O Código
Nacional de Corridas estabelece normas para a concessão de matrículas. Os artigos de 42 a 52 disciplinam a
matéria.
A profissão de treinador contém certa dose de risco, pois, como não poderia deixar de ser, é
ele o responsável pela, digamos assim, "administração" dos que estão aos seus cuidados. Desse modo, e
repito que tem mesmo que ser assim, se um cavalo aparece medicado no exame antidoping, o treinador tem que ser
responsabilizado. E de um modo geral, é ele mesmo que dá, manda dar ou deixa dar. Há treinadores que já foram
suspensos por mais de uma vez, que chegam a confessar que deram o remédio proibido, são suspensos, voltam a
receber a matrícula e repetem o ilícito. Há o parágrafo único do Artigo 43 que diz que “Importa no indeferimento
in limine do pedido de uma nova matrícula a existência comprovada de suspensões ligada à prática de dopping, nos
últimos cinco anos”.
Esse parágrafo único mostra uma natural e necessária preocupação com a lisura dos
resultados das corridas.
Na prática, há casos e casos. Treinadores são suspensos, e quando dos exames de
contraprova, confessam que deram remédios proibidos, algumas vezes por indicação dos veterinários. Como os
veterinários não sofrem punição por isso, é o treinador que sozinho arca com as conseqüências. Negar nova
matrícula conforme o tal parágrafo único, tem, às vezes, efeito apenas teórico, pois aquele que se sente
prejudicado, mesmo sem razão, vai à Justiça comum e um juiz matungo dá uma liminar e assim determina ao Clube a
concessão da dita matrícula, em nome da Lei. Antigamente a Justiça comum entendia que os clubes promotores de
corridas têm regulamentação própria, a lei é o Código Nacional de Corridas, os treinadores estavam matriculados
conforme os ditames do Código, e só a ele o problema era concernente. Mas isso era antes dos juízes
matungos.
Eu penso que o problema não é de fácil solução, a não ser se na prática o bom senso e o
conhecimento de diretores turfistas, que, sem desprezar a sapiência do Código, entendem da vulnerabilidade da
posição do treinador, sujeito eventualmente à má informação veterinária, a corrupção de um cavalariço. Em nossas
Vilas Hípicas há casos de roubos, à noite, de rádios de automóveis e computadores, indício claro de que há
marginais trabalhando ou com acesso dentro dos muros do Clube. É o sinal dos tempos, os marginais invadem até
quartéis para roubar dinheiro e armamentos, por mais que haja proteção de seguranças nas áreas dos clubes
promotores de corridas, segurança total é impossível nos dias de hoje. No caso dos veterinários, envolvendo
medicação proibida aplicada ou dada por sugestão, indicação ou mesmo concordância segundo o treinador–responsável,
repito, se os veterinários fossem chamados para esclarecimentos e/ou explicações e até, eventualmente, se
responsabilizados, pudessem ser proibidos temporária ou definitivamente de exercer a profissão no âmbito do Jockey
Club, os treinadores teriam uma defesa. Mas, na verdade, há treinadores que não acreditam na ciência e dão mesmo.
No mundo turfista, no meio dos proprietários, dos treinadores, dos cavalariços, dos jóqueis, a grande maioria sabe
quem são os inocentes e os bandidos.
A habitual prática dos treinadores, que mandam outras pessoas,
ditas de confiança, mas inabilitadas e falíveis, aplicar ou dar remédios, muitas vezes é a causa.
No
Brasil, o costume de conceder matrículas de treinadores de forma indiscriminada resulta em casos curiosos. Há
treinadores suspensos que transferem só pró–forma o treinamento e a responsabilidade sobre seus cavalos para
pessoas da família (filhas, filhos, pais etc.), e os Clubes a esses “laranjas” dão matrículas, e na falta de
pessoas da própria família, a profissionais mais modestos que passam, então, a receber uma fatia dos prêmios do
treinador, na verdade alugando o nome. Há casos de treinadores que são suspensos por má prática, passam os animais
para o nome de parente, que por sua vez é suspenso por nova má prática do primeiro treinador. E isso continua,
pois o “laranja” é substituído por um segundo “laranja”. Com juízes matungos, fica difícil para os clubes
controlarem a situação. A não ser que as Diretorias dos Clubes fossem radicalmente turfistas, estudando caso a
caso com profundidade e rigor, quando fosse necessário mandando para a Polícia ou adotando outro radical
procedimento.
