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Outubro | 2008
Influxo Nervoso, por Milton
Lodi 16/10/2008 - 10h51min
Há muitos anos, cerca de 50, o mais técnico criador de todos os tempos, José
Paulino Nogueira, mantinha seus garanhões permanentemente fechados. Para o seu vitorioso
Haras Bela Esperança, em Campinas, SP, trazia da Europa, através os serviços profissionais do
inglês Walter Noble, cavalos encomendados por pedigrees compatíveis com o seu plantel de
éguas, que tivessem mostrado pelo menos uma ponta de classe em curtíssima campanha, e que
fossem aprovados fìsicamente pelo competente inglês. Walter Noble ia diàriamente às corridas,
conhecia os animais e também bons treinadores, estava sempre bem informado. José Paulino era
um estudioso, conhecia como muito poucos o mundo da criação, sabia o que precisava e o que
queria. E Walter Noble era exímio em sua atividade.
O sistema de manter garanhões
sempre presos tinha como fundamento mantê–los em um máximo descanso, para que na estação de
monta estivessem em condições de suportar bem o trabalho. Assim, quando os cavalos saíam após
meses trancados de portas e janelas dos boxes fechados, estavam inquietos, voluntariosos,
impetuosos e temperamentais, fazendo coberturas vigorosas com grande “influxo nervoso”. Era
assim o conceito da época. Para que o garanhão mantivesse o clima, o número de saltos por
égua/cio era duas vezes em dias alternados. Um bom haras estimava um máximo de 120 saltos por
temporada. Dr. Paulino preconizava limites de 10 éguas no primeiro ano do reprodutor, 20 no
segundo e até 40 do terceiro em diante. Manter os garanhões fechados e limitar em 120 o
número de saltos por temporada era considerado saudável para os cavalos e mantido o “influxo
nervoso” sem fadigas.
Hoje em dia, o entendimento é diferente. Garanhões de grande
sucesso como Ghadeer e Roi Normand eram mantidos soltos dia e noite, bem cuidados e
alimentados, mas soltos independentemente de calor ou frio, sol ou chuva. Tiveram vida longa
e profícua.
Mas, e o tal “influxo nervoso”?
O italiano Federico Tesio, o homem
das experimentações com os cavalos de corrida, anualmente enviava éguas para serem cobertas
na Inglaterra (não por aviões, mas por trens e balsas), mas ia antes olhar o estado em que se
encontravam aqueles que queria contratar. É evidente que o que queria era saber se o cavalo
estava em condições de, através o “influxo nervoso” (boa aparência e estado físico),
participar não só de um ato de simples fecundação (o que acontece com a frieza da inseminação
artificial), mas de um ato regido pela Mãe Natureza, em clima emocional e entusiasmado que
possibilite mais do que uma simples fusão de dois seres diferentes.
Com o progresso
nas artes da criação, com laboratórios e aparelhagem sofisticados, a média de três saltos
anuais por égua baixou para 1,5 (nos haras melhores chega a 1,2), de modo que aqueles limites
da época do Dr. Paulino de 10, 20 e 40 hoje deveriam ser de 20, 40 e 80, sempre respeitando o
limite de 120 saltos. Acontece que, no turfe norte–americano, os cavalos de corrida e as
corridas de cavalos têm conceito diferente, é somente negócio, “business”, e antes de
qualquer coisa o objetivo é o maior possível, Dessa forma, chega–se a cavalos que cobrem não
em uma temporada anual, mas em duas naturalmente em dois hemisférios, e os limites normais,
racionais, saudáveis, são ampliados, quanto mais éguas mais dinheiro. Assim, há cavalos que
chegam a 300 éguas por ano, duas vezes 150, com quatro viagens de avião por ano. É claro que
isso não é normal. Acresce ainda que não haja uma distribuição racional das éguas por toda
temporada de cada cavalo, no início das estações há um acúmulo, todos querem que suas éguas
fiquem cheias, antes que os cavalos caiam de estado físico, de interesse. É comum garanhões
terem que interromper o seu trabalho por cansaço, por falta de “influxo nervoso”, de vontade,
de explosão. Há que respeitar os limites, até máquinas não resistem ao serem ultrapassados os
limites.
É aí que pode ocorrer a utilização da inseminação artificial, fecundação
fria, sem alma, sem “influxo nervoso”.
Hoje em dia os criadores mais lúcidos cobrem
suas éguas de 15 de agosto a 15 de novembro respeitando o limite de 1° de julho para os
nascimentos e não vindo a criar potros “mal nascidos”. Se admitirmos que um cavalo saudável,
bem alimentado, bem cuidado, possa cobrir em metade da estação (45 dias) duas vezes por dia,
e na outra metade 1 vez diàriamente, chega–se a 135 saltos, isso representaria 90 éguas a 1,5
saltos/égua. Como 1,5 saltos/égua é normal e é um índice não dificilmente melhorado, deve–se
admitir que com um garanhão em ordem e um plantel bem cuidado 90 éguas/ano é um número
razoável, aceitável.
O que me parece razoável é cuidar bem dos garanhões, alimentá–los
com rações estudadas, balanceadas, a eles dar um suporte por gente como veterinário e
zootecnistas para condições físicas esplendidas, fugindo da antiga clausura e mais ainda da
necessidade da inseminação artificial, mantendo ao máximo de forma natural clima do “influxo
nervoso”. É natural que um cavalo mais novo tenha mais explosão que um mais velho, mas o
amparo veterinário, a cuida diária “seguram o envelhecimento, e há que ir diminuindo o número
de éguas/ano, através os tempos, para manter em alta o “influxo nervoso”. |

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