Desde pequeno era palpiteiro. Qualquer conversa,
informação ou história que ouvia, sempre ele tinha que dar uma palavra final, um palpite. O palpite, o pitaco, o
pio, a observação final era sua marca registrada, por isso, desde menino, era conhecido como Zé do
Pio.
Zé do Pio foi um péssimo estudante, desinteressado, mas sempre passava de ano graças à sua
esperteza, a sua envolvente conversa com os professores e colegas, e também pela influência do pai, funcionário
público de importância, mas que na verdade não fazia nada, ocupava o pouco tempo que ficava na repartição
dependurado no telefone, jogando conversa fora. Além disso, de sua aparente importância, tinha uma irmã que era a
dona do colégio que o Zé do Pio freqüentava.
Zé do Pio não era, a rigor, um mau caráter, mas a vida lhe
corria suave, sem preocupações, e foi crescendo ouvindo histórias nas esquinas da vida. Quando ele terminou o
ginásio, naturalmente não quis continuar a carreira dita estudantil. O pai conseguiu de imediato um emprego
público nos moldes do dele, quer dizer, salário certo e freqüência ao trabalho incerta.
Vida mansa, Zé
do Pio freqüentando rodas de desocupados como ele, um dia acompanhou um grupo que ia às corridas. Foi para ele um
deslumbramento. Fascinado, passou a dedicar o seu tempo a estudar os programas e a assistir as
corridas.
Foi quando surgiu a primeira idéia. O número médio de corredores por páreo era de
aproximadamente de oito, se ele desse a cada uma de oito pessoas a informação de cavalos diferentes, isto é, para
cada pessoa um número diferente, certamente um apostador ia ganhar, e naturalmente ele levaria um capilé. Quanto
aos outros apostadores perdedores, desculpas para derrotas nunca faltavam (perdeu uma ferradura, o jóquei foi
infeliz no percurso, a raia, a largada, etc). Os apostadores perdedores seriam substituídos por outros novos, o
que para o Zé do Pio era fácil pelos muitos conhecidos dele, e assim com uma mutação a cada vez, com um rodízio
bem planejado, nunca faltariam interessados e, o que era mais importante a cada páreo informado corresponderia a
um capilé. O sistema funcionou, um dinheirinho santo entrava sempre.
Um dia, o Zé do Pio estava tomando
um cafezinho num balcão, quando reparou que numa mesinha estava sentada uma velhinha simpática, bem vestida, e que
estudava um programa das corridas. Pensou rápido, ele havia sido informado que o jóquei Dario Moreira ia ficar sem
montar por três meses, pois ia sofrer uma pequena cirurgia e então aproveitaria para visitar a família no interior
do Rio Grande do Sul, umas pequenas férias sempre pretendidas, mas sem uma ocasião propícia como aquela. Zé do
Pio, sorridente, aproximou–se da velhinha e puxou conversa. Ele era Dario Moreira, ia ficar sem montar por três
meses, mas como jóquei atuante estava a par do movimento das corridas. A conversa foi ótima para o Zé do pio, o
forte dele era uma boa conversa, e a velhinha, carente como a maioria das idosas, ficou encantada. Passaram a se
encontrar quase todos os dias, Zé do Pio com o seu arsenal de mentiras e palpites, a velhinha sentindo–se
participante, daquele mundo mágico, e com informações preciosas de um jóquei dos melhores. Um dia, quando o Zé do
Pio chegou, encontrou a velhinha alvoroçada. O programa das corridas mostrava que ele voltaria às pistas com cinco
montarias no Sábado, ela precisava saber das chances de vitórias, e fazia questão de ir ao Prado para assistir a
volta dele, do Dario Moreira, as pistas. O Zé do Pio disse que não era uma boa idéia, era melhor ela não ir, mas
ela fazia questão de prestigiar, ia de qualquer maneira. E claro que o Zé do pio percebeu que o caso chegara ao
fim, e soube depois que um segurança do Hipódromo havia sido chamado para expulsar, do prado uma exaltada velhinha
que gritava desesperadamente que o jóquei que se apresentava como Dario Moreira era um impostor, a Comissão de
Corridas tinha que tomar imediatas providencias, um cavalo estava entrando na pista montado por um farsante. Ela
queria invadir a pista. O final do episodio o Zé do Pio não soube, evitou para sempre se encontrar com a velhinha,
triste por ter perdido para sempre um sagrado capilé.
Zé do Pio resolveu afastar–se das corridas, pelo
menos por um tempo.
Botou a imaginação para funcionar. Surgiu–lhe uma inusitada idéia. Lá onde ele
deveria trabalhar havia muita gente, que como ele recebia um salário certo no fim do mês. Com uma simples conta,
resolveu da sua nova atividade. No dia seguinte ao do recebimento, fazia um sorteio do seu próprio salário,
mediante dez reais por cabeça. Era bom para todo mundo, os funcionários davam uma pequena quantia, arriscavam–se a
ganhar cem vezes mais, e melhor ainda para o Zé do Pio, que dobrava o seu já bom salário. Muitos meses se
passaram, talvez mesmo mais de dois anos, até que certamente um invejoso um dia criou uma celeuma a respeito, e
aquele evento mensal foi proibido.
Zé do Pio foi conversar com o pai, queria mudar de ares, quem sabe
morar em Brasília. Mas o pai o desencorajou, queria o filho por perto, além do que em Brasília não há corridas. Zé
do pio ficou pensativo. O tempo já se passara, a velhinha do caso Dario Moreira certamente já teria morrido, novos
apostadores surgiam a cada semana, e acima de tudo, ele estava com saudades. Voltou a circular pelo Prado,
encontrou velhas amizades e conheceu gente nova. Com certeza, estava na hora de recomeçar tudo. E com o passar do
tempo, novas e lucrativas idéias iriam surgir.