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Dezembro | 2007

Uma Certa Doce Campeã, por Fábio Câmara
22/12/2007 - 16h31min

arquivo pessoal

A Honey Winner cruza absoluta no Recife

Desde bem pequeno, acompanho os cavalos. E de pequeno, os cavalos de corrida. Quando a morte não me parecia familiar, dada a minha experiência de vida, questionava–me sobre o porquê de meu pai conseguir desfazer–se de seus animais ou se estes um dia chegariam ao ocaso, já que, para mim, constituíam–se em autênticos super–heróis.

Na adolescência, acompanhava os grandes haras, que se tornaram grandes proprietários de seus próprios produtos. Via o Rosa do Sul e o Inshalla como “coisas do outro mundo”. O Malurica e o Faxina, com toda a sua tradição. Nunca estive tão certo! Dizem que o Old Friends e outros herdaram (hoje com muito mais facilidade dada à evolução das comunicações e dos meios de transporte), o poder de bem criar. Isso é um fato. Fazer bem feito é imprescindível para se ter sucesso nessa atividade.

O que será que Off The Way, Rabat, Kenético, Big Lark, Dark Brown ou La Greve têm em comum? Simplesmente, representam a plenitude para um turfista: apostar em produtos que nos serviram nas pistas, para torná–los reprodutores. Ter a perseverança do bem criar. Insistir, mesmo em caso de adversidades. E vencer!

Pois bem, vou contar–lhes mais uma história, que começará de forma já conhecida por leitores mais atentos. Depois de alguns anos afastado do turfe, resolvi adquirir um animal, de nome Honey Winner (Fort de France II e Nomage Bay, por Mo Bay). Na minha concepção, um craque, dada a minha realidade financeira. Por desconhecimento ou por sonegação de informação, tardiamente descobri que ele tinha um sério comprometimento do tendão do anterior esquerdo. Naquele claiming, vinha com folga na ponta quando parou na raia, na altura do painel. Foram meses de recuperação e a glória de 2 vitórias e 1 segundo lugar clássico em apenas 4 atuações na Madalena. Porém, após a sua última corrida (traduzida em sua segunda vitória), ele foi acometido por uma terrível laminite, que lhe ceifou a vida e, com ela, quase todas as minhas economias e esperanças. Ele seria o meu reprodutor, que daria início a algo inimaginável à época, após algumas tentativas frustradas: a constituição de um Haras PSI no Nordeste.

Como já possuía a reprodutora, Independence Now (Dodge e Faja Rio, por Rio Bravo II), precisaria, agora, adquirir uma cobertura. Égua pequena, porém robusta. Temperamental, mas muito valente, vencedora de 4 corridas na Gávea até os 5 anos, além de 4 das 7 carreiras que disputou no Nordeste, sendo que, em pelo menos 2 delas, conquistadas de maneira simplesmente espetacular, por quem tinha gana de vencer tal qual os nordestinos, seus proprietários.

