Estou aqui em Dubai, escrevendo esse texto, para passar ao leitor um pouco do que aprendi nesta minha quarta temporada no Hipódromo de Nad Al Sheba.
Pouco ainda sei, mas acredito poder fazê–los entender melhor algumas coisas do que se passa por aqui.
Desde já, digo que não pretendo polemizar com nenhuma das minhas opiniões, até mesmo porque, muito ainda tenho a aprender neste solo árabe. Apenas em resposta a muitos e–mails e telefonemas que recebo do Brasil, e de muitos comentários que leio neste site, na busca de maiores conhecimentos sobre as corridas do Dubai International Racing Carnival, resolvi escrever.
Utilizo este veículo, por considerá–lo o melhor meio de informações sobre corrida de cavalos que temos no Brasil, e ele merece todo prestígio, credibilidade e apoio.
Minha primeira experiência em Dubai, aconteceu em março de 2001, quando não existia o Carnival, e sim, apenas a Dubai World Cup. Nesta data recebi o convite do Dubai Racing Club, através do Sr. Bertrand Kauffmann, o verdadeiro descobridor de Dubai para os brasileiros, a fim de levar o potro NIKOLAYEV, vencedor em recorde do GP Piratininga, para correr o UAE Derby, com bolsa de 2 milhões de dólares.
Juntos, nesta aventura, embarcaram PITU DA GUANABARA e MR. PLEASENTFAR. Ainda assim não fomos os desbravadores: no ano anterior, FAVORI treinado no Rio pelo N.Pires, correu o páreo de sprint e foi o pioneiro.
Anos depois, Dubai idealizou o Carnival, festival de corridas que se inicia em meados de janeiro e termina no inicio de março. Para essas corridas, através de ratings, os animais são ranqueados, com um mesmo critério adotado no mundo. Aqueles que obtiverem um rating maior que 95 são convidados a participar destas corridas.
O primeiro a descobrir e enfrentar o desafio foi a equipe do Stud Estrela Energia, em 2006, com Renato Gameiro, Fabricio Borges e T.J.Pereira. Ousadia coroada com a vitória de SUSHI BAR. Pronto! A trilha estava aberta, só faltava aprendermos os atalhos.
Em 2006, a vitória de HEART ALONE, a primeira brasileira em prova de grupo, conquista essa até hoje comentada por aqui, levou o nome do Brasil às manchetes por todo o mundo. Tenho recortes de jornais de 5 países diferentes, enaltecendo o êxito e o nosso país, até então, desconhecido em termos de corrida de cavalos.
Lembro–me, neste ano, de ter ganho uma aposta de um inglês que duvidou que Ilha da Vitoria, Pico Central e Leroisdesanimaux eram brasileiros.
Em 2007, IMPERIALISTA e IMPOSSIBLE SKI, fazendo uma dobradinha em uma prova de Grupo 3, mais uma fez levaram o Brasil a manchetes pelo mundo.
Esse ano não foi diferente, HAPPY BOY e GLÓRIA DE CAMPEAO, " BRAZILIAN’S NIGHT AGAIN" pude ler nos destaques dos jornais, mais uma dobradinha brasileira em prova de Grupo 3.
Junte–se a esses, ATTILIUS, NELORE PORÃ, GREETINGS, EXPRESS WAY, INDOCHINE, PUNCH PUNCH, NEW FREEDOM, ALIYSA, HAPPY RUNNER, ZORIN, EVIL KNIEVEL e outros que obtiveram expressivos resultados. Estou, por enquanto, deixando de lado SIPHON, SANDPIT, HARD BUCK e LUNDY’S LIABILITY.
E claro que muitos decepcionaram, vários fracassos com ou sem justificativa e queda de rendimento, mas as glórias foram alcançadas, e o Velho Mundo hoje sabe que criamos cavalos de corrida no Brasil !!! E que eles podem ser competitivos, sim !!!
O mesmo inglês que outrora perdeu a aposta, hoje é capaz, de cabeça, fornecer uma lista com vários cavalos brasileiros !!!
Não foi à toa, que no leilão de produtos do ano passado, mais de 30 potros foram vendidos, no Brasil, para agentes que descobriram o cavalo brasileiro em Dubai.
