Lembro da primeira vez que o vi, naquela última baia, o alazão de frente aberta, porte mediano e coração hipertrofiado, crina totalmente tosada, meio aloirada, algumas manchas escuras na pelagem herdada de seu avó paterno, o grande The Minstrel.
Li a maioria dos cronistas enaltecendo o sangue e as campanhas de grandes reprodutores importados, condenando nossos heróis nacionais ao ostracismo. Mas nenhum racionalismo seria capaz de propiciar o prazer de possuir um campeão como I Love Dance, de poder torná–lo reprodutor e de perpetuar seu sangue. Essa é a forma de manifestar o meu respeito à sua história. Resigno–me tendo a certeza de que os mencionados cronistas assim agem por não terem possuído um I Love Dance em pistas pernambucanas, e, assim, concedo o benefício do perdão. A mim, despertam relativo interesse: Dubai, Estados Unidos, Argentina, Maroñas, Europa ou Japão, mas nada é tão importante quanto a consagração na Madalena, por ser esta a nossa realidade.
Falando de linhagem, seu pai, Minstrel Glory, era um garanhão de destaque na década de 90, produzindo várias gerações para o Haras Ponta Porã e liderando estatísticas. Porém, na linha baixa, não tinha muita admiração por Arabian Gift, apesar deste descer a The Axe, que subia a Executioner II, talvez, como dizem os puristas, fosse esta a sua salvação. Sua mãe, Belly Dancer, produziu alguns bons animais. Era uma égua de boa categoria e tinha grande predileção pela pista de areia, o que, para mim, era ótimo sinal. Descendia de Kaçua, da geração “K” (1983) do Haras Rosa do Sul, que detinha 6 vitórias na areia em apenas 8 apresentações entre o Tarumã e Cidade Jardim. Na verdade, segundo aprendi com Gameiro, o segredo talvez estivesse em Restless Jet e Tumble Lark, respectivamente, seus 2° e 3° avôs paternos, a nata do inigualável Haras Rosa do Sul.
Quanto à campanha, foram 4 vitórias no Rio de Janeiro, a última em julho de 2002, quando recém–completara seus 5 anos. Reputo como um cartel de respeito. Foi segundo num Pesos Especiais fortíssimo contra Johnny Tower, derrotando animais da categoria de Booming Profits, Italian Friend e Kor Zok, este vencedor do GP Bento Magalhães na Madalena no ano de 2003. Em seguida, descolocou–se na Prova Especial Jayme Augusto Calvet de Vasconcelos, em 2.200 metros, vencida por Solo No Más, animal que derrotara em outras oportunidades e que, naquela época, constituía–se num dos melhores para as distâncias de fundo no Brasil. Vimos, com isso, que o “fundo” não era a nossa praia. Assim, estreou em Pernambuco com uma vitória consagradora, de ponta a ponta, no GP Pedro Allain Teixeira, a milha do festival do GP Bento Magalhães de 2002, com direito a uma aula de direção de J.Viana Jr. Em 2003, igualou o recorde dos 1.200 metros, pertencente havia uma década a Barim, apenas em razão de nosso jóquei, V. Marinho, de saudosa memória, ter resolvido comemorar a 100 metros do disco. Marca superada, posteriormente, somente pelo excepcional Jaspion, animal de categoria condizente com o posto de recordista na Madalena. Aliás, ter um recorde quebrado por Jaspion, para um turfista de verdade, chega sinceramente a ser uma honra. Voltando a I Love Dance, a 15/06/2003 baixou em 1 segundo o recorde dos 1.100 metros, quando o mesmo V.Marinho recebeu a ordem de empenhar–se até o disco, já que, àquela altura o que queríamos não era apenas vencer, mas obter a melhor marca da história até então. E foi feito: 66,3 segundos é tempo de gente grande, equiparando–se ao estabelecido para a mesma distância no Hipódromo do Tarumã, de pista semelhante à nossa à época e que recebe animais da mais alta categoria dada a excelência na criação e a proximidade dos grandes centros. Quando a pista da Madalena ainda proporcionava boas marcas, antes da reforma da raia e do recebimento de vários caminhões de areia, Portland Blazer e Jaspion, mesmo em pista propícia a boas marcas, tiveram oportunidade e não conseguiram bater o feito de I Love Dance, o que é deveras relevante.
