Reflexos de um GP Paraná
Já faz algum tempo que me envolvi com o turfe e, aqui em Curitiba, temporada após temporada, é aquela empolgação quando chega dezembro. Neste 2007, quase que a euforia adiantou–se para outubro, porém, o Grande Prêmio Paraná acabou mesmo sendo confirmado para o último mês do ano, mantendo a escrita do que vem sendo realizado nos tempos mais recentes.
Sem um patrocinador fixo, a diretoria encabeçada por Roberto Hasemann, que preside o clube, arregaçou as mangas e, impulsionada pela venda de um valioso terreno localizado nos fundos do Hipódromo, ora em ócio, se dispôs a realizar um evento de alto nível. Além do mais, o fluxo seguia a favor para tudo dar certo, uma vez que, em 2006, o presidente e seu time de diretores e funcionários assumiram o Jockey Club do Paraná quando este beirava a falência, e – ainda assim – conseguiram colocar a casa em ordem e fazer uma grande festa, condecorada com resultados e sucesso, no “Paranazão” daquele ano.
Desta vez, como há muito não se via, nos dias que antecederam a grande carreira, houve uma considerável mobilização por parte da mídia. Dois fatos, porém, eram explorados em relação do acontecimento. A primeira delas um premeditado e duelo entre Bico Blanco e Alucard –causando até mesmo a impressão de que somente dois animais iriam correr – na edição de número 65 da prova; e o outro, uma inusitada iniciativa na sexta–feira: um páreo organizado pelo departamento de marketing do clube, que foi disputado às 2 horas da madrugada, direcionado ao público presente num clube country, sediado no desativado 3° grupo de arquibancadas do JCP, batizado como “Grande Prêmio Balada”.
O êxito foi absoluto. Talvez, tenham comparecido mais repórteres e fotógrafos do que no dia do próprio GP Paraná. Aliado à “merchandising–race” da madruga, um ótimo MGA, no domingo, reforçado pelos 12 páreos disputados na tarde do dia 7, sexta–feira, que deram o “empurrãozinho” necessário para que 48 horas depois, o ritmo não diminuísse. Com tudo fluindo bem na parte administrativa e de marketing, a responsabilidade final caía nas mãos, ou melhor, nas patas dos cavalos, os verdadeiros protagonistas da grande festa, e dos profissionais por eles responsáveis.
Antes mesmo que os principais páreos do domingo começassem a ser corridos, os resultados vindo das pistas já arrancavam aplausos e a ovação do bom público presente no Tarumã logo nos primeiros páreos do programa. Fosse na vibrante tocada que levou Jhonny Cool nas costas numa emocionante abertura de reunião, ou nos beijos soltados para a pelouse, metros antes de vencer tranqüilamente com Lido Square, João Moreira mostrava porque lidera, com folga, a estatística de jóqueis em Cidade Jardim. Foram ao todo cinco vitórias do “Fantasma” na jornada.
O bridão que deu show, também levantou a primeira prova clássica da reunião, o GP Jael B. Barros, com Skypilot, um veloz 2 anos do Haras Santa Maria de Araras. E Moreira ainda viu a vitória no Clássico Delegação do Jockey Club de São Paulo (L) – a prova de velocidade – escapar–lhe somente nos últimos 350 metros, quando seu pilotado, o favorito River Sun, esmoreceu acentuadamente. A vitória coube a Ligeiro e Corredor, que fazendo jus ao nome, acompanhou de muito perto o ponteiro, para fugir até o disco no tiro direto. A tradição do Haras Belmont Ltda. em provas de velocidade veio à tona mais uma vez.
Na carreira seguinte, as éguas em ação no GP Moysés Lupion, travaram intensa disputa nos dois quilômetros e levantaram os presentes num final de arrepiar. Numa direção calculada ao extremo por Vagner Leal, a potranca Galheta, uma irmã materna de Fast Look, superou no último pulo a mais experiente do lote, Seduce Minister, que tentava o bicampeonato da prova. Ali, apenas um aperitivo para a milha. Isso mesmo, a milha. Se alguém pensava em já ter vivido emoções suficientes na tarde até aquele momento, estava enganado. Após ser dominado pelo bom potro Hic na altura dos últimos duzentos metros, o “cavalo de ferro” Prince Dodge reacionou junto aos paus e sagrou–se o vencedor do Clássico Governador do Estado (L). Assim, o castanho de mais de 540 quilos, que desatou carreira ao ser enviado para Curitiba, vingou uma pule de apenas R$ 1,80 e conquistou sua 11ª vitória consecutiva, além de arrancar de seu proprietário, o animado José Luiz Ferreira da Rocha, cambalhotas no Winner’s Circle. De malas prontas para Dubai, o jovem piloto Rafael Schistl conseguia ali sua segunda vitória em clássicos no transcorrer da jornada – também estivera no dorso de Ligeiro e Corredor – e Antenor Menegolo Neto, assim como Fernando Azevedo, responsável pela apresentação do alazão mais veloz de Curitiba, comprovou a qualidade da nova safra de treinadores do Tarumã.
