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Janeiro | 2008

Trocas de Coberturas, por Milton Lodi
08/01/2008 - 13h15min

A grosso modo, um garanhão de ponta, aprovado, representa metade do haras, ficando a outra metade para as éguas, as pastagens, o manuseio, etc, etc. Essa afirmação é no sentido de que o prestígio do tal garanhão desperta o interesse dos eventuais compradores, melhora os preços, promove a entrada de dinheiro no haras com venda de coberturas.

Há mais de cem anos que o turfe vem sendo praticado no mundo, e naturalmente os criadores se utilizam dos garanhões aos quais normalmente tinham acesso. Cavalos e éguas não viajavam de avião, não existiam super–estradas de rodagem nem trens adequados ao transporte normal dos puros–sangues de corridas.

TESIO era dos poucos criadores do mundo a mandar éguas de um país para outro, para que tivessem acesso aos melhores, que eram os garanhões ingleses. Só para lembrar, em 1910, TESIO mandou para a Inglaterra uma égua para o notável SPEARMINT, e veio a nascer na Itália a fantástica FAUSTA, em 1911, que, em 1914, ganhou o Oaks e o Derby Italiano e que veio a ser mãe de três ganhadores do Derby Italiano. Vale também lembrar que os potros do Haras Maranguape, nascidos e criados em Pernambuco, vinham para o Rio de Janeiro de navio. Isso desde os tempos de 1930, quando MOSSORÓ ganhou o primeiro Grande Prêmio Brasil de 1933, defendendo as cores do seu haras, azul e ouro em listas horizontais, de Frederico J. Lundgren. Azul e ouro por serem as cores da bandeira da Suécia, terra da família Lundgren.

As criações paulista, paranaense e gaúcha formavam núcleos distintos, separados por grandes distâncias. No Estado mais rico, São Paulo, instalaram–se muitos haras, com a melhor técnica disponível, com cavalos e éguas das melhores possíveis procedências. No Paraná e no Rio Grande do Sul, em função de solos privilegiados e investimentos, a criação floresceu.

Com o advento dos aviões–cargueiros, de caminhões modernos e adequados circulando em estradas de asfalto, enfim, em função do progresso, a circulação dos animais foi sendo cada vez mais possível e intensificada.

Por volta de 1945 ou 1950, os potros que o meu pai comprava do Haras Bela Esperança, Campinas, vinham de trem para o Rio, e tinham que enfrentar uma baldeação, pois os trens do interior trafegavam em bitolas estreitas, menores daquela dos trens interestaduais. Os primeiros aviões–cargueiros não tinham pressurização, e havia animais que ficavam indóceis durante os vôos, e se as coisas se complicassem lá em cima, a ordem do comandante do avião era não arriscar, e sacrificar o indócil.

JOCOSA, após ganhar o Grande Prêmio São Paulo, voltou para o Rio de avião. Ela era grande, forte, e muito mansa, mas àquela época não havia "containers" como hoje, os animais viajavam em acomodações improvisadas, e JOCOSA, por algum motivo, embraveceu. O comandante resolveu sacrificá–la e isso teria acontecido se o treinador Claudemiro Pereira, que viajava com a égua, não o tivesse impedido. Foi por pouco, pois um animal de meia tonelada, forte e indócil, apresentava mesmo um risco.

Aos poucos, os criadores começaram, embora timidamente, a se utilizar das coberturas de fora.

Hoje em dia, o "shuttle" veio para ficar. Mas a importação de garanhões para cobrirem em uma temporada não é prática recente. Um dos pioneiros, se não o primeiro, foi Roberto Grimaldi Seabra, do Haras Guanabara. É uma história interessante.

Em 1938, OLEANDER na Alemanha e ORTELLO na Itália, dominavam em seus países. Os proprietários deles entenderam de fazer uma troca de coberturas. E assim a alemã ARABELLA, filha de WALLENSTEIN (pai de dois ganhadores do Derby alemão) foi para a Itália, para o ORTELLO. Em contra–partida, OLEANDER recebeu na Alemanha a égua OSTANA, filha de HAVRESAC II.

Assim, em 1940, nasceu na Itália um filho de OLEANDER e OSTANA, que recebeu o nome de ORSENIGO e veio a ser o ganhador do Derby Italiano de 1943.

Por outro lado, também em 1940, nasceu na Alemanha um filho de ORTELLO na ARABELLA, que foi chamado de ALLGAU e ganhou o Derby Alemão. Troca bem feita, de pedigrées compatíveis, adequados, e que resultou no sucesso das duas partes, pois no mesmo ano, ganharam os respectivos Derbies.

Com a importação temporária de ORSENIGO por três anos, o Haras Guanabara produziu elementos de muita classe, como ESCORIAL, LOHENGRIN e EMOCION, dentre outros maravilhosos descendentes.

Mandar éguas para serem cobertas fora do haras, tanto no âmbito nacional como no internacional, na prática representa um ônus, mas de um modo geral resulta em melhoria, em sucesso, na ampliação das possibilidades de padrão melhor, desde que, naturalmente, sejam escolhidos garanhões de classe e adequados.

por Milton Lodi



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