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Março | 2008

Louraça, por Milton Lodi
25/03/2008 - 14h55min

Quando ele nasceu, o pai era um dos jardineiros do Jockey Club. Acostumara–se ao mundo do turfe indo freqüentemente, com a mãe, encontrar o pai no hipódromo. Era lá que ele passava os dias de férias andando pelas cocheiras, conversando com os treinadores e os cavalariços, olhando os cavalos, vendo os jóqueis e os aprendizes trabalhando cedo os cavalos, vagava pelas arquibancadas, enfim, viveu o turfe desde logo. Panorama lindo, os amigos todos por ali, o bom seria mesmo viver para sempre naquela terra encantada. Além do mais, ele dera sorte, tinha tudo para tentar ser um jóquei. Como o pai era funcionário do Jockey, ele estudara de graça na ótima escola do clube. Acabou tudo dando certo, boa índole, simples, trabalhador, a vida foi se processando a contento. Ingressou na Escola de Jóqueis, também chamada de Escola de Aprendizes, de aluno passou a aprendiz e daí a jóquei, sempre moderado e aplicado. Firmou–se como bom, não um jóquei de alta classe, mas como eficiente e confiável. Ele não podia reclamar da vida, gostava do que fazia, era prestigiado.

Passou a se sentir só. O pai e a mãe haviam morrido, ele ganhando o dinheirinho dele, mas sozinho. Não tendo o que fazer à tarde, passou a freqüentar um ótimo shopping que havia no bairro. Ficava vendo o movimento, a mulherada passando para lá e para cá, potrancada de primeira ordem. Mas não foi uma potranca, menina nova, que chamou a sua atenção. Ao fim de todas as tardes, uma louraça linda, de mais de 1, 75, de corpo muito atraente, um pouco mais para forte do que para magra, cabelos esvoaçantes, entrava num cabeleireiro do shopping para dar um toque nas madeixas douradas da exuberante e ondulada cabeleira, e assim matava o tempo, aguardando a chegada do marido, um bonitão, altão, moreno, forte, freqüentador diário da academia de ginástica do shopping. Era um casal bonito, ela uma louraça, ele um atleta de quase 2 metros de altura.

Tostão, como era apelidado o jóquei, passou a ficar muito interessado. E foi pesquisar. Conseguiu saber na academia o nome do atleta, onde ele morava e o telefone do apartamento. A partir daí, logo após o encerramento dos trabalhos matinais, Tostão se dedicava a fiscalizar a vida do casal. O homem saía de casa para o escritório às 8 horas da manhã, chegava à academia do shopping às 5 da tarde, e às 7 da noite pegava a mulher no cabeleireiro para irem jantar. A louraça saía meia–hora depois do marido, ia andar na calçada da praia, voltava às 10, saía para umas pequenas compras, voltava para almoçar e mais tarde ia para o cabeleireiro por volta das 5 da tarde. A meta então passou a ser outra. O que fazia a louraça, do almoço às 5 da tarde?

Tostão passou a seguir a moça. Não era fácil acompanhá–la, ela era mesmo misteriosa. Um dia à tarde, o Tostão andava pelo shopping quando, de repente, sorridente, surgiu a louraça à sua frente. Ela o convidou para tomarem um refresco, sentaram–se e a conversa fluiu franca e amena. Ela tinha dinheiro de família, não precisava de ninguém. Casara–se com o bonitão por paixão, mas a desilusão não tardara. Ela queria viver, namorar, viajar e ele só pensava em trabalhar e fazer exercícios físicos. Ela confessou que estava deprimida, e que só tinha uma amiga íntima, a Doralice, que trabalhava no cabeleireiro.

Aos sábados e domingos o Bonitão ficava enfurnado em casa, na sala, vendo futebol na televisão. Aos sábados, à noite, quando não havia jogo, às vezes ele concordava em no máximo ir a um cineminha. Uma tarde de fim–de–semana, na televisão do quarto, por acaso ela assistira a uma corrida. O cenário do prado, a beleza plástica das corridas, as blusas coloridas, a animação, aquilo abrira um mundo novo. Ela comentou isso com a Doralice, que lhe informou que havia um jóquei que costumava freqüentar o shopping, e descreveu as características físicas dele. A louraça sorriu, ela já percebera que o tal sujeito volta e meia aparecia por perto dela. Por isso ela resolvera conhecê–lo, saber um pouco do mundo das corridas.

