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Maio | 2008

Visão do turfe pernambucano, por Fábio Câmara
02/05/2008 - 08h44min

O turfe pernambucano sobrevive razoavelmente bem às dificuldades que afligem o esporte nacional, obviamente, conhecendo seus atuais limites. Desenvolvido em torno do Hipódromo da Madalena, o presente artigo objetiva apresentar a interessados e aos turfistas em geral uma visão imparcial e realista (mas sempre uma visão), do panorama local.

Fundado no século XIX, constando dos anais da entidade inclusive uma visita do Imperador D. Pedro II, o Jockey Club de Pernambuco mantém–se em funcionamento graças a um esforço hercúleo dos proprietários, maiores incentivadores da manutenção das corridas quinzenais regulares a altos custos e retorno baixíssimo. Por vezes, diria pelo menos uma por mês, existem páreos patrocinados que garantem a manutenção do interesse do público e da mídia.

A seguir, abordaremos alguns tópicos de interesse da comunidade turfística em geral:

– A raia e sua manutenção: é feita no limite de nossas possibilidades. Neste ano, foram despejados dezenas de caminhões de areia, o que melhorou muito o estado geral do piso e diminuiu o aparecimento de buracos. Com as chuvas, boa parte da areia se esvai junto com as águas. Mas o tratorista e starter, Totonho, e o faz–tudo Everaldo, sempre zelosos, na medida do possível procuram tapar os eventuais buracos e passar regularmente o trator, deixando a raia em boas condições;

– A cerca: carece de melhorias ou de substituição da atual (de concreto) por outra mais moderna e que não cause tantos danos aos animais e jóqueis, em caso de acidentes;

– A iluminação: é um sonho antigo, que está em vias de se realizar, segundo informações do conselheiro Waldemir Miranda Neto. Acreditamos que, assim, propiciemos horários alternativos ao turfista pernambucano, para que possam passar os fins–de–semana em família e, durante a semana, desfrutar de um simulcasting com um grande centro, na atmosfera das amenas noites do Recife;

– O clima é excelente. Um pouco quente na maior parte do ano, mas bastante aprazível;

– O jogo paralelo é uma autêntica “praga”, que mina as possibilidades de crescimento do MGA e, assim, diminui a participação do Jockey no montante arrecadado com apostas. É um desvirtuamento da razão de ser do Jockey: o público apostador é que deveria sustentar o Jockey com seu jogo e não o contrário. Além disso, ante um volume superior ao jogo oficial, sugere a possibilidade de manipulação de resultados. O lado positivo é que assim se demonstra o potencial do turfe pernambucano em crescer, desde que tenhamos prêmios, páreos e modalidades de apostas atrativas;

– Os profissionais e a falta profissionalismo: com raras exceções, não encontramos trabalhadores que façam do turfe muito além do que seu ganha pão. Proprietários não são respeitados e as coisas só funcionam movidas a dinheiro ou a favores. Confesso que isso arrefece boa parte do ímpeto que se nutre pelo esporte;

– A renovação, atualmente, é diminuta. Restringe–se às famílias tradicionais, no melhor sentido da expressão, a saber: os Allain, Paiva, Medeiros, Câmara, Moreira, Bandeira, Salomão, Miranda, Magalhães, Pereira, Vasconcelos, Baltar, Uchôa, dentre outras, as quais garantem a perpetuação da atividade em Pernambuco.

De fato, estou acostumado a ser “olhado atravessado” por quem não é de turfe. Encontro tal resistência e isso se tornou um verdadeiro carma: o de não poder fazer o que quero apenas porque os outros acham que Jockey Club é lugar de vagabundo e de ladrão. Essa é uma de minhas missões: antes de mais nada, desmistificar o turfe. Tentar passar a idéia de que se trata de um esporte emocionante, desenvolvido para pessoas inteligentes e cultas, não apenas para ricos. E que aqui você não está para ser espoliado, mas para ter um retorno no mínimo equivalente à sua despesa, limitado por seu empenho e competência.

A heterogenia dos proprietários e de seus interesses torna difícil a união em questões corriqueiras que levariam à salutar “barganha” por preços dos insumos (alimentação, remédios, prestação de serviços, etc.), ao barateamento dos tratos e, quiçá, à possibilidade de angariarmos novos proprietários. Mas qualquer que seja o lado ou o interesse envolvido, prevalece a idéia de que o Jockey Club tem que continuar, segundo o chavão do “apanha e resiste”.

Vivenciamos algumas gestões do Hipódromo da Madalena. Sobretudo a partir de 2001, acompanhando mais de perto as coisas do turfe. Após algumas turbulências, quando os administradores colocavam os interesses particulares acima das questões sociais, vivenciamos um período próspero e austero, durante a gestão de Paulo Pragana Paiva (Presidente) e Marco Sire Cortez (Diretor Financeiro e ex–presidente). Ambos administravam o Jockey como se estivessem à frente de suas próprias empresas, com bastante rigor e transparência no que tange a receitas e despesas, além de grande empenho para gerir de forma eficiente o bem comum. Ocorre que ambos, empresários bem–sucedidos, apesar de todos os esforços, não conseguiam mais dispor de tempo suficiente para dedicar à entidade e resolveram, segundo consenso nas Assembléias Gerais Extraordinárias do corpo social e do Conselho Deliberativo, afastar–se da direção da entidade, deixando algum dinheiro em caixa e tranqüilidade para a nova diretoria, composta, em síntese, por Manoel Barros (Presidente), Edísio Pereira (Vice–Presidente) e Joaquim Moreira (Diretor Financeiro), tentar demonstrar seu perfil de trabalho.

Algumas medidas já estão sendo tomadas, tais como: a volta dos prêmios ao patamar de R$ 500,00 para os páreos comuns, pagos rigorosamente em dia; e a diminuição da comissão do jogo de arremates, como forma de cativar o público apostador.

É cedo para emitir qualquer opinião a respeito da nova diretoria, mas se deseja sorte e se espera, ao congregar diferentes tendências do Hipódromo, que o trabalho atual tenha prosseguimento e seja incrementado, e que os diretores que ora se afastam não o façam no que tange a seus parelheiros, imprescindíveis para a formação do programas quinzenais regulares.

por Fábio Câmara



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