Certa vez um turfista me perguntou se a
predisposição dos cavalos norte–americanos para a velocidade seria porque os criadores de lá cobririam as suas
éguas PSI por cavalos Quarto–de–Milha. Foi necessário lembrar que no Brasil há um controle efetivo, todos os
animais têm seus sangues fichados, catalogados, e a cada registro de nascimento corresponde à coleta de sangue,
para tipagem sanguínea, o D.N.A. dos cavalos, e o registro no Stud Book Brasileiro só é feito após a constatação
técnica que aquele produto é filho efetivamente daqueles pais.
A natural velocidade dos cavalos
norte–americanos não é tão natural assim. Treinados quase que uniformemente, em sistema de fortes partidas
semanais, eles ficam condicionados a já largar correndo o que sabem, com tudo, criando um sistema, treinadores,
jóqueis e cavalos disputando a liderança da corrida desde o início. O cavalo norte–americano é condicionado, pelos
treinadores e pelos jóqueis, a correrem forte desde a largada.
A premissa da teórica utilização de
garanhões Quarto–de–Milha é ainda falsa quando se vê cavalos PSI marcando em pencas gaúchas, tempos nunca
alcançados por “quarteiros”. O cavalo Chocolate Chip, um filho de Mensageiro Alado, marcou nos primeiros 100, 200
e 300 metros tempos nunca alcançados pelos corredores de outras raças. E ele é apenas um exemplo. Nos campeonatos
de rédeas, de contorno de balizas, já há cavalos da raça Crioula competindo de igual para igual com os
Quarto–de–Milha.
Sem de qualquer forma pretender diminuir as qualidades dos quarto–de–milha, pois são
fortes, de boa índole, bons para serviço, há que compreender que são rigorosamente adequados para o estilo
norte–americano. Basicamente há três tipos, todos de raça de 400 metros. O chamado Bull–Dog é usado para cercar
gado, outro tipo é o treinado para campeonatos de rodeios, balizas, rédeas. E há o terceiro, de linhas mais
bonitas, que se apresentam em exposições. Eu não entendo de Quartos–de–Milha, o que eu sei é que, criados para
correr 400 metros, têm boa resistência física e alta velocidade inicial. No hipódromo da Gávea há mestiços dessa
raça fazendo o serviço de pungas, de cavalos de ajuda.
A dita raça é a ideal para o turfista
norte–americano. Os cavalos largam e chegam com tudo, sem respirar. Não há técnica, não há lugar, nem tempo para
raciocínios, é largar bem, atingir a velocidade máxima o quanto antes, e mantê–la até o fim. Que me perdoem os
amantes e os conhecedores dessa raça eqüina, eles são bons para trabalhar e também para passeios. Para corridas e
para o hipismo (concurso de saltos) não são adequados.
Acercava–se o Grande Premio Brasil de 1995, o tal
que distribuiu uma bolsa de U$ 2.244.000 dólares, sendo um milhão de dólares ao proprietário do cavalo vencedor.
Nos 75 anos de disputa desse Grande Prêmio, as duas maiores manifestações populares foram em 1933, quando da
primeira realização, e em 1995, quando do super–prêmio. Um dos pontos mais fracos das administrações dos Jockeys
Clubs do Brasil é a falta de propaganda, e quando ela existe é endereçada ao público já turfista. Sem verbas
apropriadas, sem motivação nesse sentido, o turfe dá a impressão que está quase se escondendo. Mas em 1995 o páreo
de um milhão de dólares sozinho agitou o turfe brasileiro, e também chegou fora do país. Os jornais começaram a
noticiar, e se interessaram em publicar matérias mais direcionadas aos cavalos que iam correr. Um dia telefonou
para a Comissão de Corridas um jornalista, alheio às coisas do turfe, que entendeu de fazer uma farta matéria, mas
por telefone. Ele disse que não tinha tempo de ir conversar pessoalmente, tinha certeza que mesmo pelo telefone
montaria uma matéria muito interessante.
Foi mais de uma hora de perguntas e respostas, de indagações,
de curiosidades, era um jornalista realmente interessado, inteligente, que entendeu com facilidade tudo que lhe
foi informado e explicado. O único problema foi quando o interessado encerrou agradecido e eufórico com o farto
material que conseguira, terminou perguntando “só para confirmar, os cavalos são todos Mangalargas?”.
A
ignorância sobre o turfe, fora dos muros dos Jockeys Clubs, é quase absoluta, o turfe não se promove, e quando
surge alguma televisão ou jornal interessado é para noticiar acidentes graves, queda de cavalos e jóqueis, coisa
ruim para a imagem de um clube promotor de corridas.
Eu ando muito de táxi, e costumo perguntar aos
motoristas se eles freqüentam ou pelo menos uma vez já assistiram corridas. A resposta é sempre negativa, eles
dizem que não, pois não têm dinheiro para pagar a entrada e ainda ter que apostar. Ao serem informados que a
entrada é de graça e não é obrigatória a aposta, que há segurança, que há espaço e brinquedos para as crianças,
mostram–se surpresos. Fora dos muros dos clubes, ninguém sabe nada de turfe, ele é ignorado. Compete aos
interessados processar divulgações. Já houve uma oferta de distribuidora de filmes em cinemas, para gratuitamente
mostrar nos intervalos das sessões, os filmes das corridas da semana anterior. Nada aconteceu, não houve
interesse. Inacreditável. Enquanto isso, raças inferiores são promovidas, chegando a ponto de alguém achar que a
propalada velocidade do PSI nascido nos Estados Unidos pode ter a participação de um Quarto–de–Milha, e que todos
os competidores de um Grande Prêmio Brasil são Mangalargas. Exatamente o inverso seria admissível, pois é fato
histórico, comprovado, que a raça PSI é a mais nobre dos eqüinos, sendo um melhorador por excelência. E nas pistas
de corridas, é um absoluto destaque.
A raça Quarto–de–Milha é especializada em trabalhos de agilidade,
de manuseio, de arranques, de mansidão e obediência, através dos anos ela vem sendo adaptada às suas finalidades
para o qual ela é criada, com muita qualidade. O Mangalarga, por sua vez, é um cavalo de montaria, para passeio,
caminhadas, enduros etc. Tem um trote mais macio (é claro que estou falando do Mangalarga paulista, o de trote, e
não do Mangalarga mineiro, o de marcha). Cada raça na sua especialidade.
O cavalo Quarto–de–Milha tem
como propulsor de melhoria a habitual importação dos Estados Unidos, onde há mais cavalos dessa raça que os da
PSI.
O Cavalo Mangalarga deve seu grande impulso ao criador paulista José Oswaldo Junqueira, se não me
engano, em fazenda em São José do Rio Preto. Ele mandou éguas para o Posto de Monta da Remonta do Exército em
Campinas, para um garanhão importado da Alemanha, de uma daquelas raças de sela típicas de lá. Nasceram produtos
de alto padrão (dois deles grandes campeões e raçadores, de nomes Chapéu e Turbante). A partir daí, os Mangalargas
criados por José Oswaldo tinham as letras “J.O.” após o nome. Mas na verdade, dentro do pouco que eu sei, os
criadores dessa raça estão utilizando cada vez mais de garanhões PSI, de pelagem alazã de
preferência.
Enquanto os Quarto–de–Milha e os Mangalargas vão sendo promovidos, em concursos de
montaria, os PSI estão restritos aos muros dos clubes promotores de corridas. Essa colocação caricatural diz
muito.
por Milton Lodi