Foi a confissão de carência que instigou Tostão a se aproximar da louraça, ele conhecia o mundo que ela queria conhecer. Na primeira semana, encontros diários no shopping, a partir da segunda, diariamente no apartamento dela. Mas antes das 5 horas ele tinha que ir embora, ela sempre ia para o cabeleireiro.

Tostão estava achando muito bom. Trabalhava os cavalos de manhã, descansava um pouco, ia encontrar a louraça à tardinha e andava pelo shopping. E de vez em quando a louraça ainda dava um presente para ele.

Um dia, quando ele chegou ao shopping, foi abordado por um segurança, que lhe disse que o Dr. Delegado, do Distrito Policial próximo, mandara dizer que o estava aguardando no dia seguinte, logo após o almoço. O Tostão tremeu. O tal Delegado era o conhecido Dr. Trovão, uma fera, que só com a voz intimidava qualquer um.

Acontece que o Dr. Trovão tinha conhecido o Bonitão, marido da louraça, quando ainda eram pequenos e cursando o primário. Criaram uma boa amizade, e embora a vida tivesse traçado caminhos diferentes para eles, ficara um vínculo de amizade. O Bonitão havia telefonado para o Dr. Trovão, dizendo–se incomodado por informações que recebera, no sentido de que haveria um homem que diariamente era visto no shopping, sempre por perto da louraça. Pediu uma providência ao amigo. O Delegado era um homem esclarecido, com bom senso e bons modos e que conseguia muitas vezes resolver situações difíceis. Mas costumava perder a calma quando punha em risco a tranqüilidade, a harmonia de um casal. Mandou um investigador verificar o que estava acontecendo, e quando foi informado que era verdade, havia um homem cercando a mulher do amigo, deu imediata ordem para que um dos seus policiais, que como “bico” fazia segurança no shopping, descobrisse o sujeito e o mandasse à Delegacia.

O Dr. Trovão se preparou para receber o homão, aquele que era o rival do seu amigo Bonitão, atleta com quase 2 metros de altura. Mandou que um detetive ficasse cuidando da porta da sala, outro ao fundo para dar eventual necessária cobertura, sentou–se à sua mesa de trabalho, que ficava sobre um estrado de mais de um palmo de altura, e mandou entrar o tal rival. Quando o Tostão entrou, o Dr. Trovão viu, em lugar de um homem grande, forte e pelo menos tão bonito como o amigo dele, um magrinho, bem pequeno, certamente pesando menos de 50 quilos. Como é que a louraça, tendo em casa o Bonitão, ela bonita, vistosa poderia deixar–se encantada por aquele sujeitinho sem graça? O Dr. Trovão, com a cara fechada estava de dar medo. O Tostão já sabia do que se tratava, o segurança do shopping já lhe dera a informação, era preciso tomar muito cuidado quando o Delegado estava zangado.

Ali estavam, o Dr. Trovão com aspecto enfurecido, em pé atrás da mesa, mãos na cintura, e o Tostão quieto, pronto para mentir e sair fora daquela incômoda situação. Silêncio completo, nem os detetives se mexiam. O Dr. Trovão pensava, como é que pode o Bonitão estar perdendo a louraça para aquele homenzinho. Tirou as mãos das cadeiras, desceu do estrado, encaminhando–se para o Tostão. Abriu um grande sorriso e estendeu–lhe a mão. Deu parabéns por ele ganhar a louraça do Bonitão, era um atestado de alta competência. Passou o braço pelos ombros dele, e sugeriu que ele tomasse mais cuidado, e sempre sorrindo mandou–o embora.

O Tostão saiu aliviado, sentiu–se o dono da situação.

Mas um mês depois a louraça se despediu dele. Tinha se separado do Bonitão e ia morar em Portugal, no Algarve, com a Doralice.

por Milton Lodi



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