Ele era um típico menino nascido e criado nos subúrbios do Rio. Teria uns 15 ou 16 anos, era um branquelo magricelo ainda em fase de crescimento, mas era do tipo espanador, corpo fino e vasta cabeleira, já alto para a idade. O pai dele, aposentado que ocupava o tempo estudando os programas das corridas dos fins de semanas, e era um habitual ganhador, acertara um concurso acumulado, e comprara um pequeno apartamento em Copacabana, a realização de um sonho de consumo. Para o menino, foi o descerrar de uma cortina, ele encantou–se com a praia, e passou a freqüentá–la. No período de férias, ia todos os dias de manhã, chegava por volta das 9 e lá ficava até o fim da tarde, vendo o vai–vem das lindas moças que, como ele, passavam os dias por ali.
Um dia, exatamente às 10 horas, uma morena maravilhosa desceu do calçadão na areia, e veio calmamente sentar–se perto dele. A praia parou para assistir aquela beleza em movimento, e só depois que ela se acomodou é que a movimentação voltou. O menino ficou atordoado. Na verdade, a moça não era bonita de rosto, mas o corpo, um deslumbramento. O menino ficou fascinado, e todos os dias chegava antes das 10 para assistir a chegada da Deusa. Ela se acomodava sempre próxima e depois se reclinava em uma cadeira de lona, ali ficava se dourando. Ela só ia dar um mergulho à hora de ir embora para almoçar, e as suas caminhadas para a água e para a volta silenciavam a praia. Na verdade, ela era uma beleza, mas fingia nada perceber. Os dias foram se passando, e o menino ficou sabendo que ela era mesmo quieta, discreta, e irmã do Pantera, um professor de artes marciais, de karatê, de jiu–jitsu, de judô, dessas lutas. O Pantera era um homem de boa índole, com muitos alunos, de muita força, técnica e agilidade.
O menino inscreveu–se na academia do Pantera e continuou a freqüentar diariamente a praia. Um dia, um vendedor de mate teve dificuldades de troco, disse que a PENÉLOPE, nome da musa, poderia deixar para pagar no outro dia. Foi a chance que o menino tanto almejava, ofereceu–se, insistiu e pagou o mate dela. Daí em diante, os dois se cumprimentavam, trocavam umas poucas palavras.
Um dia, quando a Deusa estava sentada passando no corpo um óleo protetor, os olhos deles foram em direção à varanda de um apartamento que ficava em frente, naturalmente do outro lado da avenida. Um colosso de um homem, muito grande, muito forte, provavelmente um halterofilista, só de calção, olhava fixamente para eles. Com um grande sorriso, ele brindava, com uma taça de champanhe. A moça começou a sorrir. O menino ficou pálido, ainda mais quando percebeu que o homão sinalizou que no dia seguinte iria à praia. O magrelo ficou apreensivo, ele não tinha a menor chance de enfrentar o fortão, que certamente iria ocupar, por bem ou por mal, o lugar dele junto à PENÉLOPE. No mesmo dia, no final do expediente da academia, foi falar com o Pantera. Explicou a situação. O Pantera ouviu com atenção, e disse para ele não se afligir, no dia seguinte não haveria expediente na academia, e ele ficou de aparecer na praia antes das 10 horas.
Quando no dia seguinte o homão desceu do calçadão e veio pela areia, o Pantera, que estava por perto, veio se acercando, primeiro sério, depois sorridente. Quando o homão chegou, o Pantera colocou amistosamente a mão em um braço dele, e o apresentou ao magricelo. Aquele era o LILOCA, figura muito conhecida de Copacabana. O menino ficou confuso, e foi aí que ele reparou nos olhos úmidos e meigos do LILOCA, o brinco em uma das orelhas, a pulserinha dourada, e as sandálias cor–de–rosa, mesma cor do calção. E entendeu ainda e aí que o LILOCA não queria a Deusa, mas ele.
O LILOCA deixou–se levar docilmente pelo Pantera até a barraca dele, para uma roda de amigos que a tudo assistiam sorridentes.
O menino ficou sem graça, ainda mais quando a PENÉLOPE abriu um grande sorriso, e logo depois passou a gargalhar de forma incontida. A praia toda ria. Aos poucos a Deusa começou a arrumar as suas coisas, levantou–se, deu a mão ao menino branquelo e magrelo, e de mãos dadas, ante os olhares de toda a praia, subiram da areia para o calçadão, atravessaram a avenida, e entraram no edifício onde a Deusa morava. Foi quando o menino magrelo e branquelo conheceu o paraíso.
por Milton Lodi