Na época foram muito comentadas as constantes transgressões de trânsito cometidas pelo Nelson Piquet. Um amigo meu, que, diga–se de passagem, nunca gostou muito do Nelsinho, talvez por aquele seu jeito meio arrogante de pouco ligar à opinião alheia, tratou logo de descascar a banana.
– Você vê, o cara ganhou dois títulos mundiais e no trânsito não passa de um barbeiro como eu, você e qualquer um outro.
Imediatamente não concordei, talvez no início por defesa própria, mas no final pela alusão ao Nelsinho. Poxa! Vai ser crítico nos quintos dos infernos! Que me desculpem os inúmeros Demervais da vida, mas quando um cara é batizado com o nome de Demerval é porque até seu pai estava de sacanagem. Chamar o Nelson Piquet de barbeiro me pareceu demais. Não “güentei” e respondi na lata sem usar sequer o apelido de Dema que os amigos lhe deram para suavizar o choque do nome:
– Olha aqui Demerval, você pode até gostar mais do Senna e do Fittipalti, mas chamar o Piquet de barbeiro é dose. E antes que me esqueça, não sou barbeiro e se você acha que é o problema é seu.
Ele me olhou com aquela sua expressão arredia e “tascou” outra sem apelação:
– Renatinho, você pode entender muito dos burrinhos, mas de Fórmula 1, não conhece nada. Correr não tendo ninguém na contramão, com aquele asfalto certinho e tendo contra si outros caras que dirigem até melhor do que você, qualquer um vira Piquet. O cara não existe. Não se engane.
Hoje relembrando este diálogo de beira de praia, vejo–o de uma outra forma. Siphon e Sandpit, para mim os turning points de nossa aventura no hemisfério norte, inegavelmente melhoraram depois de chegarem à Califórnia. O Demerval teria uma resposta se a ele esta contestação fosse exposta: “Pô, como não poderia ser?” Melhores pistas, melhor alimentação, melhor treinamento papapi, paracolá ...
Há uma meia verdade. Afinal cresceram, muscularam–se e creio que foram mais cavalos lá do que no Brasil. Mas discordo no item treinamento. Ainda mais que um deles era treinado pelo João Maciel. Na comida e na pista teria que concordar. Saíram da Rocinha e foram morar na Vieira Souto, qualquer um adora a diferença. O problema é que muitos que lá chegam, já foram significativamente afetados pelas superfícies a que foram expostos. Por isto, foram os que correram menos aqui, os que apresentaram melhores resultados lá. Em pistas esburacadas, com base em concreto, sem o devido respaldo de irrigação consciente, controle diário de textura e volume, tanto Gávea quanto Cidade Jardim – cada uma com seus defeitos – devem muito em relação à Califórnia, mesmo com a escorregada na banana da turma do seu Stronach este ano em Santa Anita.
Deveríamos ter um cuidado todo especial com nossas pistas, para que fatos desagradáveis, como o acontecido com Rubia del Rio, não viessem mais a acontecer. São nelas que os investimentos dos criadores e proprietários correm e igualmente são nelas que nossos jóqueis arriscam suas vidas. Controlar o cloro da piscina, limpar com esmero as quadras de tênis, são igualmente dados importantes. Todavia, mais do que isto, deveríamos olhar com mais carinho para onde os cavalinhos correm, já que o Bombril já era e muita gente baba só em pensar em transformá–las em estacionamento.
Pista, meus amigos, é palco. Experimentem colocar o Rudolf Nureyev para saltitar no quintal de sua casa. Ele vira passista de escola de samba de terceira divisão.