Outro dia recebi esta em forma de
um e–mail repassado por cliente. “Petista é como pardal: tem em todo lugar, não serve pra nada, é feio, não canta
e ainda defeca no país inteiro”.
Não cabe a mim emitir opinião sobre esta assertiva de cunho
político/zootécnico, todavia, vejo–a bastante concernente em relação a certas diretorias do turfe brasileiro. A
diferença é que estas cantam, porém o fazem bastante mal, pois não sabem sequer a letra da cantiga.
Nós
habitantes deste pais varonil com o céu cor de anil, mas infestado de pardais, somos obrigados a viver uma conduta
sui generis. Normalmente nos contentamos com aquilo que não é aceito pelo mercado externo. Nosso melhor café vai
para a Itália, nossos mais talentosos futebolistas para a Europa, nosso mais puro cacau para a Suíça, nossa
selecionada carne para o Japão, nossas brejeiras mulatas para a Alemanha e o que sobra depois que outros mercados
se satisfazem de nossas benesses a um Real hiper–valorizado – mas pouco reconhecido internacionalmente – é o fundo
tacho. Crise ou catástrofe?
Como em alguns casos o tacho é muito bom, temos a glória de usufruir de algo
acima da média. Menos mal. Ficamos na crise. Mas infelizmente com cavalos de corrida não podemos nos dar a este
luxo e caímos na catástrofe.
Como a Argentina suplanta tanto a crise quanto a catástrofe? Peguem o
primeiro táxi em Ezeiza e perguntem a seu motorista quem ganhou a terceira carreira de Palermo na véspera e em 95%
dos casos você obterá a resposta. Por que uso a Argentina como exemplo? Porque acredito que, numa comparação
direta, a Argentina é o nosso mais fiel parâmetro. Fica ali na esquina e em muitas competências nos defrontamos.
Não iremos fazer feio perante nossos hermanos no patamar dos grandes clássicos de graduação máxima. Mas no páreo
de três anos e duas vitórias os argentinos nos suplantam.
Hoje temos três mercados sólidos de
exportação; Os Estados Unidos, a África do Sul e os Emirados Árabes, em especial Dubai. Nos dois últimos podemos
até exercer certa dominância se os itens adaptação no primeiro e adaptação e aclimatação no último, conseguirem
ser vencidos de forma racional. Mas até quando? Vejam o que a África do Sul apontou no último Festival. Outrossim,
este êxodo prematuro de nossos principais animais, está deixando o campo de nossos principais clássicos pobres em
classicismo. Ao contrário do futebol, do café, do cacau e das mulatas, não teremos reposição imediata e sequer no
mesmo nível. Ficamos de pires na mão. A cada uma Celtic Princess que vai e a cada uma Rubia del Rio que
fica, esculhambando–se em nossa pistas mal cuidadas, o espetáculo se torna cada dia menos atrativo. Decai a
qualidade de nossos protagonistas o que é uma crise e com isto o espetáculo vai para o buraco, isto uma
catástrofe. Os mesmos buracos que têm quebrado nossos animais na Gávea.
Como segurar nossos
diferenciados? Fazendo como a Austrália, cuja premiação torna mais atrativo lá permanecer do que aventurar–se em
rios mais caudalosos e infestado de piranhas? Tentando como Palermo e La Plata, com outros atrativos nos
hipódromos? Ou sei lá como na França, que o governo interagiu de forma direta. O que não dá é ver gente do social
mandar na turma do turfe, pois, como diria minha avó Adelina, o maior perigo está no amador. Ou melhor, discordo
de vovó. Há algo pior, o amador que acha que sabe do negócio e o quer ensinar ao profissional.
Por isto,
temos que aumentar os prêmios e afastar os pardais que infestam algumas nossas diretorias, para não termos nossas
cabeças defecadas. Até minha avó Adelina é capaz de chegar a esta conclusão sem perder um segundo sequer de sono.
Não podemos nos desassociar de outra realidade; a de aumentar as nossas maiores dotações, que são as clássicas,
pois esta é a meta onde todo e qualquer proprietário quer chegar. Aumentar 25% um páreo de 1.000 reais é louvável,
mas não muito difícil de se levar avante. O que aqui tem que ser feito, é aumentar, como na Argentina e no Chile,
as dotações clássicas.Você quer Pavaroti, você quer Nureyev, você quer Berstein, você quer Sinatra, você tem que
pagar. Esta é a lei do mercado. Se não ficam todos no Met e em Las Vegas.
