1 – O páreo era em 1.600 na grama, se não me engano. O meu cavalo, Karatê, era o favorito, costumava acompanhar os ponteiros e atropelar na reta. Era um cavalo forte, saudável, estava muito bem e devia ganhar. Merecia o favoritismo. Correu em 3°, e na reta os dois que vinham emparelhados na frente se afastaram um do outro, pois o de fora abriu na entrada da reta, deixando um confortável espaço para que o Karatê por ali entrasse. O Bolino acionou o cavalo, que logo correspondeu, encurtando a diferença. Quando a cabeça do Karatê já estava na altura da garupa do cavalo de dentro, eis que violentamente o que vinha por fora voltou. O resultado foi que o Karatê quase caiu faltando uns 200 metros. Os dois da frente chegaram a se tocar. O Bolino ajustou novamente o Karatê e o lançou por fora dos dois, chegando à cabeça daquele que estava no disco mais à frente, pois o de dentro ficara para trás nos últimos 50 metros. Logo após o disco o Karatê já tinha nítida vantagem. Um caso simples para uma clara e indiscutível desclassificação. Na volta da raia, na vinda pelo corredor, eu lembrei ao Bolino para ir logo reclamar com o comissário de plantão. Àquela época eu ainda não era comissário, e havia uma determinação no sentido de que um comissário de corridas deveria estar na repesagem, para presenciar não só as atividades de antes como as de depois dos páreos. O comissário de corridas do Jockey Club de São Paulo naquela tarde era um engenheiro, homem fino, bem educado, mas não primava pela inteligência. O Bolino saltou do Karatê e foi direto falar com o ele, o Dr.Constantino, e disse que tinha sido muito prejudicado e era um caso de desclassificação. O Dr.Constantino mandou que ele aguardasse a repesagem de todos os jóqueis do páreo. O Bolino quis insistir, o homem mandou que ele aguardasse. Pesos conferidos, apertou um botão. De imediato soou uma sirene, confirmando o páreo. Aí o Dr.Constantino disse que era chegado o momento da reclamação. O tal comissário veio a ser Diretor–Secretário do Clube, estava sempre presente às reuniões, trabalhava no seu setor. Quando se iniciaram as conversações para acertar os detalhes de uma nova eleição, o Dr.Constantino, vendo que o seu nome estava descartado para candidato à Presidência, afastou–se da Diretoria para nunca mais voltar. Ele mesmo não soube o bem que ele fez com isso ao turfe brasileiro.
2 – Francisco Irigoyen foi um fantástico jóquei. Uma de suas artimanhas era acompanhar o ponteiro bem atrás dele, na mesma linha, quieto. Isso ele fazia quando entendia que o grande competidor ia à sua frente. Vitórias memoráveis Irigoyen conseguiu, mas uma vez eu não gostei. Emoción havia vencido o Diana paulista em 1958 e veio à Gávea tentar o Diana carioca em 1959. Emoción e Derah iam decidir a vitória. No meio da reta final, com Derah na frente e com o jóquei dando uma olhada para trás, eu vislumbrei uma espetacular vitória da minha criação. Só que o jóquei de Derah, na tal olhada, não percebeu que Irigoyen trazia Emoción nos seus calcanhares, quieta, pronta para um “rush” final. Nos últimos 50 metros Derah, com a corrida praticamente ganha, foi surpreendida por Emoción que, tirada da linha de Derah com rapidez e maestria por Irigoyen, em arremate violento venceu em chegada emocionante. Duas éguas de alta classe, um jóquei artista e um jóquei comum.
