O Bairrismo
O bom escritor e o bom leitor, imediatamente estabelecem uma capacidade de transladar–se do mundo em que vivem ao mundo onde se estabelece a história. Não sei se sou bom escritor, mas certamente me considero um bom leitor e muitas vezes sinto–me fora da realidade vivendo aquilo que estou lendo. Você, nestas “viagens” conhece diversos tipos de mundo; o do conhecimento, o da fantasia, o do terror, o da incompreensão, enfim aquele que sua mente se predispõe a assumir. Qualquer que seja o mundo escolhido, ele será apenas acolhido se você se entregar de corpo e alma, pois, é tão somente a intensidade de sua energia que erigirá os pilares desta fictícia realidade.
Muitas vezes foi comentado – por aqueles que me lêem – que tenho a capacidade de iniciar em Alpha, chegando a um inesperado Gama sem nunca ter passado pelo esperado Beta. Pois bem, esta característica que em mim parece ser própria pode na realidade ser boa ou má, principalmente em se tratando de coisas tão pé no chão – ou melhor tão cascos no chão – como o mercado de corrida de cavalos.
Outrossim, dentro das divagações perdidas que me dou o direito de “viajar” existem algumas que me recuso em mergulhar. O do racismo, o da política, o do radicalismo e, principalmente, o do bairrismo. Sobre o último diria, que embora tenha nascido e vivido grande parte de minha vida adulta no Rio de Janeiro e com isto adquirido certos trejeitos e cacoetes de carioca, me considero um cidadão do mundo. Brinco com certas características de outras civilizações, mas respeito–as todas. Pois bem, porque estou dando tantas voltas? Irei ao ponto.
Outro dia li um artigo do articulista Zig, elucidativo como a grande maioria de seus o são. Nele, ele remarca a pouca compatibilidade entre os presidentes de nossos dois principais hipódromos e comenta a seguir sobre a impressionante união existente entre os três mais importantes hipódromos de nossos “hermanos” argentinos. Evidentemente que a situação distinta que ora vivem os turfes de Argentina e Brasil deve ser uma reflexão da forma díspar com o que a política turfística é tratada por dois paises vizinhos, mas tão distantes em idéias e ações.
O bairrismo só pode ser visto como salutar quando de forma cômica. Assim mesmo com muitas reservas. Na Inglaterra, toda vez que em uma peça um de seus protagonistas cometia uma gafe, imediatamente outro, naturalmente representado um britânico, comentava humoradamente: “desculpem, mas trata–se de um francês”. O mesmo pode ser visto na Espanha de madrilenos se dirigindo a bascos. Descobri o mesmo na Austrália, inserido em uma pequena anedota.
Três australianos compraram seus tickets para o trem que os levaria ao estádio. Notaram que na fila do lado, três neozelandeses haviam comprado apenas um. “O que fariam para viajar?” Perguntaram os aussis. “Observem!”, responderam os kiwis. Logo que entraram no trem os neozelandeses correram para um banheiro e lá se espremeram. Minutos depois o inspetor foi recolhendo os tickets. Ao chegar ao lavatório, bateu a sua porta e bramiu, “ticket, por favor”. Uma mão surgiu da porta entreaberta com o ticket. O inspetor o recolheu e continuou seu trabalho com os demais passageiros.
Os australianos gostaram da idéia e na volta a Sydney fizeram o mesmo, compraram apenas um ticket mas encafifaram–se com o fato dos kiwis, não terem comprado ticket algum. Voltaram a perguntar. “Como farão para viajar sem ticket algum?” A resposta foi imediata, “Observem!”.
No trem novamente os três neozelandês correram para o banheiro e lá se espremeram. Os australianos fizeram o mesmo no lavatório oposto. Porém, antes que o inspetor desse as caras, um kiwi saiu de seu banheiro e, batendo a porta do lavatório dos australianos, pediu de forma solene, “tickets, por favor!”
Não preciso ressaltar que o turfe australiano é hoje bem mais organizado e forte do que o neozelandês, pois, o trabalho em longo prazo sempre suplantará a malicia. Vejo esta mesma conduta maliciosa do carioca em relação ao paulista em todos os setores da vida urbana. É o lado humorístico do bairrismo, outrossim, não preciso dizer qual turfe se mostra com mais futuro entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, tendo como base as atuais administrações.
De Alpha para Gama, desta vez dando uma passadinha em Beta diria: unidos poucos podem ser vencidos; separados, apenas aqueles que encararem a atividade hípica como a mais importante dentro de um clube, que de há muito deveria estar agindo qual uma empresa.
A ficha já caiu em São Paulo.
por Renato Gameiro