Eu tinha uns 16 anos de idade e fui passar alguns dias em São Paulo, na casa de um amigo do meu pai. Ele tinha um pequeno haras em Arujá, cidade perto de São Paulo, o Haras Dark Prince. Quando voltei para o Rio, eu e o meu pai retornamos a passear a cavalo, eu em um marchador e ele em uma linda mula, bem orelhuda, grande, forte, também de marcha. Os dois animais ficavam alojados no Clube de Regatas do Flamengo, ao lado do Hipódromo da Gávea, onde funcionava um pequeno centro hípico. Passeávamos pela Gávea e Leblon, pelas ruas do Jardim Botânico, íamos até a Sociedade Hípica Brasileira, às margens da Lagoa, era muito bom.
Naquela época, aqueles bairros eram tranqüilos, pouco movimento, era comum cavalos da Hípica passearem nas ruas, sem quaisquer perigos.
A mula, de nome VENTANIA, fazia sucesso por onde passava, e tudo ia muito bem até que um dia a VENTANIA escorregou no asfalto, o selim rodou, e o meu pai caiu no chão, batendo fortemente com um joelho no asfalto. Nada grave, mas o suficiente para a interrupção, pelo menos por algum tempo, dos agradáveis passeios.
O amigo paulista do meu pai, soube do acidente, e disse que ele estava precisando de uma boa mula para andar na fazenda, e ofereceu em troca da mula, uma éguinha preta, pura por cruza, que viera de canchas retas do interior do Rio Grande do Sul e ganhara umas corridinhas em Cidade Jardim. Era pequena, mansa, esperta, bem veloz, sã e a única ressalva era que a NEGRA MARIA não era para o meu pai, mas para mim. E assim um dia eu fui às cocheiras do treinador Claudemiro Pereira, no Hipódromo da Gávea, conhecer a minha NEGRA MARIA, o primeiro animal de corridas da minha vida. A éguinha não desapontou, ganhou na Gávea e também no Hipódromo de Petrópolis. É claro que ela corria em nome do meu pai, eu era um estudante e menor de idade, ele pagava as contas e recebia os prêmios. A égua se pagava, não dava prejuízos. Mas um dia o meu pai, preocupado com a minha paixão eqüina, admitindo um eventual futuro descuido nos estudos e também pelo fato da NEGRA MARIA ter um pedigree sem quaisquer pretenções e categoria para ir para o seu recém–fundado Haras Ipiranga, mandou que eu vendesse a égua, eu poderia ficar com o dinheiro da venda, mas a égua tinha que ir embora. Foi complicado, o meu pai tinha razão, não em relação aos estudos, mas um haras pretensioso, não poderia ter uma pura por cruza misturada com éguas importadas das melhores procedências e outras nacionais de pedigrees e campanhas recomendáveis.
De vez em quando o meu pai lembrava da NEGRA MARIA, e eu dizia que estava providenciando. O Claudemiro era uma pessoa muito humana, e quando um dia eu pedi para aproveitar um caminhão–transporte que ia para o haras e nele colocasse a NEGRA MARIA, ele nem pestanejou, e ficou de bico calado. Eu telefonei para São Paulo, para o Capitão Bela Wodianer, técnico e supervisor do Haras Ipiranga, e expliquei toda a situação. E assim, eu disse ao meu pai que a égua já tinha ido embora, ele se deu por satisfeito, o Claudemiro e o Capitão mantiveram–se quietos até que eventualmente o meu pai perguntasse alguma coisa a respeito, e eles naturalmente não iriam mentir para o meu pai, mas o assunto foi aparentemente esquecido. Coberta em 1951 por MINOTAURO, NEGRA MARIA deu um potro pretinho, perfeito, ao qual eu dei o nome de AZEVICHE.
Um dia o meu pai me chamou, ele estava a par de tudo, que eu acabasse com aquilo, vendesse a égua e o potro. Mas eu consegui ir levando o caso para frente, não só porque eu era um bom filho como também ele era um excelente pai.
Um dia, no caminhão que veio do haras chegou às mãos do Claudemiro o AZEVICHE. E a novela da venda recomeçou. A bem da verdade, o meu pai cumpria o seu papel de pai zeloso, mas com um coração muito grande, ele me compreendia. AZEVICHE entrou colocado nas duas primeiras corridas, e começaram a aparecer uns interessados. E foi em uma manhã, com o meu pai voltando a falar no AZEVICHE, que surgiu um interessado. Queria comprar o potro. Eu ainda tentei segurar a situação, dizendo que a idéia era de vender só após a primeira vitória. Mas o meu pai viu que ali estava a chance dele, disse que o AZEVICHE já estava à venda, e qual seria a proposta para pagamento à vista. O homem disse. Era um valor justo. Eu interferi, disse que era pouco, o preço era maior uns vinte por cento, e o interessado disse que então não poderia comprar, ele estava com a proposta dele em dinheiro vivo, no carro estacionado na porta da cocheira, e mais não tinha. Foi quando o meu pai disse que o negócio estava fechado, o homem podia ir pegar o dinheiro. Meteu a mão no próprio bolso, me deu o equivalente aos vinte por cento. Foi assim que meu sábio pai resolveu o caso. É claro que ele tinha razão, desde o princípio ele sabia de tudo, mas de maneira inteligente, deixando que eu tivesse o gosto das coisas do turfe, e sem me ferir, resolveu tudo com paciência e sabedoria.
A NEGRA MARIA foi dada para o Haras Paraná.
Foi assim que eu me tornei proprietário de cavalos de corrida.
VENTANIA, NEGRA MARIA, AZEVICHE, boas recordações.
por Milton Lodi