Fico um pouco triste, quando vejo alguns leitores deste site, darem mais importância às derrotas que às vitórias; em questionar a qualidade de um cavalo, de acordo com o seu resultado, em uma ou duas corridas, sem procurar saber o porquê do fracasso. E aí, dou os parabéns para alguns, como o Renato Gameiro, João Daniel e outros que procuram se basear em conhecimentos para julgar.
O primeiro ponto para estes fracassos acontecerem é, sem dúvida nenhuma, a grama. Vejam, que isso é uma afirmação !! Um dado vai deixar isso bem claro, o recorde para 1.200m na areia (reta) é de 1.08.10, enquanto o recorde para os 1.200m na grama (também em linha reta) é de 1.10.82. Exatamente ao contrário do que acontece no Brasil !!! A raia de areia é bem mais firme e rápida do que a de grama, o que a torna muito melhor para o cavalo brasileiro, mais fácil para adaptação. E outro ponto, a areia de Dubai favorece o cavalo ligeiro, enquanto na grama é quase impossível se ganhar correndo de frente. Revejam a relação dos bons resultados acima: quase todos na areia e quase todos correndo de frente. Até mesmo os cavalos tipicamente gramáticos, se deram melhor na areia, como SETEMBRO CHOVE, SUSHI–BAR, GLÓRIA DE CAMPEÃO, HAPPY RUNNER, BANDIDO SECRETO, NEW FREEDOM etc...
Aí o leitor me pergunta: e o HARD BUCK, a INDOCHINE, o EXPRESS WAY, o EVEL KNIEVEL e o PUNCH PUNCH que ganharam na grama? É muito fácil explicar. TODOS passaram por um período de adaptação em algum outro lugar, com uma raia parecida com a daqui. INDOCHINE e PUNCH PUNCH vieram da França para Dubai, e lá, a grama é parecida com a daqui. EXPRESS WAY e EVIL KNIEVEL estiveram ou na África do Sul ou na Europa, não tenho certeza !! E o craque HARD BUCK, esqueceu–se um leitor, quando veio correr direto do Brasil entrou nono (UAE Derby 2003), e só mostrou seu poderio um ano depois (2° na Dubai Sheema Classic (gr.I), após vencer um grupo I nos EUA.
Não se assustem se após mais um fracasso do L’AMICO STEVE na grama, ele aparecer inscrito para correr na areia !!
Outros fatores de queda de rendimento são muito bem esclarecidos pelo Gameiro e pelo João Daniel, como a adaptação, que, por exemplo, neste ano acometeu a OLYMPIC GLORY, mas que a meu ver não é tão comum quanto parece. Outro motivo é a enturmação. No início do festival, as corridas os páreos são mais fracos, encorpando–se com o andamento do Carnival. Esse é o caso da OLYMPIC CITY – em sua segunda apresentação, entraram 4 novas adversárias, todas com o rating bem superiores ao dela, portanto, os resultados foram normais, segundo na estréia e sexto na seguinte. O fato de ter corrido na frente também influenciou. Como disse, na grama, de ponta, é quase impossível.
Também a mudança de treinamento, não digo entre brasileiros, pois a forma de treinar entre nós não é tão diferente, mas quando nossos cavalos passam para treinadores locais, a mudança é drástica e o tempo muito curto para adaptá–los. Acredito que foi o que ocorreu com HEART ALONE, ATTILIUS, IMPERIALISTA e outros.
Saibam que pelo quarto ano os cavalos brasileiros chegam com os menores ratings, saem como azarões e pouco se esperam deles, mas aos poucos estamos mudando a história. Antes só os EUA conheciam o Brasil, agora Europa, Macau, Hong Kong, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, Japão e outros já nos acompanham, sabem que existimos e, aos poucos, chegaremos lá.
Bem, creio já estar cansando os leitores (achei que só o Gameiro se estendia), mas espero ter contribuído para saberem um pouco mais sobre Dubai.
Continuem torcendo pelos cavalos brasileiros, cada colocação aqui é importante para nós.
por Antonio Luiz Cintra, "Tolú", treinador radicado em São Paulo