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Abril | 2008

Cavalos Alemães, por Milton Lodi
09/04/2008 - 12h15min

Desde os primórdios da civilização, os cavalos foram usados para servir ao homem, como transportadores de cargas, no lombo ou puxando carroças, meios de locomoção, sendo montados ou atrelados em charretes e carruagens. Era também o meio de locomoção das tribos árabes, e já naquela época a seletividade dos plantéis era importante e fundamental, quando a preocupação da só utilização dos melhores na criação era paralela ao exatamente inverso, quando machos sem predicados, ruins, eram levados nos ataques e soltos no meio das éguas do inimigo, visando o nascimento de animais inferiores, que não viessem a poder competir com os cavalos dos atacantes. Seriam guerreiros montados em cavalos ágeis, fortes, velozes e resistentes, contra inimigos montados em cavalhada inferior.

Em todos os cantos do mundo houve uma natural e propositada melhoria da raça eqüina, e em cada região, conforme as características e as necessidades de aproveitamento de cada lugar, foram se formando raças diferentes.

O P.S.I. é originário da Inglaterra, e depois alastrou–se pela Europa. A excelência da raça, a sua beleza, sua competitividade provocaram o culto à velocidade, pois ganha quem chega na frente, quem corre mais. Em função disso, em nome da velocidade, detalhes como maus aprumos, cascaria inadequada, mau gênio, e outras impropriedades foram sendo toleradas nos animais melhores. Isso é comum no turfe mundial.

Mas na Alemanha isso não ocorre. A criação do P.S.I. alemão era controlada fisicamente por um professor–veterinário de nome Merck, que em nome do Stud Book Alemão vistoriava periodicamente todos os haras, cuidando do controle e da sanidade do rebanho eqüino. Esse extraordinário veterinário fez cursos para estudantes e veterinários brasileiros, e o seu melhor aluno foi ser seu assistente técnico na Alemanha. O brilhante aluno brasileiro é Carlos Antonio Mondino da Silva, apelidado de Tonho, uma das maiores autoridades da medicina–veterinária brasileira. A premissa da criação alemã é sanidade, cavalos com defeitos de quaisquer espécies eram, ou são, sumariamente castrados, cavalos que correram com ajuda de remédios não são registrados como garanhões, e assim por diante. Com o andar dos tempos, chegou–se agora a uma situação se não curiosa, mas pelo menos peculiar.

A exagerada utilização de animais com defeitos e deles transmissores, como Mr. Prospector por exemplo, começou a fragilizar a potrada norte–americana, e uma perspectiva não boa se apresenta como possível ou provável. Em outras palavras, possibilidades de a cada ano virem gerações mais frágeis e mais defeituosas.

Já houve no Brasil algumas tentativas da utilização de cavalos tipicamente alemães em bons plantéis, como por exemplo: Nisos, no Guanabara, Wilderer, no Mondesir, Mogul, no Fidalgo, e Takt, no Ipiranga, mas as suas produções, embora de ganhadores até de clássicos importantes, não chegaram a entusiasmar, a encorajar novas importações da Alemanha. Mas os tempos se passaram, por um lado a cada vez maior fragilidade e defeitos, por outro a sanidade proporcionando o surgimento de cada vez mais cavalos alemães vencendo muitas das melhores provas da Europa e do resto do mundo, isso já deu início a uma revolução na criação mundial do P.S.I. Um dos líderes do turfe mundial, o Sheik Mohammed, que já havia comprado o alemão Shirocco, filho de Monsun considerado o melhor cavalo de corridas do mundo em 2005, comprou para um dos seus muitos e ótimos haras o cavalo alemão Manduro, outro filho de Monsun. Esse Manduro foi o 1° colocado no ranking mundial de 2007, isto é, o melhor pontuado, o melhor cavalo de corridas do ano que passou. Com 131 pontos de rating, com 2 irlandeses (Authorized e Dylan Thomas), um argentino (Invasor) e um norte–americano (Curlin) empatados em 2° com 129 de rating. Manduro é hoje o top. Esse cavalo alemão é filho do garanhão alemão Monsun, o melhor no momento em seu país, e também são alemães o avô e o bisavô paternos, em linha alta. A linha materna de Monsun é toda alemã, garantindo total sanidade. A mãe do campeão Manduro é uma égua irlandesa, que tem mãe e avó, linha baixa, alemãs.