Situação semelhante ocorreu em 1956 no Grande Prêmio Jockey Club do Rio de Janeiro, em 4.000 metros. De São Paulo veio o grande campeão Adil. Dentre os competidores Canaletto e Cedro, esse um cavalo sem brilho especial, mas que sempre chegava em provas de distâncias ditas mortas. Adil sempre na frente, em bom ritmo, liquidou ao longo dos primeiros 3.000 metros os seus adversários, menos Cedro, que ia nas mãos do extraordinário Oswaldo Ulloa, sem participar, só acompanhando. Entraram na reta final sem alterações, Adil na frente sozinho e em galope de saúde, Cedro acompanhando sob controle do Ulloa. Faltando uns tantos metros, o jóquei de Adil desarmou o seu cavalo, ele naturalmente diminuiu o ritmo, o páreo estava ganho com rara facilidade. Foi quando Ulloa arrancou com Cedro junto à cerca interna, poupado no percurso, rapidamente descontou a diferença. Um cavalo desarmado e em galope suave, um outro correndo o máximo no habitual rigor de Oswaldo Ulloa. Ulloa tirou Cedro da linha de Adil quando já estava bem perto, e emparelhou com o campeão em cima do disco, sem que o jóquei de Adil tivesse tempo e/ou oportunidade de fazer alguma coisa. O vencedor por cerca de meia cabeça, ainda foi Adil que saiu da raia com seu jóquei vaiado. Quando o Cedro voltou, como perdedor, proporcionou ao sempre sorridente chileno Oswaldo Ulloa uma carinhosa e aplaudida acolhida.
Esse é um detalhe simples de ser compreendido, mas nem sempre respeitado pelos jóqueis dos cavalos melhores. Apenas como mero exemplo caricatural, se em um páreo o melhor pode fazer a distância em 100 segundos e os demais não conseguem baixar de 102, o melhor tem que correr para 100 ou 101, pois se deixar para 102 ou mais pode ou vai certamente perder. O melhor tem que se impor, que ditar.
3 – Àquela época, Tiroleza era quase imbatível. Sempre muito bem apresentada pelo ex–jóquei e treinador chileno Juan Zuniga, e pelo especialíssimo veterinário José Mora Campos, Tiroleza tomava a ponta na largada e ia embora, não diminuía, não parava, um espetáculo. Carismática, era a grande estrela do turfe brasileiro. Em 1951, para tentar ganhar da Tiroleza, que ia correr o GP Jockey Club do Rio de Janeiro, em 4.000 metros, foi um pequeno lote de competidores, dentre eles a parelha Lord Antibes, um francês filho de Vatellor, bom cavalo nas grandes distâncias, e a argentina Cloche, égua de velocidade. A tentativa era forçar a Tiroleza a se desgastar na primeira parte do percurso, para manter–se sempre na frente como era do se costume, e então fragilizada ter ainda que conter no final o fôlego do Lord Antibes. Era uma tentativa, se nada fosse tentado o páreo já estaria decidido antes de começar. Dada a largada, Tiroleza foi para a ponta como de costume, e logo a ligeira Cloche, com o chileno Emidgio Castillo, com ela emparelhou e tentou passar. Mas Domingos Ferreira tinha instruções, sabia a égua que tinha, e fez Tiroleza correr. Sempre com pequena vantagem para Tiroleza, os primeiros 1.000 metros foram corridos vertiginosamente. Mais um pouco e Cloche deu por encerrada a sua atuação. Controlada por Castillo, fez o resto do percurso de galope, em último. A essa altura, Tiroleza tinha sido exigida e tirado uma enorme vantagem, que se manteve até a entrada da reta final, pois os outros competidores não se atreveram a persegui–la. Aí surgiu Lord Antibes, de criação de Mme.Volterra, que se apresentou para lutar nos últimos 600 metros. Mas não houve luta, Tiroleza manteve uma cômoda vantagem, vencendo por muitos corpos e batendo o recorde que permanece até hoje. Foram irritar a então Rainha do Turfe, foi nisso que deu.
Para que se tenha uma idéia de quem era Lord Antibes, basta lembrar que ele venceu em 1952 e em 1953 os 4.000 metros do Grande Prêmio Jockey Club do Rio de Janeiro.
por Milton Lodi