1 – “Los aprendices descarregan hasta la partida” “(Os aprendizes descarregam até a partida)”.
Essa era uma das frases do ótimo veterinário chileno Rodolfo Morales de la Fuente, que trabalhou alguns anos no Brasil (Stud Seabra) e na Argentina. Era um homem amável, agradável. Eu o conheci em maio de 1960, no Hipódromo de San Isidro, numa sexta–feira antevéspera do Gran Premio 25 de Mayo. Eram onze horas da manhã quando, montado por Francisco Irigoyen, Escorial entrou na pista gramada principal para, com autorização especial, conhecer a raia do páreo. O cavalo foi levado para a partida de 1.400 metros. Juntos estávamos, na cerca externa, o veterinário chileno, Bertrand J. Kauffmann e eu. O trabalho foi muito bom, apesar do Escorial ter saído violentamente para fora no meio da reta, e logo acertado pelo jóquei, por ter–se assustado com um caminhão que fazia manobras no pião do prado. Don Rodolfo não era contra os aprendizes, mas achava que da inexperiência decorriam curvas mal feitas, desconhecimento do ritmo ideal para aquele páreo, entradas em espaços sem saídas, uso inconveniente do chicote, e outras práticas naturais àqueles que estão ainda em fase de aprendizado, que anulam com largueza os quilos de vantagem. Não era uma afirmação categórica, mas uma observação técnica e sensata.
2 – “Galopar sem antes aquecer, esquentar, é procurar distensão muscular".
O cavalo de corridas, nos hipódromos e/ou centros de treinamento, ficam confinados em seus boxes cerca de 21 horas a cada 24. Nos hipódromos a situação é melhor, pois as cocheiras da Gávea e de Cidade Jardim ficam atrás da grande curva, a de chegadas, e os cavalos têm normalmente que caminhar mais de um quilômetro para ir e outro tanto para voltar. Com duas caminhadas, uma aquecendo a musculatura e outra desacelerando a respiração após o trabalho de raia, e mais a natural espera pelo jóquei e o exercício na pista, chega–se à cerca de uma hora e meia ou duas horas. Com mais uma caminhada à tarde que normalmente não excede 30 minutos, chega–se com boa vontade a três horas diárias fora dos boxes, ficando, pois, presos 21 horas a cada dia. A necessidade dessas caminhadas é fundamental para aquecimento da musculatura e depois para o natural relaxamento dela. De uns tempos para cá, tanto na Gávea como em Cidade Jardim, sob inconsistentes motivos, nos dias de trabalhos pela manhã, a entrada na pista é na altura da seta dos 1.000 metros finais. Em outras palavras, os cavalos saem dos boxes e entram na pista para trabalhar andando menos de 10 minutos. No Cristal, a Vila Hípica fica ao lado da curva da direita, no Tarumã ao longo da reta oposta. As necessárias caminhadas foram colocadas fora do esquema dos exercícios. Nos centros de treinamento, as cocheiras ficam próximas às pistas (as únicas exceções que eu conheço para resolver esse problema são as adotadas pelo CTs Estrela e Energia e Vale do Itajara, que dispõem de “andadores”, que se encarregam de aquecer as musculaturas dos animais antes deles entrarem na raia para trabalhar). Acredito que outros Centros tenham andadores, mas eu desconheço. Os treinadores de um modo geral têm muita pressa. No momento da abertura das raias, na Gávea 5 horas da manhã e em Cidade Jardim às 7, é grande o número de animais já aguardando. Nos centros de treinamento, mesmo quando a temperatura está muito baixa e ainda escuro, sem quaisquer problemas de horários, começa tudo às 5 horas da madrugada, mesmo que esteja escuro e com neblina. É claro que há exceções e variações, acredito até que, na falta de "andadores”, os cavalos caminhem na raia uma volta completa a passo, para esquentar. É o que eu até acredito, mas certamente se isso ocorre é exceção. Dores musculares e distensões são comuns, são habituais. Os veterinários agradecem.
3 – “Em muitos casos, o cronômetro é a muleta do incompetente”.
