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Abril | 2008

Quartos–de–Milha e Mangalargas, por Milton Lodi
16/04/2008 - 11h34min

Certa vez um turfista me perguntou se a predisposição dos cavalos norte–americanos para a velocidade seria porque os criadores de lá cobririam as suas éguas PSI por cavalos Quarto–de–Milha. Foi necessário lembrar que no Brasil há um controle efetivo, todos os animais têm seus sangues fichados, catalogados, e a cada registro de nascimento corresponde à coleta de sangue, para tipagem sanguínea, o D.N.A. dos cavalos, e o registro no Stud Book Brasileiro só é feito após a constatação técnica que aquele produto é filho efetivamente daqueles pais.

A natural velocidade dos cavalos norte–americanos não é tão natural assim. Treinados quase que uniformemente, em sistema de fortes partidas semanais, eles ficam condicionados a já largar correndo o que sabem, com tudo, criando um sistema, treinadores, jóqueis e cavalos disputando a liderança da corrida desde o início. O cavalo norte–americano é condicionado, pelos treinadores e pelos jóqueis, a correrem forte desde a largada.

A premissa da teórica utilização de garanhões Quarto–de–Milha é ainda falsa quando se vê cavalos PSI marcando em pencas gaúchas, tempos nunca alcançados por “quarteiros”. O cavalo Chocolate Chip, um filho de Mensageiro Alado, marcou nos primeiros 100, 200 e 300 metros tempos nunca alcançados pelos corredores de outras raças. E ele é apenas um exemplo. Nos campeonatos de rédeas, de contorno de balizas, já há cavalos da raça Crioula competindo de igual para igual com os Quarto–de–Milha.

Sem de qualquer forma pretender diminuir as qualidades dos quarto–de–milha, pois são fortes, de boa índole, bons para serviço, há que compreender que são rigorosamente adequados para o estilo norte–americano. Basicamente há três tipos, todos de raça de 400 metros. O chamado Bull–Dog é usado para cercar gado, outro tipo é o treinado para campeonatos de rodeios, balizas, rédeas. E há o terceiro, de linhas mais bonitas, que se apresentam em exposições. Eu não entendo de Quartos–de–Milha, o que eu sei é que, criados para correr 400 metros, têm boa resistência física e alta velocidade inicial. No hipódromo da Gávea há mestiços dessa raça fazendo o serviço de pungas, de cavalos de ajuda.

A dita raça é a ideal para o turfista norte–americano. Os cavalos largam e chegam com tudo, sem respirar. Não há técnica, não há lugar, nem tempo para raciocínios, é largar bem, atingir a velocidade máxima o quanto antes, e mantê–la até o fim. Que me perdoem os amantes e os conhecedores dessa raça eqüina, eles são bons para trabalhar e também para passeios. Para corridas e para o hipismo (concurso de saltos) não são adequados.

Acercava–se o Grande Premio Brasil de 1995, o tal que distribuiu uma bolsa de U$ 2.244.000 dólares, sendo um milhão de dólares ao proprietário do cavalo vencedor. Nos 75 anos de disputa desse Grande Prêmio, as duas maiores manifestações populares foram em 1933, quando da primeira realização, e em 1995, quando do super–prêmio. Um dos pontos mais fracos das administrações dos Jockeys Clubs do Brasil é a falta de propaganda, e quando ela existe é endereçada ao público já turfista. Sem verbas apropriadas, sem motivação nesse sentido, o turfe dá a impressão que está quase se escondendo. Mas em 1995 o páreo de um milhão de dólares sozinho agitou o turfe brasileiro, e também chegou fora do país. Os jornais começaram a noticiar, e se interessaram em publicar matérias mais direcionadas aos cavalos que iam correr. Um dia telefonou para a Comissão de Corridas um jornalista, alheio às coisas do turfe, que entendeu de fazer uma farta matéria, mas por telefone. Ele disse que não tinha tempo de ir conversar pessoalmente, tinha certeza que mesmo pelo telefone montaria uma matéria muito interessante.

Foi mais de uma hora de perguntas e respostas, de indagações, de curiosidades, era um jornalista realmente interessado, inteligente, que entendeu com facilidade tudo que lhe foi informado e explicado. O único problema foi quando o interessado encerrou agradecido e eufórico com o farto material que conseguira, terminou perguntando “só para confirmar, os cavalos são todos Mangalargas?”.

A ignorância sobre o turfe, fora dos muros dos Jockeys Clubs, é quase absoluta, o turfe não se promove, e quando surge alguma televisão ou jornal interessado é para noticiar acidentes graves, queda de cavalos e jóqueis, coisa ruim para a imagem de um clube promotor de corridas.

Eu ando muito de táxi, e costumo perguntar aos motoristas se eles freqüentam ou pelo menos uma vez já assistiram corridas. A resposta é sempre negativa, eles dizem que não, pois não têm dinheiro para pagar a entrada e ainda ter que apostar. Ao serem informados que a entrada é de graça e não é obrigatória a aposta, que há segurança, que há espaço e brinquedos para as crianças, mostram–se surpresos. Fora dos muros dos clubes, ninguém sabe nada de turfe, ele é ignorado. Compete aos interessados processar divulgações. Já houve uma oferta de distribuidora de filmes em cinemas, para gratuitamente mostrar nos intervalos das sessões, os filmes das corridas da semana anterior. Nada aconteceu, não houve interesse. Inacreditável. Enquanto isso, raças inferiores são promovidas, chegando a ponto de alguém achar que a propalada velocidade do PSI nascido nos Estados Unidos pode ter a participação de um Quarto–de–Milha, e que todos os competidores de um Grande Prêmio Brasil são Mangalargas. Exatamente o inverso seria admissível, pois é fato histórico, comprovado, que a raça PSI é a mais nobre dos eqüinos, sendo um melhorador por excelência. E nas pistas de corridas, é um absoluto destaque.

A raça Quarto–de–Milha é especializada em trabalhos de agilidade, de manuseio, de arranques, de mansidão e obediência, através dos anos ela vem sendo adaptada às suas finalidades para o qual ela é criada, com muita qualidade. O Mangalarga, por sua vez, é um cavalo de montaria, para passeio, caminhadas, enduros etc. Tem um trote mais macio (é claro que estou falando do Mangalarga paulista, o de trote, e não do Mangalarga mineiro, o de marcha). Cada raça na sua especialidade.

O cavalo Quarto–de–Milha tem como propulsor de melhoria a habitual importação dos Estados Unidos, onde há mais cavalos dessa raça que os da PSI.

O Cavalo Mangalarga deve seu grande impulso ao criador paulista José Oswaldo Junqueira, se não me engano, em fazenda em São José do Rio Preto. Ele mandou éguas para o Posto de Monta da Remonta do Exército em Campinas, para um garanhão importado da Alemanha, de uma daquelas raças de sela típicas de lá. Nasceram produtos de alto padrão (dois deles grandes campeões e raçadores, de nomes Chapéu e Turbante). A partir daí, os Mangalargas criados por José Oswaldo tinham as letras “J.O.” após o nome. Mas na verdade, dentro do pouco que eu sei, os criadores dessa raça estão utilizando cada vez mais de garanhões PSI, de pelagem alazã de preferência.

Enquanto os Quarto–de–Milha e os Mangalargas vão sendo promovidos, em concursos de montaria, os PSI estão restritos aos muros dos clubes promotores de corridas. Essa colocação caricatural diz muito.

por Milton Lodi



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