O turfe não é matemático, teóricos 2 mais 2 podem não ser 4, no confronto dos cavalos há muitos
aspectos a serem considerados, alguns aleatórios como sorte, bom tráfego no percurso, intuição do jóquei, bom
preparo à base de exercícios adequados e orientados por experiência e bom senso e não só pelas agulhas dos
cronômetros, enfim, uma série de detalhes em um emaranhado e complexo somatório de detalhes, onde não pode faltar
o quesito qualidade.
É convencional que as corridas servem para que os melhores superem os piores, uns
fazendo por merecer o privilégio de irem para a reprodução, como participantes do intuito de melhoria da raça.
Assim, o teste nas pistas, para os machos, é muito importante, pois dá oportunidade para que sejam mostradas
velocidade, aceleração, resistência ao cansaço, coragem e espírito de luta, condições que exprimam as qualidades.
Aqueles que não atingem nas pistas o patamar desejado mostram que até mesmo são bons, mas que não têm classe, a
esses estão reservados outros fins, que não a colaboração para melhoria da raça, por incompetência.
Na
análise desses melhores machos que tem importante missão a cumprir quando do término de suas campanhas nas pistas,
há que ser rigoroso. No caso dos de campanha no Brasil, a utilização só de machos que obtiveram vitória em provas
de Grupo na Gávea ou Cidade Jardim, que não correram com a ajuda de Lasix e semelhantes, que não foram alvos de
medicamentos dados por gente inabilitada (só por determinação de médico–veterinário e em caráter esporádico,
não–contínua, não–permanente), machos de boa índole, enfim, machos de boas qualidades físicas e
pedigrísticas.
Não adianta se enganar com aquele que não chegou a ganhar o indispensável por uma
desculpa qualquer. É seguir o dito popular “mulher que já foi e cavalo que ia ser, não servem”.
No
tocante às fêmeas, tão ou mais importante que o teste nas pistas, é a linha materna, a feminina. Como é a égua que
vai gerar os produtos, a saúde é ainda mais importante. Que ela não tenha sido submetida a exageros, tenha
participado de corridas compatíveis com o poderio locomotor e não de acordo com a eventual vaidade do seu
proprietário, que ela não tenha tomado porcarias de remédios (“Doutor, se não ajudar com uns remédios ela não vai
ganhar”).
Aqui no Brasil dar remédios nos hipódromos é uma festa, simples e competentes treinadores
medicam seus animais por informações de outros também inadequados, ou simplesmente são habituais leitores de
bulas. Como os veterinários não participam de eventuais punições aos treinadores, eles abusam, mandam dar remédios
a animais saudáveis a título de melhorar as performances nas pistas. Um absurdo. Há treinadores que periodicamente
são suspensos por doppings (até negativos), e que anualmente recebem renovação das matrículas. A única solução que
me vem à cabeça é proibir terminantemente o acesso e o uso de remédios, e cabendo aos veterinários a
co–responsabilidade nas respectivas transgressões. É um problema “cabeludo”, mas tem que ser enfrentado com
coragem e rigor.
Não é justo que um cavalo de boa qualidade perca para um inferior que corra movido por
meio de “guerra química”.
A qualidade individual é fundamental. Há muitos anos, o meu pai e eu estávamos
nas arquibancadas do JCB assistindo as corridas, quando se acercaram o Roberto Seabra com o Príncipe Aly Khan,
filho do potentado indiano Aga Khan, um dos maiores criadores de cavalos do mundo em todos os tempos. O Príncipe
era o herdeiro “coroado”, isto é, o eventual substituto daquele que além de tudo era o líder religioso, e que
anualmente recebia o equivalente ao seu peso físico (era bem gordo) em pedras preciosas e ouro. Mas Aly Khan era
um homem do mundo, e que se dedicava a dois especiais assuntos, mulheres e cavalos de corrida. O potentado Aga
Khan passou a condição de herdeiro “coroado” para o filho do Aly, de nome Karim, que hoje é o Aga
Khan.
O meu pai havia sido amigo, não íntimo, do Comendador Gervásio Seabra, pai dos irmãos Nelson e
Roberto, que aprenderam as artes da criação com o notável uruguaio Don Juan Amoroso, do Haras Casupá, e também com
o Príncipe Aly, do qual eram fraternos amigos.
Com o Aly Khan do lado, o Roberto disse ao meu pai que o
Príncipe havia chegado da Europa, e estava em viagem programada para os Estados Unidos, com paradas no Brasil, no
Uruguai, na Argentina, no Chile e no Peru. Vinha oferecer à venda para a reprodução quatro cavalos. O Roberto
disse que eram pedigrees de alta expressão internacional, e ele já ficara com três, um iria para o Haras La Pomme,
na Argentina, do amigo Roger Gutman, e os outros dois ele testaria no Brasil. Birikil já era um cavalo de mais
idade, mas ainda em pleno funcionamento, tinha descendentes de valor na Europa (o Roberto mandou sua égua Bomble
Bee para ele, e voltou para dar cria no Haras Guanabara, daí tendo nascido a especialíssima Bucarest). Inshalla
era um lindo alazão filho de Fair Trial e Stafaralla, que foi um fracasso, que eu me lembre só produziu de
importância o cavalo Shia, no Haras Vargem Alegre. Se não me engano, esse Inshalla terminou como rufião no Posto
de Monta do Jockey Club do Paraná. O terceiro cavalo foi Sahib, também de régio pedigree, filho de Birikil e Lady
Sarah. Nada deu de útil, também não disse ao que veio.