Em outras palavras, a linha de conduta, a linha filosófica da criação alemã emergiu, qualidade e sanidade juntas, altas classe e perfeição.

Eu não acho que desde já os cavalos alemães vão tomar conta dos haras e dos mercados.  Mas parece–me lógico que eles vieram para ficar, vão aos poucos tomando conta dos lugares hoje ocupados por garanhões baratos (no plano internacional) e que, exagerando, vêm para o Brasil pela compra de um papel com nomes importantes, acompanhados em anexo por um animal sem a devida classe, o necessário padrão comprovado por performances que estejam de acordo com os seus pedigrees.

Nunca é demais lembrar, como simples referência entre o que está escrito nos papéis e em total desacordo com os correspondentes animais, o caso do antigo criador Paschoal Conzo, que importou da Inglaterra dois garanhões filhos de notáveis cavalos da época. Baroda Squadron era filho de Solario e Simplon Express, de Nearco. Os resultados foram desanimadores, produção média ruim, mas destacando–se Faz Assim, filha do Baroda Squadron, que ganhou o Diana paulista. Mas no contexto geral, resultados muito abaixo da expectativa. Cavalos sãos, sólidos e de qualidade, sem imperfeições físicas, com classe, e que naturalmente possam cobrir boas éguas (isso não é difícil porque os cavalos alemães são outcross com a grande maioria dos plantéis do mundo do P.S. I).

Mais uma vez o Sheik Mohammed está mostrando porque ele é um dos expoentes mundiais do turfe.

A filosofia alemã na criação de cavalos já deu resultados altamente positivos nas raças de animais de trabalho e sela, e são famosos os da raça Holsteiner, Orloff, Trakenen, e Hanoveriana. Só como rápida ilustração, a raça Holsteiner é produto de garanhões P.S.I. em éguas de grande porte do norte da Alemanha, participam com sucesso das mais difíceis e importantes provas de hipismo do mundo, com altura aproximada de 1.70m e pesando mais de 600 quilos, e tudo isso com grande potência. Veja–se aí a nobreza e a qualidade do P.S.I. como melhorador da sanidade e consistência das raças genuinamente alemãs.

A criação do P.S.I. alemão é pequena, por isso os seus cavalos não podem sair tomando conta dos mercados, não é isso, mas há que se encarar a realidade, à sanidade chegou para ficar a qualidade. É uma onda que vem devagar, mas cada vez mais poderosa.

Monsun, Shirocco e Manduro não são casos isolados, são pontas de um iceberg. Devagar, mas sempre, o P.S.I. alemão já começou a chegar.

No tufe antigo, o cavalo alemão era criado nas premissas de saúde, perfeição física, boa ossatura, e capacidade para correrem longas distâncias. Na Europa, em termos financeiros, a melhor distribuição de prêmios fica por conta da Irlanda, da Inglaterra, da Itália e da França, à frente da Alemanha. O fantástico poderio financeiro norte–americano influenciou o mundo do turfe no sentido do encurtamento das distâncias, e as ditas de fundo, de 3.000 metros ou mais, foram aos poucos sendo abandonadas. O turfe alemão teve que se adaptar, mas até hoje as suas vigorosas raízes de fundo, de resistência ao cansaço, fazem–se presentes nas provas internacionais de mais distância, passou de 2.000 metros e o sangue alemão se faz presente.

A eventual importação para o Brasil de sangue alemão só pode ser benéfica se os veículos, os garanhões, tiverem pelo menos uma ponta de classe em distâncias compatíveis com as nossas programações, pois só saúde, perfeição física e solidez não ganham corridas, ganha quem chega na frente, quem tem mais velocidade dentro da distância do páreo.

por Milton Lodi



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