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Fevereiro | 2008
Dubai e as 1001 noites, por Victor Corrêa 08/02/2008 - 00h03min
Venho acompanhando no "Espaço do Leitor", seção que agita o Raia Leve a todo o momento, duas polêmicas – até certo ponto saudáveis e necessárias – em andamento. E tais acabaram se intercalando num ponto comum: os craques e os resultados obtidos pelo Brasil em Dubai. No sábado, 16 de fevereiro, completo 17 anos. Caro leitor, não estou divulgando a data com o intuito de receber algum presente (do jeito que as coisas vão, é capaz de alguém resolver me dar uma camiseta do Coritiba. Então, para evitar tamanho constrangimento, deixa como está que é melhor). Digo isso para chegar à seguinte afirmação: "in loco", no talo mesmo, não tive a oportunidade de acompanhar a trajetória de grandes animais, idolatrados na história de nossa criação. Tive acesso, é claro, a depoimentos, notícias, fotos e reproduções em VHS, entre outros arquivos, de campeões como Narvik, Farwell, Immensity, e por aí vai. Não vi Itajara, mas vi Néleo. Cavalo dono de um enorme coração, que ganhou um Ipiranga – de ponta a ponta – com seus locomotores totalmente comprometidos, e em cinco saídas tornou–se recordista e líder de geração. Para mim, um craque com cê maiúsculo que nunca ficou devendo nada a ninguém. Porém, não foi o citado filho de Bright Again, ganhador de G1 e sire nos dias de hoje, meu craque mor. E sim um cavalo com apenas uma vitória no RJ, mas que me trouxe grandes alegrias aqui em Curitiba, ganhando três carreiras a "fio", e detalhe, com um enorme parafuso no sesamóideo de sua mão esquerda. Alcançado por um adversário durante o percurso daquela que viria a ser sua última apresentação, acabou sendo sacrificado dentro da raia. Morreu lutando, como um nobre guerreiro numa saga épica. Aos interessados, seu nome era Nellis. E é aí que está a grande graça, a vitalidade do turfe, que não permite que o “Esporte dos Reis” padeça em solo pátrio, ainda que seja tão judiado e tenha tão pouco espaço na grande mídia. Para se definir um craque, não existe parâmetro. É algo particular, que pertence a cada um, para, assim, elegermos nossos prediletos. E indo de encontro a questão de Dubai, o que se diz respeito à qualidade dos animais muitas vezes é confundida e tratada de forma errada. Será que Dono da Raia não encontrou o caminho das pedras nos Emirados Árabes por falta de qualidade, como é infelizmente levantado em alguns debates? Se esse foi o problema para um ganhador das duas mais importantes carreiras do nosso calendário, o que diríamos, então, a respeito de Attilius? Um valente filho de Dodge que se aventurou em Nad Al Sheba sem sequer uma vitória clássica em sua bagagem, e sem dar muita satisfação, venceu logo em sua primeira saída em solo árabe no ano de 2006. Mas espera aí. O Dono da Raia não correu lá em Dubai "na mão" do Tolú, que o conhecia melhor do que ninguém. Já o Attilius, tinha por trás de sua performance vitoriosa uma forte e esmerada equipe que sabia como fazê–lo render o máximo. Após vencer, Attilius foi negociado, e dali pra frente nunca mais mostrou seu poder de fogo. Observação: sob os interesses de seu novo proprietário o até então velocista, chegou a correr provas em 2.200 metros, na grama, em sentido horário. Será que a história não começa a tomar outros rumos a partir daí? Nossa criação é forte e competente. O bom cavalo daqui, tende a conseguir bons resultados em qualquer canto do mundo. Mesmo com pouca experiência no turfe, a percepção de tal fato é nítida para mim. Com o paralelo entre Dono da Raia e Attilius, a minha pretensão foi traçar a seguinte linha de raciocínio: as drásticas alterações no treinamento sofridas pelos animais brasileiros após serem negociados, seja com investidores de Dubai, seja com americanos (vide Riboletta, salva pelo treinador Eduardo Inda, quando a exímia corredora encontrava–se em pura decadência), seja aonde for, acabam comprometendo, em muitos casos, a futura campanha. Bain Douche, L’Amico Steve, Alcomo e alguns outros acabaram fracassando em suas aparições em Dubai, mesmo sob a responsabilidade de treinadores e jóqueis brasileiros que conhecem nosso sistema e costumes de treinamento. E então, por que fracassaram? Ótimos animais, sem surpresas no seu preparo, sem muitas razões para decepcionar. Costumo pensar que, seja no Brasil ou no Japão, cada cavalo é um ser único com seus limites e predileções. Independente do poderio locomotor, em determinados ambientes e regiões, seu desempenho pode cair sem aviso algum. O cavalo não é uma máquina regulável e que se ajusta ao nosso gosto. Assim como qualquer ser vivo, o puro–sangue inglês apresenta sinais que demonstram aprovação (ou não) a determinados ambientes e tipos de ações. Com Siphon e Sandpit, em 1997, o turfe brasileiro viu que Nad Al Sheba não ficava tão longe. Nossos melhores corredores, ano após ano, então, começaram a ser convidados para participar diretamente das provas da World Cup. A viagem exaustiva (escalas e mais escalas, horas e mais horas), somada ao curto período que os cavalos tinham para, ao mesmo tempo, recuperar as energias e se preparar para o confronto contra os melhores do planeta, minavam as possibilidades de um bom desempenho. Surge o projeto do Carnival, oferecendo mais tempo para preparação e carreiras mais acessíveis. Sushi–Bar confirma existir ali em Dubai uma grande e possível válvula de escape, sob o aspecto financeiro, para nossos proprietários e animais. Posteriormente, Heart Alone, Imperialista, Punch–Punch, Eu Também e a recente conquista de Happy Boy, trataram de afirmar a qualidade incontestável de nossos animais. E são estes paradigmas que tratam de fazer o universo dos cavalos de corrida algo mágico e apaixonante. É aprender e evoluir. E no caso do turfe brasileiro, tentar sobreviver a cada dia. A complexidade do turfe é fascinante, e faz com que, uma vez dentro da atividade, nunca mais queiramos abandoná–la. E para os leigos, deixo aqui minha única impressão rotulada sobre o esporte até o momento, pelo pouco que vi e pelo muito que eu ainda tenho que aprender. No turfe, existe uma única regra a ser seguida, à risca e sem contestação: no rules.
por Victor Corrêa |

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