenhuma dessas hipóteses é verdadeira. Nem o turfe morreu, nem as corridas de cavalo perderam seu charme natural, nem, tampouco, o esporte deixou de provocar interesse e curiosidade.

Ao contrário, para determinados segmentos do mercado de produtos e serviços – principalmente os voltados ao consumo de alta renda –, seja aqui, seja no exterior, o apelo, o ambiente, e a mágica do turfe permanecem rigorosamente preservados.

Poucos sabem, mas houve tempo em que o tradicional e centenário turfe europeu viveu a mesma situação de indigência, no que respeita ao seu poder de despertar o interesse da publicidade, e, assim, conseguir patrocínio para seus grandes eventos.

Até o início da década de 1970, na Europa, o patrocínio das corridas de cavalo era praticamente inexistente – na verdade, limitava–se à divulgação dos negócios de  seus próprios mentores, no caso, as casas inglesas de apostas, e as empresas promotoras de leilões de potros. Uma espécie de ação entre amigos. E a ironia da situação é que os argumentos levantados naquele tempo eram exatamente os mesmos que hoje negam a força do turfe entre nós.

A grande diferença, porém, é que lá, ao contrário daqui, as autoridades responsáveis pela gestão da atividade – principalmente as da Inglaterra – resolveram estudar as razões e porquês da inexplicável passividade do mercado publicitário em relação a um esporte que tinha tudo para atrair o interesse de determinadas indústrias do mundo moderno.

As conclusões do estudo foram surpreendentes, e, diga–se de passagem, não tinham necessariamente nada a ver com o esporte em si. Tinham a ver, isto sim, com a estrutura, a forma de organização, e os métodos das sociedades promotoras de corridas.

Em primeiro lugar, simplesmente o mercado publicitário não acreditava que a organização das corridas de cavalo, à época, nem mesmo na ocasião de suas grandes datas, conseguisse jamais estar à altura do profissionalismo que caracteriza a gestão, os propósitos, e os objetivos das empresas patrocinadoras de eventos.

Assim, o perigo de vulnerar a imagem de marca do patrocinador superava qualquer benefício resultante do eventual patrocínio.

Em segundo lugar, os equipamentos dos hipódromos careciam de um mínimo de conforto e funcionalidade para garantir a presença do público e um desenvolvimento normal das reuniões.

Finalmente, o que parecia fundamental e determinante, era que as pessoas e setores responsáveis pela gerência dos eventos turfísticos não estavam firmemente comprometidas em proteger, a qualquer custo, a imagem institucional do esporte, de forma a evitar que ela pudesse “contaminar” a própria imagem do patrocinador. Então, como aconselha a moderna teoria da comunicação, se o meio é a mensagem, na dúvida, melhor ficar fora!

Tudo o que o turfe europeu hoje representa para o público e a mídia, vale dizer: (i) sua impecável organização (da qual o rigoroso cumprimento dos horários de largada dos páreos é apenas um singelo exemplo); (ii) a implacável observância das regras dos códigos de corrida; (iii) a tolerância zero para com eventuais desvios de conduta de seus participantes; (iv) a imaculada perfeição das pistas; (v) o perfeito controle do acesso às várias tribunas dos hipódromos; (vi) a limpeza e funcionalidade dos mesmos, não importam seu tamanho e modernidade; (vii) as exigências mínimas quanto à apresentação pessoal daqueles que pretendem frequentar as corridas – tudo isso, tem a ver com o compromisso formal assumido entre os promotores dos eventos e os patrocinadores que os prestigiam.

Fora da Europa, principalmente na Ásia e Oceania, onde os volumes de apostas atingem níveis estratosféricos se comparados aos nossos, estes pressupostos são seguidos de forma ainda mais rigorosa.

Numa palavra, o turfe europeu hoje, como seus similares do mundo desenvolvido, de há muito deixou de ser algo que admite improvisação e amadorismo, para se transformar num negócio rentável, dirigido por profissionais do ofício, e cujo objetivo é, antes de tudo, gerar lucro aos seus participantes.

Porém, os fundamentos que hoje informam a realidade do turfe do hemisfério norte, não se esgotam aí. Aí, foi apenas tratar de saber o que queria o mercado publicitário para prestigiar e patrocinar corridas de cavalo; aí, foi apenas o começo da virada da maré.

Como ficou claro na última reunião da Federação Internacional das Autoridades Hípicas, realizada em outubro, em Paris – a Federação Internacional é uma espécie de FIFA das corridas de cavalo no mundo, reunindo representantes de 68 países – o turfe representa hoje um dos melhores e mais dinâmicos veículos para a divulgação de determinadas indústrias, em especial as que lidam:

(1) com a moda (feminina e masculina);
(2) com o turismo internacional;
(3) com o lazer, de modo geral.

Não é por outra razão, que marcas famosas e internacionalmente conhecidas de artigos de luxo, como Hermés, Louis Vuitton e Thomas Pink; de empresas aéreas como a Emirates Airlines, Singapore Airlines, Qatar Airlines, KLM, etc.; de grandes cadeias de hotéis como Four Seasons, Westin, e Barriére; bem assim, os pequenos países que pretendem atrair o turista internacional, caso do Dubai e mais recentemente do Qatar, apenas para citar alguns exemplos, usam as grandes datas e eventos das corridas de cavalo, seja na Europa, seja nos EUA e Ásia, para divulgação de sua imagem junto ao público, turfista ou não.

Hoje em dia com mais forte razão, eis que o sistema de apostas do “simulcasting” internacional, transformou–se definitivamente em realidade, projetando a marca do patrocinador para mercados além do limite de suas fronteiras nacionais.

Se o turfe brasileiro quer – melhor dizendo, precisa – atrair patrocínio para suas principais provas, parece razoável parar de deblaterar sobre nossas próprias limitações, e copiar o que já deu certo em outras áreas mais desenvolvidas do mundo.

Diante do exemplo de competência dos criadores nacionais que –  apesar de todas as dificuldades – hoje produzem e exportam animais “Made in Brazil” de padrão internacional; e, principalmente, diante da perseverança dos proprietários de cavalos, que continuam prestigiando o esporte, gerando milhares de empregos e colaborando para manter vivo o programa das corridas entre nós, é importante que as sociedades promotoras se organizem, profissionalizem seus quadros no que couber e assumam a liderança deste movimento.

É como se os Jockeys Clubes do Brasil devessem aos criadores, proprietários, e ao público amante das corridas de cavalo, uma nova atitude corajosa e empreendedora.



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