O turfe brasileiro passou a ter vida quando Linneo de Paula Machado importou da França os moldes, a filosofia, a estrutura da essência do verdadeiro turfe. As características européias aí estão até hoje, apesar do modismo, da mania de alguns em pretender substituir o que já está consagrado por um modelo deturpado vindo dos Estados Unidos. As diferenças são muitas. Pistas de grama largas e com retas longas, contra raias de areia com retas curtas, de circuitos bem menores. Principais provas anuais em 2.400 metros contra a idéia fixa dos páreos em 6 furlongs (1.200 metros). O curioso é que, quando da minoria dos páreos em distâncias maiores que 2.000 metros, o Belmont Stakes em 2.400 metros, atrai a atenção de todo o público turfista de lá. É claro que se trata da terceira prova da tríplice–coroa, mas é uma atração ímpar.
As corridas na Europa tendem para o clacissismo, há uma procura pelas provas tradicionais, aquelas que valorizam a fé de ofício do cavalo. Do outro lado, a não ser esporadicamente, o turfe norte–americano preocupa–se com o aspecto comercial, uma vitória em alto padrão vem menos pela glória e exaltação das qualidades e mais pelo eventual maior valor em eventual venda.
O turfe argentino segue também pela cartilha européia, com o hipódromo fantástico de San Isidro dotado de uma maravilhosa pista gramada, com curvas abertas e retas de mais de 600 metros. Curiosamente, no Uruguai só há um hipódromo importante, Maroñas, apenas com raia de areia. No Chile há três hipódromos principais, sendo dois (Club Hípico e Valparaiso) só com grama e um (Hipódromo Chile) só de areia.
Tão importante quanto o piso (grama ou areia) está sua conservação, se está em condições de suportar o pisoteio dos animais sem causar problemas maiores. Não dura demais, não fofa demais, firme, mas macia.
Os Hipódromos de Palermo (Argentina) e Maroñas (Uruguai) vão, no momento, de "vento em popa", acionados pelas "maquininhas". No Brasil, aqueles que poderiam alvitrar uma solução igual ou equivalente, dormem.
Com o atual momento ruim do turfe brasileiro, no aguardo de um milagre, só nos resta procurar oferecer as melhores condições possíveis para que os nossos animais não sofram danos físicos decorrentes de maus pisos, de raias perigosas.
Uma curiosidade sobre o turfe sul–americano é a diversidade de situações e de características.
A Argentina tem dois hipódromos de primeira grandeza, e uma criação em solo privilegiado pela natureza e um atual investimento maciço na criação, tudo isso decorrente da euforia promovida pelo dinheiro oriundo das "maquininhas". No Uruguai, que tem terras do padrão das argentinas, os haras são em muito menor número e de plantéis muito inferiores, como também muito inferior é o padrão das corridas. O turfe uruguaio sofre a conseqüência da paralisação por muitos anos das corridas no país. Agora as coisas estão se reaquecendo, com o bom dinheiro que está entrando.
No Chile ocorre algo bem diferente. País de atividade francamente rural, com maravilhosas pastagens naturais que produzem potros fortes, robustos, sólidos, e que vive basicamente da importação de animais secundários da Argentina e da venda em grande escala de seus melhores potros para os Estados Unidos, onde via de regra vão ajudar a encher as vilas hípicas dos hipódromos norte–americanos.
No que diz respeito aos três citados países, é uma pena que a mentalidade dos criadores argentinos esteja sendo poluída. Em função da maléfica influência, por exemplo, de uns tempos para cá, que em muito aumentou o número de provas de grupo para os potros de 2 anos, visando melhores preços nas exportações. É claro que em muitos casos essa prática surte bom efeito, mas muitos bons valores se perdem, quebram, nas tentativas de correr cedo demais. Essa é apenas uma das conseqüências maléficas.
Enquanto isso, o Brasil turfístico parece estar se extinguindo.
por Milton Lodi