Naquele tempo, o animal Oidio (Badalado e Hetelia, por Jet Seller) vencera os principais GPs do Estado. Era filho do gigante tordilho Badalado (Henri le Balafré e Nova Lima, por Sirius II), que embalava meus sonhos enquanto adolescente, preparado por Rafael Rondelli, à época, treinador de outro animal de meu pai, o potro Art Frame (Trattegio e Adecusa, por Silver). Mas voltando ao Badalado: animal de mais de 500 quilos (um assombro pra época), tordilho, craque (7 corridas, 4 vitórias e 2 segundos lugares, todos em provas de fundo e meio–fundo), filho do respeitável Henri Le Balafré. Esta, desde que financeiramente viável, seria a nossa escolha. Eis que surge a figura do grande veterinário e amigo Dr. Reinaldo de Campos, ao qual interpelamos sobre a possibilidade de conseguir uma cobertura do Badalado, o que foi feito de forma gratuita, em nome da amizade nutrida por ele a meu pai, Bartolomeu. Enviamos a égua Independence Now, que teve a prenhez confirmada apenas em novembro, dando a luz, no ano seguinte, a uma linda potranca, ainda alazã, a qual nominamos A Honey Winner, em homenagem àquele grande campeão, nosso primeiro animal, que desapareceu prematuramente vitimado pelo “aguamento”. Ela sofria de uma disenteria crônica quando recém–nascida, que só mesmo uma grande amizade, o largo desprendimento e a competência do Dr. Reinaldo foram capazes de curar. Ela foi crescendo no Haras F.M.S., em São Paulo, quando enfrentamos problemas particulares que motivaram a perda da propriedade da potranca e de sua mãe. Refeitos das adversidades, partimos para recomprar a égua e seu novo filho, também por Badalado, ao qual nominamos de Badalado Bartô, em homenagem ao meu maior incentivador e amigo. Reputo ter sido esta uma das vitórias mais comemoradas de minha vida até a presente data. Em seguida, sofremos mais um rebate, pois cerca de 4 meses depois, a égua, trazida de volta ao Recife, foi vitimada por uma linfangite e veio a óbito, deixando o potro recém–nascido para ser criado por aqueles que não foram competentes para manter sua mãe viva. Demos todo o carinho e a alimentação ao órfão. Ele acabou, com um pouco mais de 1 ano de idade e cerca de 340 quilos, adquirindo uma EPM que o levou em menos de 1 mês. Outro duro golpe... Restava–nos tentar corrigir o senão de outrora: localizar a nossa potranca. Temos aqui um lapso de tempo impreciso, em que nossas esperanças se esvaíam. Em maio de 2006, fui prestar um concurso em São Paulo, lá permanecendo por cerca de 10 dias. Conheci, pessoalmente, o Dr. Reinaldo e fui ao Haras Rosa do Sul, onde se encontravam os potros do Haras F.M.S. que iriam a leilão. Lá encontrei o Dr. Fernão e o W.Lopes, respectivamente, proprietário e treinador em Campinas do Haras F.M.S. Entre as conversas, surgiu uma que dava conta da existência de uma potranca tordilha, de porte avantajado, de bons trabalhos, mas que enfrentara contratempos em suas primeiras movimentações. Dr. Reinaldo interveio e me disse: Fábio, esta é a sua potranca! Você não se interessa em readquiri–la? Sinceramente, não acreditei, requerendo imediatamente a preferência. Eu tive de conter a minha de felicidade. Era o único produto de Independence Now vivo. A nossa única cria registrada e por um preço que eu podia pagar. Enviamo–la ao Emerson Machado em Cidade Jardim e, posteriormente, a Porto Feliz. Os custos ficaram além do que poderíamos suportar, sobretudo porque estávamos sozinhos (eu e meu pai, que onde eu estiver, sempre estará ao meu lado) e resolvemos trazê–la de volta para São Paulo. Lá chegando, Dr. Reinaldo a examinou e constatou uma fratura nos ossos sesamóides do posterior direito, graças a um temperamento explosivo, diria escoiceante e saltador. O prognóstico foi reservado: cirurgia ou cria. Neste momento, face aos altos custos envolvidos, coloquei–me a pensar se seria justo ao único produto vivo de Independence Now ser condenado ao haras, sem nem uma tentativa de honrar suas origens nas pistas? Óbvio que não! Mas poderíamos pagar? Com amigos como o Dr. Reinaldo, sim! Com todas as facilidades possíveis. E foi feito. Cerca de 1 ano e 4 meses depois, após um longo período de recuperação e uma campanha composta por 1 terceiro lugar na estréia; 1 sétimo lugar na corrida seguinte, quando foi vítima de seu nervosismo; outro terceiro lugar, após um retorno de mais 4 meses de inatividade, com grande aceleração final; veio a corrida do último sábado, 15 de dezembro. Uma eliminatória, na Madalena. Pode parecer pouco, mas, para mim, equivale a um clássico, diante das circunstâncias elencadas. Desgastamo–nos sobremaneira no paddock. Muitos coices, alguns na parede, e uma ferradura quebrada. Não apanhamos uma boa partida, mas temos coração, temos vontade de vencer, temos raça! Na entrada da reta, já éramos segundo e faltando 200 metros para o disco, nosso jóquei já comemorava. Que comemoração merecida! Para ele, J.Viana Jr., que acompanhou a potranca desde os primórdios, em São Paulo, Porto Feliz e Recife. Para o treinador, J.R.Santos, um tanto cético e desconfiado com aquela potranca que dava tanto trabalho, mas que soube poupá–la e exigi–la no momento certo. Para meu pai, que a idade fez corroer o resto de paciência que habitava em seu ser. Para meu veterinário, Dr. Reinaldo de Campos, que a acompanhou desde a concepção, nascimento, criação, negociação, cirurgia, envio para o Recife, treinamento etc.

É lisonjeiro comparar–me em emoção a um Sílvio Crespi, quando, de certa feita, concedeu uma entrevista sobre a sua La Greve. E para mim, hoje de alma lavada, cujo investimento neste negócio é o que menos conta desde que eu possa pagar, senti–me tão importante quanto o titular do Faxina, do Malurica, do Rosa do Sul, do Inshalla, do Old Friends. Ou melhor: talvez mais importante que estes citados, segundo o princípio da isonomia. E como poucos, tenho o prazer de gritar aos 4 ventos: Haras Pernambuco, criador e proprietário de A Honey Winner, animal que mais alegrias poderia dar a um ser humano. A felicidade é incomensurável. As lágrimas foram inevitáveis. Não cabia em mim por poder propiciar tais sentimentos a meu pai, a minha esposa, a minha sogra, a meu jóquei, a meu treinador, a meu veterinário, enfim, a todos os meus amigos.

Que esta seja apenas a primeira, de muitas vitórias, de alguém que acredita em sonhos possíveis e que não há de desistir jamais, criador de PSI do Nordeste, sem que nunca nos esqueçamos de que este é o verdadeiro sentido da vida: TRABALHAR PARA REALIZAR E SER FELIZ.

Obrigado a todos os que mencionei e aos que porventura esqueci, rendendo especiais congratulações ao excelente trabalho realizado pelo Dr. Reinaldo de Campos. Para ele, dedico as palmas dos que reconheciam o nosso esforço ovacionando a bela égua, e o mais sincero MUITO OBRIGADO.

por Fábio Arruda Câmara
Haras Pernambuco



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