Na Europa, há muitos anos eram comuns treinadores ex–oficiais da Cavalaria, homens
familiarizados com os cavalos e com a equitação.
Outro dia eu conversava com um treinador, neto, filho,
irmão, primo e sobrinho de treinadores. É uma grande família de treinadores originária do Mato Grosso. O treinador
em questão é um dos melhores em atividade junto ao Hipódromo da Gávea, e que recebe atualmente lotes de potros das
melhores origens. Ele me contou que havia acompanhado, como cavalariço, o pai treinador aos Estados Unidos, de
1984 a 1987, em uma tomada de posição de dois turfistas de São Paulo, objetivando fixar um ponto de apoio para a
ida de cavalos brasileiros para lá e também a comercialização para lá e para cá. O treinador ficou três anos como
cavalariço na Califórnia, parte no Hipódromo de Santa Anita e parte em Hollywood Park. Ele acha que os cuidados
com os cavalos nas cocheiras são de alto nível, o melhor atendimento que ele já viu. Por outro lado, à parte de
treinamento é diferente. Há meia dúzia de treinadores, quem sabe uma dúzia, de treinadores lúcidos, conhecedores,
bons, e que dominam. Mas a grande maioria não tem noção, pois para tirar matrícula ou licença de treinador, pelo
menos de 1984 a 1987, o pretendente tem que mostrar que conhece o Código de Corridas ou o equivalente de lá, e é
só. O indivíduo que não conhece cavalos, mas que conhece os regulamentos referentes aos treinadores, recebe
matrícula. Não importa que seja um motorista de táxi, um jogador de rugby, um equilibrista de circo um lutador de
box, um padre, um surfista, enfim, qualquer pessoa de qualquer atividade e que nunca tenha visto um cavalo, desde
que conheça as condições previstas no Código, ou equivalente, recebe matrícula de treinador.
Fica assim
explicado, pelo menos em parte, o massacre a que são submetidos os cavalos que fazem campanha nos Estados Unidos.
Sem conhecer cavalos, sem sequer desconfiar de suas aptidões e preferências, como treinar bem um cavalo de
corridas? Mesmo que eventualmente essa barbaridade só tenha ocorrido àquela época, o problema continua atual, pois
a burrice é altamente transmissível, contagiosa. Pelo menos em parte pode–se entender o porquê desta prática de
concessão de matrículas de treinadores, em um país com produção anual de mais de 37 mil produtos, e que necessitam
de quem deles cuide. Mas o resultado prático é catastrófico, há uma estimativa que atribui ao massacre a não
estréia da ordem de 7 mil potros/ano. É mera estimativa, mas o número corresponde aproximadamente à produção de um
ano da Argentina e a mais de dois do Brasil. Eu imagino um moço competente como o treinador em questão, com mais
de dez parentes ligados aos cavalos de corridas, com uma vida familiar onde os cavalos são o ponto de referência,
assistir durante três anos indivíduos de fora do ramo, incompetentes, simples curiosos, destruindo os esforços dos
criadores e dinheiro dos proprietários, e os próprios animais.
Voltando ao nosso Código Nacional de
Corridas, já com mais de dez anos de vigência, e desatualizado em vários detalhes. O caminho não é sair
perguntando o que é que a maioria acha, pois na verdade a maioria não sabe, e sim, organizar um pequeno grupo de
competentes para estudo, debates e sugestões, e publicá–las para uma prática prevista para outros dez ou pouco
mais de anos.
O turfe é uma atividade dinâmica, é necessário dar a ele condições adequadas, acompanhando
de perto o seu desenvolvimento e de quando em quando, digamos de dez em dez anos, adequar os regulamentos às
realidades. A forma de conceder matrículas de treinadores nos Estados Unidos, pelo menos de 1984 a 1987, é de
estarrecer.
O que na verdade está faltando nesse setor de treinamento, é uma Escola de Treinadores, que
ensine os interessados a conhecer regulamentos e cavalos, boas noções veterinárias, tentar entender a
sensibilidade e orientação dos treinadores mais experientes e melhores.
Escola de Treinadores, uma
necessidade.
por Milton Lodi