Para não dizer que não falei dos espinhos, não poderia deixar de registrar, em reconhecimento a um lídimo defensor das sedas do Haras Pernambuco, que não perdoamos pretensos “profissionais”, como um A. Fernandes ou um S. Moreira, que, de certa feita, fizeram por onde “pegá–lo” ou “atalhá–lo” de todas as formas num percurso de 1.000 metros em que, à época (setembro/outubro de 2003, vindo de 2 recordes e de 4 meses de inatividade por não encontrar adversários no tiro curto na Madalena) seria imbatível, acabando por perder um páreo chorado para um cavalo valente porém “freguês” como era Sir Biri, tudo isso aliado a uma imperdoável direção dada por F.Benone. Infelizmente, eles não estavam à altura de um animal como I Love Dance. Perdemos por cabeça... erguida. Como também condigna não foi a atitude de outro jóquei, P.B.Braga, que vinha de 3 vitórias a fio com I Love Dance e, na corrida seguinte, por não poder montá–lo em razão de contrato com terceiros, adentrou à reta de chegada emparelhado, desta feita conduzindo Ulyn Fitz por dentro, pelas linhas 2 e 3, terminando nas balizas “90” e “91”, tendo–lhe acertado a face com um chicote por 2 oportunidades. Merecíamos mais respeito, Braga, pois quem é digno como I Love Dance não gosta de apanhar na cara. Abstenho–me, por questões éticas, de comentar as decisões das Comissões de Corridas que confirmaram os respectivos resultados. São carreiras que estarão gravadas em nossa memória, que não cairão no esquecimento, pois, como nas vitórias, mantiveram–nos de pé. E sobre as flores, foram, ao todo, 9 vitórias na Madalena, sendo 1 Grande Prêmio e 2 recordes, mais 4 vitórias na Gávea/RJ.
Agradeço a Deus por ter podido contar com I Love Dance em meu plantel e lamento ter–lhe proporcionado um sofrimento desnecessário na tentativa de salvá–lo de uma recidiva laminite. Temos a consciência tranqüila por termos tentado tudo que estava ao nosso alcance para evitar que o problema acontecesse e para resolvê–lo. Aos que não fizeram o mesmo, não é hora para lamentar, já que o dano encontra–se eternamente estabelecido. Tentem, apenas, aprender com vossos erros, mas não me esperem ter ao lado para ensinar.
Tento propiciar tudo de melhor aos meus animais e, data vênia, aos demais, com o predileto não poderia ser diferente. Mais uma vez, falhei em minha tentativa e, desta feita, lamento reconhecer que desisto, ante as tristezas que me foram impingidas. Talvez quando conseguir concluir o Curso de Medicina Veterinária possa pensar diferente. Por hora, chega ao fim a tentativa do Haras Pernambuco em se estabelecer como centro criatório. Respeitarei os produtos concebidos, manter–me–ei como proprietário de pouquíssimos animais, mas criar, não mais. Decepções, incompetências, desconhecimentos, descasos, prejuízos, felizmente, não serão mais ser suportados. O amor pelo cavalo de corridas continua e será repassado através de gerações. Vou cuidar de minha família e contar minhas histórias, devidamente registradas através de fotos, palavras e em minha memória, que me acompanharão por toda a eternidade.
Por fim, confidencio que agradecia a Deus, todos os dias, quando chegava à cocheira e via I Love Dance em cada um de seus momentos: com saúde, por quanto ele fora bom e bonito; doente, pelos dias em que ainda o encontrara vivo; quando se foi, por Deus ter posto fim ao seu sofrimento. De toda sorte, sou muito feliz por ter podido mantê–lo próximo ao lugar onde passou os seus últimos dias, acompanhando–me pelos que ainda me restam.
Obrigado por tudo, nobre dançarino.
por Fábio Câmara