Então, eis que chega a hora da tão esperada corrida. Abre parênteses. Há um mês venho exercendo a função de comentarista nas transmissões do Tarumã. Sempre costumei assistir a magna prova do nosso turfe, confortavelmente na social, em meio aquele conjunto de sensações, pensamentos e emoções. Desta feita, eu estava numa cabine, junto apenas aos meus companheiros de trabalho, um tanto isolado, sem conversar com todo mundo, e mesmo assim nunca senti tão claramente tudo o que um Grande Prêmio Paraná pode gerar. Lá de cima, acompanhei minuto a minuto a multidão, na arquibancada, se aglomerar momentos antes da largada do Grande Prêmio. Lá de cima, também, pude acompanhar o desenrolar do simulcasting, páreo a páreo. E lá de cima, nem mesmo as paredes e os vidros que me separavam do resto do povo conseguiram conter minha emoção. Algo estranho, até mesmo esquisito me tomava. Uma espécie de satisfação, com uma tristeza que se aproximava com o fim do dia, transformaram o último domingo num dia mais do que especial. Fecha parênteses.
“– Atenção, foi dada a partida para o Grande Prêmio Paraná 2007...”. O alerta Edson Ruck começava a contar a história para o Brasil do que se passava em mais um capítulo do tão esperado embate. Dividia minha atenção em vigiar ao Portobelo, inscrição do meu pai na prova e que naturalmente levava minha torcida, e ao batalhão de elite que ditava o ritmo da carreira. Lá pelos 700 metros finais, quando o cavalo de nossas cocheiras dava por encerrada suas pretensões na disputa, meu foco voltou–se para Alucard, que tomava de assalto a vanguarda, numa decisão acertadíssima desse fantástico Carlos Lavor. Volto a abrir parênteses. Lembram–se de tudo o que se falava sobre o duelo Bico Blanco Vs Alucard. Pois então. Ao procurar pelo defensor do Gold Black, o que vi foi uma pule de R$ 20.20 chamada Uno Campione. Mesmo com Mário Fontoura fazendo o uso do chicote e tudo mais, Bico Blanco não rendia. Fecha parênteses.
Na abordagem do tiro direto, quando todos imaginavam que o crioulo do Haras Santarém fosse “sair tirando”, mais emoções emergiram naquela raia de areia. Ao olhar para dentro, Lavor não encontrou rivais próximos. Por fora, entretanto, o bridão carioca viu um pequenino alazão, que naquela altura se transformara num gigante, assediando–o perigosamente. O confronto percorreu a reta de chegada até os últimos 100 metros, quando por mais que João Moreira se desdobrasse no dorso de Uno Campione, Alucard livrou confortável vantagem e rumou firme para o espelho. Ao jóquei tricampeão do Grande Prêmio Brasil, conquistava ali a primeira vitória na prova máxima do Paraná, fato vem a coroar talvez sua melhor fase nos últimos 5 anos. Já para Luiz Roberto Feltran, também o responsável pelo preparo de Skypilot e Galheta, o resultado era o bicampeonato no Grande Prêmio Paraná. Muita festa para o campeão, que contando com uma ótima equipe por trás de suas performances, meteu patas a fim de conquistar o primeiro Grupo 1 de sua campanha.
O MGA, contando com as duas reuniões do fim de semana, juntamente dos arremates, ultrapassou R$ 1 milhão. Felizes desfechos dentro e fora das pistas. Muita alegria acompanhada pelos milhares de espectadores e telespectadores que vibraram com mais uma edição do Grande Prêmio Paraná.
E o melhor de tudo. Perceber que apenas um dia após a vitória de Alucard, alguns apaixonados já iniciaram sua contagem regressiva para o “Paranazão 2008”.
por Victor Corrêa