Mas aí vem a pergunta, como
fazê–lo se a grana nem curta é? Ou melhor dizendo, nenhuma. Nossa colcha quando puxada para cima deixa os pés
descalços. Resposta; patrocínio. Aí evidentemente que os pardais do turfe brasileiro exultaram em coro uníssono.
“Isto até a sua avó Adelina sabe!”
Evidentemente que sim. Mas não podemos nos dar ao luxo de achar que é
impossível e fingir que nada de estranho está acontecendo em torno de nós. Temos que achar um jeito de
consegui–lo, pois é mais fácil do que modificar os hábitos brasileiros. O problema maior em nossa atividade é que
o povo brasileiro não é jogador, como o asiático ou o inglês. E aqueles poucos que tem e que se acham impelidos a
gastar seus dois reais, não o fazem em uma pule que possa lhe trazer vinte reais, e sim, numa loteria que possa
lhes aumentar seu saldo bancário em milhões de reais.
Afinal, somos um país que pensamos grande, em
termos de estádios, pontes, cestas básicas, Cieps, mensalões, dengue, soda cáustica no leite, bois de
papéis...
Se outros paises estão conseguindo patrocínio, deveríamos copiar suas alternativas. Sinto
Cidade Jardim consciente para com este problema. Se a maneira que está interagindo para consegui–lo é a certa ou a
errada, isto não compete a mim discutir. Mas algo está, pelo menos, sendo feito. E de alguma forma surtindo um
efêmero aumento. Poderíamos dizer a mesma coisa da Gávea? Temo que não. Haveria alguém pelo menos preocupado com o
fato? Duvido que alguém possa arriscar–se a dizer que sim.
Vamos e venhamos. Ninguém coloca um
revólver na cabeça de um ser humano e o obriga a ser um diretor ou presidente de um Jockey Club. Não é sacrifício
algum, ser presidente do Jockey Club. Tem até gente leiga ao meio que atualmente se apresenta como candidato.
Assim aqueles que aceitam o fazem com algum objetivo. Cabe ao eleitor discernir o objetivo. Se em contrapartida
este não se sente apto a tarefa, que dê o lugar a outro. O que não dá é querer ficar sentado, e esperando que o
dinheiro caia do céu.
Enquanto nossos hipódromos não pensarem como um só, a atividade não irá para
frente. Enquanto eles lutarem entre si, pelo mesmo pequeno grupo que os sustenta, estaremos remando em direções
contrárias. Enquanto não houver uma conscientização de um só calendário, de uma só pedra, de uma só maneira de
conduzir nosso mercado, de se constituir uma representação externa que atraía investidores do exterior e de ter
pelo menos um só objetivo comum, estaremos seguindo a um lugar nenhum. Enquanto agirmos como clube e esquecermos
que deveríamos ser empresa desassociada do social, deveríamos promover quermesses, ao invés de corridas de
cavalos.
Eleições se aproximam na Gávea. Deveria haver uma consciência sobre a necessidade de
melhorias e da escolha das pessoas que assim o queiram levá–las adiante. Sinto isto quando converso com o
Claudio Ramos, com o Luiz Edmundo, com o Afonso Burlamaqui. A eles deveria ser dado o poder das decisões. Mas há
de se lembrar que todos eles têm um defeito crasso. Possuem cavalos de corrida. Na Gávea, atualmente isto parece
ser entendido como uma infâmia. Pois, torna estes sócios passionais com essas coisas ínfimas de premiação,
manutenção de pista, etc. Para muitos do social, o cavalo fede e defeca em lugares impróprios.
Pois
bem, que eles fiquem na piscina. Não seria maravilhoso? As coisas podiam até funcionar. Com o status quo que hoje
impera, é que não. Este deve ser modificado, ou a coisa se estagna e apodrece. E com ele tudo a sua volta. Da
alfafa da vila hípica ao cloro da piscina...
O que a avó Adelina não aquilata, por pura falta de
informação, é que deveremos ter a cara de pau e a humildade de copiar os modelos que ora estão funcionando bem no
hemisfério norte, antes de atingirmos o fundo do tacho ou nos transformarmos todos em pardais turfísticos.
Gostaria de deixar claro que existe uma distinta diferença entre crise e catástrofe. Copiar não é crise, pagar
prêmio baixo é, sim, uma catástrofe.
por Renato Gameiro