O turfe pernambucano sobrevive
razoavelmente bem às dificuldades que afligem o esporte nacional, obviamente, conhecendo seus atuais limites.
Desenvolvido em torno do Hipódromo da Madalena, o presente artigo objetiva apresentar a interessados e aos
turfistas em geral uma visão imparcial e realista (mas sempre uma visão), do panorama local.
Fundado no
século XIX, constando dos anais da entidade inclusive uma visita do Imperador D. Pedro II, o Jockey Club de
Pernambuco mantém–se em funcionamento graças a um esforço hercúleo dos proprietários, maiores incentivadores da
manutenção das corridas quinzenais regulares a altos custos e retorno baixíssimo. Por vezes, diria pelo menos uma
por mês, existem páreos patrocinados que garantem a manutenção do interesse do público e da mídia.
A
seguir, abordaremos alguns tópicos de interesse da comunidade turfística em geral:
– A raia e sua
manutenção: é feita no limite de nossas possibilidades. Neste ano, foram despejados dezenas de caminhões de areia,
o que melhorou muito o estado geral do piso e diminuiu o aparecimento de buracos. Com as chuvas, boa parte da
areia se esvai junto com as águas. Mas o tratorista e starter, Totonho, e o faz–tudo Everaldo, sempre zelosos, na
medida do possível procuram tapar os eventuais buracos e passar regularmente o trator, deixando a raia em boas
condições;
– A cerca: carece de melhorias ou de substituição da atual (de concreto) por outra mais
moderna e que não cause tantos danos aos animais e jóqueis, em caso de acidentes;
– A iluminação: é um
sonho antigo, que está em vias de se realizar, segundo informações do conselheiro Waldemir Miranda Neto.
Acreditamos que, assim, propiciemos horários alternativos ao turfista pernambucano, para que possam passar os
fins–de–semana em família e, durante a semana, desfrutar de um simulcasting com um grande centro, na atmosfera das
amenas noites do Recife;
– O clima é excelente. Um pouco quente na maior parte do ano, mas bastante
aprazível;
– O jogo paralelo é uma autêntica “praga”, que mina as possibilidades de crescimento do MGA
e, assim, diminui a participação do Jockey no montante arrecadado com apostas. É um desvirtuamento da razão de ser
do Jockey: o público apostador é que deveria sustentar o Jockey com seu jogo e não o contrário. Além disso, ante
um volume superior ao jogo oficial, sugere a possibilidade de manipulação de resultados. O lado positivo é que
assim se demonstra o potencial do turfe pernambucano em crescer, desde que tenhamos prêmios, páreos e modalidades
de apostas atrativas;
– Os profissionais e a falta profissionalismo: com raras exceções, não encontramos
trabalhadores que façam do turfe muito além do que seu ganha pão. Proprietários não são respeitados e as coisas só
funcionam movidas a dinheiro ou a favores. Confesso que isso arrefece boa parte do ímpeto que se nutre pelo
esporte;
– A renovação, atualmente, é diminuta. Restringe–se às famílias tradicionais, no melhor sentido
da expressão, a saber: os Allain, Paiva, Medeiros, Câmara, Moreira, Bandeira, Salomão, Miranda, Magalhães,
Pereira, Vasconcelos, Baltar, Uchôa, dentre outras, as quais garantem a perpetuação da atividade em
Pernambuco.
De fato, estou acostumado a ser “olhado atravessado” por quem não é de turfe. Encontro tal
resistência e isso se tornou um verdadeiro carma: o de não poder fazer o que quero apenas porque os outros acham
que Jockey Club é lugar de vagabundo e de ladrão. Essa é uma de minhas missões: antes de mais nada, desmistificar
o turfe. Tentar passar a idéia de que se trata de um esporte emocionante, desenvolvido para pessoas inteligentes e
cultas, não apenas para ricos. E que aqui você não está para ser espoliado, mas para ter um retorno no mínimo
equivalente à sua despesa, limitado por seu empenho e competência.
A heterogenia dos proprietários e de
seus interesses torna difícil a união em questões corriqueiras que levariam à salutar “barganha” por preços dos
insumos (alimentação, remédios, prestação de serviços, etc.), ao barateamento dos tratos e, quiçá, à possibilidade
de angariarmos novos proprietários. Mas qualquer que seja o lado ou o interesse envolvido, prevalece a idéia de
que o Jockey Club tem que continuar, segundo o chavão do “apanha e resiste”.
Vivenciamos algumas gestões
do Hipódromo da Madalena. Sobretudo a partir de 2001, acompanhando mais de perto as coisas do turfe. Após algumas
turbulências, quando os administradores colocavam os interesses particulares acima das questões sociais,
vivenciamos um período próspero e austero, durante a gestão de Paulo Pragana Paiva (Presidente) e Marco Sire
Cortez (Diretor Financeiro e ex–presidente). Ambos administravam o Jockey como se estivessem à frente de suas
próprias empresas, com bastante rigor e transparência no que tange a receitas e despesas, além de grande empenho
para gerir de forma eficiente o bem comum. Ocorre que ambos, empresários bem–sucedidos, apesar de todos os
esforços, não conseguiam mais dispor de tempo suficiente para dedicar à entidade e resolveram, segundo consenso
nas Assembléias Gerais Extraordinárias do corpo social e do Conselho Deliberativo, afastar–se da direção da
entidade, deixando algum dinheiro em caixa e tranqüilidade para a nova diretoria, composta, em síntese, por Manoel
Barros (Presidente), Edísio Pereira (Vice–Presidente) e Joaquim Moreira (Diretor Financeiro), tentar demonstrar
seu perfil de trabalho.
Algumas medidas já estão sendo tomadas, tais como: a volta dos prêmios ao
patamar de R$ 500,00 para os páreos comuns, pagos rigorosamente em dia; e a diminuição da comissão do jogo de
arremates, como forma de cativar o público apostador.
É cedo para emitir qualquer opinião a respeito da
nova diretoria, mas se deseja sorte e se espera, ao congregar diferentes tendências do Hipódromo, que o trabalho
atual tenha prosseguimento e seja incrementado, e que os diretores que ora se afastam não o façam no que tange a
seus parelheiros, imprescindíveis para a formação do programas quinzenais regulares.
por Fábio Câmara