Conforme já me manifestei anteriormente, tradicionalmente um cavalo cobria até 40 éguas por estação de monta, com base em até 3 saltos/cio/égua. Era um limite para o garanhão trabalhar uma vez por dia, em todos os dias. Na prática, a estação deve começar em 15 de agosto, visando um nascimento que, se adiantado, não alcance o mês de junho. Para evitar nascimentos "tardios", muitos criadores encerravam os serviços dos garanhões em 15 de novembro, isto é, com três meses (ou 90 dias). Assim, cada égua equivalendo a 3 saltos, 40 éguas representariam 120 saltos, limite considerado razoável. Nos 90 dias havia uma margem de segurança, de 1/3 (90 saltos diários mais 30, se necesssários, no mesmo período). Fora desse período de 15 de agosto a 15 de novembro, os garanhões eram tratados como reis, e as éguas submetidas a toda sorte de exames e cuidados, principalmente as virgens e as vazias, em preparos para a próxima estação.
Os testes de Cuboni, de sapo e de toque retal foram substituídos por aparelhos de ultra–som, os prazos para detectar prenhez encurtaram, o controle dos folículos veio diminuir em muito o número de saltos. Com isso, a média de 3 saltos por égua caiu pela metade, cerca de 1,5 ; e o percentual de aproveitamento potro/égua subiu de pouco menos de 50% (em 1970) para os atuais quase 75% (em 2006).
Dessa forma, os 90 dias de coberturas, à média de 1,5 saltos/égua (em alguns haras é menos ainda), aumentaria o número limite de 40 éguas para 60. Com a devida margem de segurança, após o primeiro mês de coberturas e dependendo da prenhez já constatada, o número de 60 éguas pode subir até, quem sabe e em função das condições físicas do garanhão, para 70, 80 ou até 90 éguas. É claro que tudo isso sob rigoroso controle.
Mas é aí que vem o perigo. Há garanhões hoje para os quais são previstas, de início, até 120 (ou mais) éguas. Mesmo se contando com veterinários, remédios, aparelhos sofisticados, cuidados, controles, etc, não é de aço, é um ser vivo, não é ligado ou desligado com um simples apertar de botão. Tem que haver margem de segurança, de descanso, de repouso, não é possível um planejamento com limites exagerados. Os antigos costumavam manter, no período das montas, os seus garanhões fechados em seus boxes na quase totalidade do tempo, visando o maior repouso possível e um conseqüente maior vigor físico na cobertura. Essa prática está hoje ultrapassada, alguns haras chegam a manter sempre soltos em seus piquetes, dia e noite, os garanhões em atividade.
Prendendo ou soltando, com muita ou pouca técnica, o fato é que os cavalos têm que ser tratados, cuidados, levados a trabalhar em boas condições físicas. Não é porque um cavalo é saudável e vigoroso que ele deva ser levado à exaustão, ao cansaço demasiado, transformando um saudável ato da natureza em uma obrigação comercial.
Em minha opinião, se cuidado da melhor forma, um garanhão deveria ser programado inicialmente para um máximo de 60 éguas, e dependendo dos resultados do primeiro mês, ter o limite aumentado progressivamente para um máximo de 90 éguas.
O "complicômetro" é o aspecto comercial. A prática do "shuttle" veio intensificar o problema. Em geral, o cavalo, que já trabalhou no semestre anterior no outro hemisfério, vem quotizado em 100 partes, e como na prática o haras que sedia o garanhão tem direito a mais cinco éguas e o veterinário por ele responsável por duas, resulta que os cavalos que vêm em "shuttle" têm logo um compromisso inicial de 107 éguas. O que algumas vezes acontece é mais do que previsível, indesejadas interrupções, criando problemas para os quotistas.
Essa questão do excesso de éguas por cavalo muitas vezes bota em risco a integridade de peças, às vezes de difícil reposição.
por Milton Lodi