Tendo Roberto já negociado Birikil, Inshalla e
Sahib, havia ainda um filho de Tehran em filha de Bahram, dois cavalos muito importantes como corredores, mas que
ficaram “devendo” na reprodução. O tal cavalo era perdedor de 4 anos, de campanha na Irlanda, mas que tinha como
atrativo ter como segunda mãe Mumtaz Begum, a melhor velocista da Europa em seu tempo. O “4 anos sem vitória”,
então comprado pelo meu pai, correu mais uma vez na Irlanda, conseguiu sua única vitória lá, e uma carta do
treinador irlandês aconselhou que ele não corresse mais, pelas dificuldades que teria na tentativa de uma segunda
vitória. Assim, Kameran (que teve acrescentado no Stud Book Brasileiro o sobrenome “Khan”, pois já havia outro com
o mesmo nome de criação do Haras Santa Anitta), veio para a Gávea. O meu pai gostava das corridas, queria ver os
seus cavalos nas pistas e, aos cuidados do Claudemiro Pereira, foi treinado para correr. Ganhou 4 páreos comuns,
sem qualquer expressão (um deles comigo, em um páreo para jóqueis amadores), e foi para a reprodução no Ipiranga.
Lá encontrou éguas européias de quilate internacional e nacionais das melhores procedências, e foi um bom
reprodutor.
Kameran Khan, Inshalla e Sahib tinham bons, ótimos pedigrees, mas de poucas qualidades como
corredores. O êxito de Kameran Khan pode ser atribuído à boa sorte do meu pai, à incomparável orientação do
Capitão Bela Wodianer e a excelência das éguas (muitas Boussac–cruza Aga Khan x Marcel Boussac). Os outros dois,
que ficaram no Brasil, foram grandes fracassos, do Birikil nada posso dizer a não ser que veio embora da Europa
enquanto tinha valor, já na última fase da vida reprodutiva.
Inshalla e Sahib, pedigrées maravilhosos,
mas indivíduos sem qualidades próprias. É essa qualidade que faltava que tem que ser observada com rigor.
Bom pedigree, bom teste nas pistas, bom tipo físico, essa a meta a ser exigida para utilização de um
eventual futuro garanhão.
Os cavalos que fizeram campanha nas pistas norte–americanas, dentro do padrão
financeiro dos compradores brasileiros, devem ser evitados, pois as performances são “mascaradas” por formas
várias (uso de Lasix de modo indiscriminado até em potros inéditos, classificação como “skates” em muitas provas
de importâncias apenas relativas, publicidade e propaganda muitas vezes enganosas, etc.).
Os grandes
Haras brasileiros, aqueles verdadeiramente responsáveis pela estrutura da criação brasileira do PSI, “fincaram” as
suas bases na Europa, basicamente Irlanda, Inglaterra e França, e quando se aventuraram a garanhões
norte–americanos não se deram bem.
O Haras Mondesir tem sua linha dorsal em Royal Dancer, King Salmon,
Swallow Tail, Sayani, Waldemeister, St. Chad, entre outros e, mais recentemente, com Nedawi. Quando se “engraçou”
com um norte–americano, Nalanda, deu–se mal.
O Haras São José e Expedictus, o mais antigo e tradicional,
fez–se principalmente às custas de Sin Rumbo, Trinidad, Formasterus, Felício, Fort Napoleon, Blackamoor, entre
outros, mais recentemente com Know Heights. Parece–me que o único norte–americano, foi, nos primórdios, Novelty, o
pai de Santarém.
O Haras Guanabara teve Felicitation, Hunter´s Moon, Royal Forest, todos europeus de
sucesso, e quando tentou com o norte–americano Pintor Lea foi insucesso total.
Eu pessoalmente não sou
contra a utilização pelo Brasil na reprodução de cavalos de campanha nas pistas norte–americanas, mas aqueles que
realmente poderiam interessar estão fora do alcance financeiro do nosso turfe.
Mesmo com a “invasão”
dos garanhões de procedência dos Estados Unidos, os três melhores em atividade no momento em nosso país são
Nedawi, Public Purse e Crimson Tide, que não fizeram campanha nos Estados Unidos. Public Purse é filho de
Damascus, um dos grandes do turfe norte–americano, mas sua campanha nas pistas foi diversificada, ganhou provas de
grupo nos Estados Unidos, na Inglaterra, França, Alemanha e Emirados Árabes.
O único Haras que teve
sucesso através os anos com garanhões de campanha norte–americana foi o Santa Maria de Araras, com amplo destaque
para Jules, Put it Back e, agora, Wild Event.
Se adotadas normas fundamentais, como só a utilização de
comprovados muito bons ganhadores de grupo nacionais, de cavalos europeus escolhidos a dedo por gente
especializada como Samir Abujamra, por exemplo, de amplo saber internacional, e dos Estados Unidos os poucos que
escapam do “massacre” habitual de remédios e treinamentos inadequados e absurdos, procurar sempre a qualidade, o
valor intrínseco, não se deixar levar por conversas estritamente comerciais (“o turfe é business”, chegam a
dizer), sempre de olho na eventual qualidade, esse é o caminho.
Que eu me lembre, alicerçado por uma
eguada especial, com linha feminina francesa e corridas e vitórias nos Estados Unidos e na Europa, o Roi Normand
pode ser considerado apenas uma parcial exceção.
por Milton
Lodi