Na Europa, de um modo geral, não é usual a pesagem sistemática dos cavalos de corrida. O cronômetro também não é peça fundamental, serve de parâmetro, mas quando um treinador quer saber se o seu cavalo está em condições de ser bem inscrito, ele faz com que ele trabalhe de parelha com um outro, já com vitória ou pelo menos vindo de uma boa colocação, assim aferindo as possibilidades. A base do treinamento é muita movimentação, muitos galopes, e acelerações quando da proximidade da inscrição. O olho do treinador é constante, pois sem usar com freqüência as balanças e os cronômetros, é a sensibilidade, acoplada a uma fiscalização atenta, que vai decidir. Nos Estados Unidos a prática é diferente. Não sei dizer quanto à fiscalização freqüente dos pesos, ou do uso habitual dos "andadores”, mas a técnica habitual consiste em partidas semanais mais curtas e fortes, de olho nos cronômetros, que são entendidos como o fator preponderante e necessário. É claro que há animais que se adaptam bem a esse tipo de treinamento, de galopes diários e partidas semanais curtas e fortes. Em termos de treinadores de qualidades técnicas medianas, um treinador europeu mede a chance de seu cavalo comparativamente, o norte–americano pelo que diz o cronômetro. Na Europa, galopes visando abrir o fôlego e de quando em quando uma partida curta sem exageros só para melhorar a aceleração, nos Estados Unidos uma repetição semanal sistemática de fortes partidas curtas, até que o tempo seja considerado satisfatório.
É uma questão de conceitos, de culturas turfísticas. Na Europa, o tipo físico e principalmente o pedigree ditam a priori uma meta para a estréia, havendo assim animais estreando em 1.000 metros, em 1.600, em 2.000 ou mesmo mais. Até evidência em contrário, o pedigree norteia as inscrições (até que, eventualmente, dos resultados surgirão novos enfoques). Nos Estados Unidos, a impressão que dá é um entendimento curioso, primeiro o cavalo tem que ganhar em 1.200 metros para depois ir a 1.400 metros, e assim por diante. Estrear em 2.000 metros é loucura, se o cavalo não consegue ganhar em 1.200 metros, como vai ganhar em 2.000 metros?
É mesmo uma questão de cultura turfística. Quando um bom animal brasileiro é exportado para os Estados Unidos, e apesar dos pelos menos seis meses de adaptação, ele fracassa, eu procuro saber como ele era trabalhado no Brasil e como foi nos Estados Unidos. E para minha surpresa, animais de alto padrão como Belle Fleur e Zardana, por exemplo, apesar das informações quanto aos tipos de treinamento a que eram submetidas e com sucesso no Brasil, foram preparadas para correr (e fracassar) em sistema de partidas curtas e fortes semanalmente, ao contrário do que foi informado aos interessados quando das exportações.
Não é necessário ir longe demais, a supercampeã Riboletta, que chegou a ser a melhor égua do ano nos Estados Unidos, foi exportada com todas as informações, que foram desprezadas, e ela fracassou várias vezes. Saindo das mãos de um treinador dito de primeira linha, e passando para um treinador chileno lá radicado, Riboletta teve mudado radicalmente o seu sistema de treinamento, passou à moda racional e transformou–se na melhor égua do ano. O treinador chileno, de uma família de treinadores, experiente, que já havia se consagrado treinando oficiosamente a campeã Bayakoa nos Estados Unidos, simplesmente usou a cabeça, mais galopes e menos violência.
A assistência diária aos animais em treinamento nos Estados Unidos é excelente; os cuidados diários, em média, não poderiam ser melhores. A criação norte–americana a não ser quando alguns usam anabolizantes, é cercada da melhor tecnologia, laboratórios modernos, controle e sistemática análise das rações, tudo ótimo. Com um fortíssimo suporte financeiro, entendendo que os potros são mercadorias para “business”, isso aliado a um espírito competitivo, faz com que os verdadeiros “donos” do mercado internacional, os árabes, lá estejam anualmente. Os árabes de há muito perceberam que há muita qualidade em meio a mais de 37.000 potros criados anualmente nos Estados Unidos. Os árabes comparecem nos principais leilões de “yearlings”, e compram muitos dos pseudomelhores, enfocando a pequena minoria de excelentes pedigrees e tipos físicos. É comprar, colocar em seus aviões, e logo levá–los para seus haras na Irlanda, na Inglaterra, para terminar a criação.
Longe do esquema “triturante” dos hipódromos, esses potros, comprados “yearlings” nos Estados Unidos, lá nascidos e muito bem criados, terminam a fase de criação e iniciam–se nos treinamentos de forma adequada, e muitos deles mostram–se superiores, clássicos, elementos melhoradores. Os árabes são muito ricos e nada bobos, compram o que lhes interessa, e tiram de lá, permitindo uma evolução compatível com o poderio pedigrístico e locomotor dos excelentes potros norte–americanos, pinçados por técnicos da melhor qualidade nos leilões especiais da “elite eqüina”. Esses potros norte–americanos se juntam aos também excelentes potros criados pelos próprios haras na Europa e ainda aos “yearlings” comprados fora dos Estados Unidos. É assim que os árabes dominam o verdadeiro turfe mundial.
por Milton Lodi