A banalização do termo craque
Acabo de assistir a meu segundo Super Bowl e pude claramente discernir como um craque pode sucumbir em relação a um elemento muito determinado, mas que nunca será visto como um craque.
Por isto a opinião de alguns profissionais é sempre importante para emoldurar seu conceito final.
Foram raros os momentos que discordei de uma opinião de Federico Tesio. Mas existe uma que confesso nunca ter coadunado em gênero e número. Tesio acreditava que a opinião do jóquei só era válida, quando emitida antes que este fosse para a repesagem, preferencialmente ainda no dorso de seu pupilo. Para o grande criador italiano, o calor da carreira, fazia com que os profissionais não criassem justificativas, justificativas estas que surgiriam após um bom e relaxante banho.
Lester Piggott uma vez me disse que criava seus comentários antes mesmo da carreira ser disputada. Um para cada possibilidade de performance, pois, segundo ele, cansado após a contenda, você acaba dizendo o que não deve. Como o fez com o champion 2yo Monteverdi, após o Greenham Stakes, que lhe custou a perda do lucrativo contrato com Sangster.
Não seria Lester um também o tão aludido craque? O simples fato de ser reconhecido pelo nome de batismo, numa atividade em que os sobrenomes é que diferenciam as pessoas, fizeram deste jóquei um marco na atividade. Mas o exagero no uso dos rótulos às vezes amesquinha, ou melhor, populariza por demais aquilo que deveria ser um must e acaba se tornando em uma redundância.
Não tanto ao mar, não tanto ao vento, já dizia minha avó Adelina. Voltando ao que disse no início, eu, como analista, prefiro ver a carreira e ouvir a opinião dos profissionais 24 horas depois e preferencialmente à frente do vídeo da mesma. Certo que de banho tomado e com uma noite bem dormida, grandes justificativas sempre surgirão, pois, esta é a natureza humana. Mas cabe a você ter o conhecimento suficiente para discernir o que é realidade e o que é fantasia.
Pois bem, quatro potrancas me impressionaram muito no início desta temporada. Duas delas as consegui adquirir para um proprietário norte–americano. Persian Honey – uma Romarin (tem gente que não que ver suas fêmeas nem pintadas, o que discordo) –, de criação do Ponta Porã, estreou no Tarumã com sucesso e trazida para São Paulo deu um vareio sem mexer um músculo sequer. A segunda colocada que chegou, se não me engano, a seis corpos, estava muito falada e depois da carreira, antes de tomar uma iniciativa, conversei com o Nilson Lima e ele me disse confirmou, realmente, tratar–se de artigo de fé. Lembrei–me imediatamente de alguns anos antes quando fui examinar Filó na cocheira do Haras São Luiz em Cidade Jardim, e o Lima me chamou a um canto e disse. Vou lhe mostrar uma, que é também pequena, ainda não provou sua qualidade, mas que vai ser a melhor três anos de sua geração. Ele estava certo: tratava–se de High Court.
Adquiri a Persian Honey e a trouxe para os Estados Unidos, juntamente com Sierra Nostra, outra cuja estréia no Tarumã me deixou perplexo. A potranca que o Lima garantira–me como produto de fé, chama–se Eletro Nuclear.
Estive associado profissionalmente a ganhadores do Pellegrini e do 25 de Mayo, para mim as duas mais importantes carreiras de San Isidro. Logo sei quão difícil é se ganhar em solo platino. Mas devo admitir que mais difícil do que ganhar estas duas milhas e meia é, seguramente, triunfar no quilômetro internacional do GP Félix de Alzaga Unzué (G1). E a filha de Dodge quase o faz. Moreira foi sublime. Ela inigualável. Infelizmente outra grande competidora apareceu naquela hora em que o disco de chegada não chega. Dei a mim aquelas famosas 24 horas, para a euforia não tomar conta de minha opinião, e semanas depois de refletir tenho apenas uma coisa a dizer: parabéns à coragem e o desprendimento de Marcos Simon e de sua equipe, que quase trazem para o Brasil um título inédito.
Seria Eletro Nuclear uma craque? Talvez. Poderíamos compará–la a Immensity, Revless, Donética, Emerald Hill, Garbosa Bruleur e tantas outras deste seleto naipe? Um pouco cedo. Mas independentemente de se querer ou não banalizar o termo craque, diria que esta potranca é especial. E para mim isto é o importante.
Estive durante todos estes anos nas circunvizinhanças de elementos especiais, muitos cantados em verso e prosa como craques absolutos, e por isso sei separar o joio do trigo. Ou pelo menos acredito saber. O cavalo especial, aquele que se pode se chamar de no mínimo diferenciado, não aparece todo o dia. Mas longe de ser um produto raro. Discutir sobre eles é sempre salutar, pois a lembrança e a manutenção dos nomes dos mesmos na mídia direcionada, fazem ver que esta atividade mexe com o sentimento. Banalizar o termo craque perde sua importância ante a necessidade de que as pessoas discutam e possam emitir suas opiniões sobre uma atividade de há muito abandonada pela mídia de massa.
Para se ter sucesso no turfe é necessário amá–lo, discuti–lo, dissecá–lo mesmo com o absurdo de se vislumbrar carros nas pistas de corrida.
por Renato Gameiro