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Abril | 2008

À procura de um João sem medo, por R.Gameiro
01/04/2008 - 13h51min

Meus amigos...

Era assim que ele sempre começava. Pois é, hoje me lembrei do João. Não o Maciel, do qual me lembro quase todos os dias, mas sim, de outro sem medo, o Saldanha. Um gaúcho bem carioca que aliava aquela bravura e destemor digno dos nascidos nos pampas e ao mesmo tempo a malandragem, a perspicácia e a malícia dos viventes da Cidade Maravilhosa em perceber o fato e imediatamente caricaturá–lo. Fazia–o como poucos, daí ser requisitado a escrever nos panfletários comunistas, nas revistas esportivas, nos jornais de grande circulação, no Pasquim e a falar onde houvesse algum microfone, fosse ele de rádio ou televisão. O poder de sua comunicação era imensurável.

Antes que me venham com o assunto que “a vaca foi para brejo”, vou logo “à  zona do agrião”, outra por ele inventada. Carioca não é aquele que nasce no Rio de Janeiro. Carioca é aquele que assume o espírito do Rio e o encampa como seu próprio e isto o João o fez como poucos. Conheci–o pessoalmente. Eu ainda muito garoto, lá pela faixa dos 20 e poucos, e ele já nos sessenta, mas com pinta de quarenta, porque sempre foi magrinho e queimado de sol. Com seu amigo Sandro Moreira, às vezes com Armando Nogueira, freqüentava o bar do Castelinho, que passou a ser seu quartel general quando ele tinha tempo de abandonar a turma da Miguel Lemos. À frente deste mesmo Castelinho, havia um time de praia chamado Tatuis, o qual defendi, por duas temporadas, como goleiro, antes de ir para o “Areia do Leme” e, finalmente, para o “Lá Vai Bola”, do posto seis, com uma breve e malfadada passagem pelo “Dynamo”, de Tião Macalé.

Um dia pegamos o Torino, da praia do Pinto, onde a dupla de irmãos Fred e Junior destacava–se, naquele partida. O Fred de centroavante (no Flamengo, foi beque central) e o Junior de meio campo (ele que iniciou, também no Flamengo, na lateral direita e depois foi transferido para a esquerda), esbanjaram categoria e nós levamos uma enfiada sem nome. Depois de ter levado o quarto gol, ouvi uma voz nasalada atrás de meu gol. Era inconfundível. Eu a ouvia todas as noites naquele dois minutos antes do Jornal Nacional e nos jogos do Flamengo no Maracanã:

– Quer um conselho. Muda de posição ou de time, pois, tu tá numa fria.

Este era o João. Curto e direto, sem filigranas. Hoje, sorrio ao lembrar, mas naquele dia foram seis azeitonas que gostaria apagar da minha memória.

Por que isto se tornou assunto? Por algo que ele escreveu na revista Placar logo após seu desligamento do comando do selecionado brasileiro e que reli em um excelente livro recentemente lançado sobre sua trajetória profissional e pessoal. O fiz durante o trajeto São Paulo–New York e que, no caso em voga, descobri que na verdade parte deste texto nunca havia saído de minha cabeça. Sempre esteve lá no fundinho de meu cérebro, guardado para voltar a qualquer momento. E voltou, como a luz acesa após um prolongado apagão. Não dormi por toda viagem e tão logo cheguei ao JFK, escrevi este artigo, mesmo sabendo que não seria publicado tão cedo. Eis o texto direto do João:

“... eu trabalhava em jornal. Meu jornal dedicava quatro páginas a esportes. Depois despediu oito funcionários e passou a dedicar apenas uma. Eu trabalhava numa rádio, que dedicava várias sessões de sua programação ao esporte. E a rádio cortou o esporte, deu–lhe apenas alguns minutos. Eu trabalhava numa televisão que, de uma hora e meia, passou a ter apenas quatro minutos sobre futebol. Eu achava que tudo isto devia ser modificado. Felizmente, pude constatar que aquele jornal voltou às quatro páginas de esporte. Os minutos daquela rádio transformaram–se em horas. A televisão passou a ocupar duas horas por dia com futebol. Não só toda a nossa classe estava arrumando emprego, mas também o jogador de futebol estava promovido, estava em seu lugar. O público voltou aos estádios. Este mérito meus amigos, me desculpem a falta de modéstia, eu tive. Quando me convidaram (para dirigir a seleção brasileira), entendi que estavam modificando os critérios velhos, que estavam querendo coisas novas no futebol brasileiro. Mandei para a cabeça...”

E foi a mais pura verdade. Os canarinhos passaram a ser vistos como feras e todo brasileiro passou a acreditar que ganharíamos a Copa de 70, como realmente aconteceu, mesmo conosco vivendo em um estado de exceção política e tendo vindo da maior catástrofe futebolística de nossa estória depois do “maracanazo”, a copa da Inglaterra de 66. Com seu texto enxuto, direto a la Hemingway, com sua fala mansa e facilmente entendível por todas as camadas sociais, com suas críticas quixoteanas aos moinhos draconianos montados à volta do futebol brasileiro e com sua forma simples e prática de escalar um time, dois minutos depois de ser contratado, levaram–no a um patamar de confiabilidade que poucos jornalistas esportivos chegaram a ter. Só ele de forma excessivamente critica e o Nelson Rodrigues, de forma alucinógena, ainda acreditavam na qualidade do verdadeiro futebol brasileiro. E tudo mudou com a sua convocação.

Aliás, tudo mudou nos esportes. Deixamos de ser os vira–latas e latimos que nem cachorro grande. Na fórmula 1, na natação, no vôlei e até recentemente no futesal (que no meu tempo era de salão) e no basquete. Aí paro para pensar; menos o turfe...

Desculpem–me, porém não consigo ver grandes diferenças entre estas modalidades de esporte e lazer. Elas não podem ser consideradas o ópio do povo, ou muito menos os paliativos encontrados pelos imperadores romanos na tentativa de manter a plebe satisfeita pelos coliseus da vida. São a meu ver instrumentos de emancipação da realidade, mas de cunho cultural e de paixões realísticas. O turfe tem algo em comum com o futebol, que, talvez, a natação não tenha. Paixão. E por isto só vejo uma razão para tal não ter acontecido. Não houve ainda um fato ou alguém que tenha conseguido mudar a imagem que nos envolve.

Não sei qual imagem é esta. Não é a minha praia. Sei que pelo menos o João Saldanha era chegado às corridas de cavalo. Talvez, nossas quatro principais agremiações, juntas à ABCPCC, pudessem contratar um órgão de pesquisa e levantar qual seria esta imagem maléfica que afugenta o público das dependências de nosso hipódromos. E a partir daí tentar modificá–la com os recursos de marketing moderno. Não é possível querer se vender um produto e não tê–lo devidamente anunciado e badalado pela mídia de massa.

Tudo tem um preço e a este deve ser somada a vontade dos dirigentes em pagá–lo. Mas existe esta vontade? Não haveria na cabeça de alguns presidentes manter esta atividade num modelo elitista, onde apenas os mais chegados tivessem acesso? Sempre acreditei que é melhor ser office boy em New York do que o rei do Senegal. Por isto aportei por aqui, de saco cheio das mesmices brasileiras. Mas parece que em nosso turfe, principalmente no Rio de Janeiro, tem gente que prefere ser o rei do Senegal. Precisamos de um João sem medo. Ou de um Claudio que parece estar a fim de arregaçar as mangas...

Paro por aqui. Lembrei–me novamente do João Saldanha, que uma vez escreveu: “...mais de 30 linhas e o brasileiro não lê. Enche o saco.”

por Renato Gameiro



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