Após 10 anos, volta a euforia
Há muito não se via tanta ansiedade pela chegada de um fim de semana em Cidade Jardim. Claro que um Derby, carreira especialíssima nos quatro cantos do mundo e que leva grande peso por consagrar, se não o melhor valor de uma geração, no mínimo, a um categorizado produto, merece todo esse destaque. Mas querendo ou não, nossos últimos Derbies estavam mais para terceira prova da tríplice coroa do que para uma corrida que marca e consagra. O brilho adormecido nas entranhas desta magna disputa, não visto por um bom tempo, veio à tona quinze dias antes da sua realização, quando os nomes de Celtic Princess e Meu Rei figuravam entre os relacionados nas pré–inscrições do Grande Prêmio Derby Paulista 2007.
O potro do Stud Birigüi tem pinta da craque e rende feito tal. Tido em altíssima conta desde seus primeiros trabalhos, conquistou a hegemonia no GP Ipiranga O posterior triunfo no GP Jockey Club de São Paulo serviu para mostrar que sua trajetória não irá terminar tão cedo. Já a líder carioca, até o momento, encantou. Uma colocação sucinta, mas que resume o poder mesclado à leveza da defensora da Coudelaria Jéssica. Enfrentou os machos, os mais velhos, sempre portando–se com classe e impondo respeito, fazendo jus ao nome de princesa. Parte do Rio de Janeiro pronta para estender seu reinado à terra dos bandeirantes. Algo muito semelhante acontecia há uma década. A empolgação era a mesma, a categoria dos combatentes nem se fala.
Em 1997, o Derby Paulista também estava prestes a condecorar um tríplice coroado. Absoluto desde sua estréia – com um pequeno tropeço é verdade, ocorrido no GP Juliano Martins daquele ano – Quari Bravo rumava ao cobiçado título. Muitos duvidavam que o defensor do Haras Phillipson sequer passasse da milha, porém mesmo sendo filho de Punk, o tordilho aceitava com louvor o aumento da distância. Em São Paulo, seus adversários não o intimidavam e, se nenhum forasteiro aparecesse por ali, o “Furacão de Prata” era pênalti sem goleiro no desfecho da Coroa. E o tal forasteiro apareceu. Líder entre os potros na Gávea, Pavillon se aventurara até Cidade Jardim e, pelo revelado até então, com reais chances de tirar o doce da boca de Quari Bravo. Dono de um galão comprido e vigoroso, sua marca registrada, o alazão do Haras Dar–El–Salam só tinha a melhorar com o aumento da distância, fato que pesava a seu favor.
No dorso de Quari Bravo, Manoel Nunes, um jóquei que pode ser muito bem comparado a Ivaldo Santana, o encarregado a pilotar Meu Rei neste ano: Ambos “não aparecem muito para a torcida”, mas possuem altíssima eficácia e tranqüilidade na condução de seus animais. Já como piloto de Pavillon, uma lenda das pistas brasileiras, Juvenal Machado da Silva, o “Nanau”, o “Canhota Maldita”, o único pentacampeão da história do GP Brasil. Um gênio das rédeas. Tal genialidade também parece nata ao jóquei de Celtic Princess, João Moreira, o “Fantasma”. Coincidências à parte, os dois animais proporcionaram aos presentes à pelouse de Cidade Jardim naquele dia, grandes emoções. Quari Bravo dominou à carreira logo após a entrada do tiro direto, porém sua tranqüilidade só durou por alguns segundos. Isso porque Pavillon, surgiu pelo meio de pista com grande ação, sob a típica tocada de Juvenal – surrando por cima, tal como Moreira faz, investindo perigosamente sobre o tordilho favorito e candidato ao título. Porém este, encontrou reservas para resistir e, com o tempo de 2’27”1, prevalecer na disputa, tornando–se o oitavo tríplice coroado da história do turfe paulista. Devido a um choque contra o alazão Che Astaire, na altura dos 300 metros finais, Pavillon foi desclassificado do segundo para o terceiro lugar. Porém, o fato não tirou os méritos do filho de Booming, que atuava pela primeira vez “fora de casa”.
Ainda na mesma tarde, enquanto o turfe brasileiro comemorava a confirmação de um novo craque da sua criação, outro memorável animal realizava uma de suas últimas apresentações, dando noção exata ali do ciclo da vida. Quinze Quilates, cercado por inúmeros problemas locomotores àquela altura, finalizou descolocado no GP Sociedade dos Criadores e Proprietários do Cavalo de Corrida de São Paulo (Grupo II), sua antepenúltima apresentação. Depois do título, Quari Bravo foi à Argentina e, numa pista pesada e escorregadia, escoltou o excepcional Chullo, no GP Carlos Pellegrini. No ano seguinte, conquistou aos esbarros os GPs São Paulo e Brasil, já com Luiz Duarte em seu dorso. Vítima de uma laminite, o campeão não pôde ingressar na reprodução, desaparecendo precocemente. Já Pavillon, após o Derby, numa incrível demonstração de seu poderio locomotor, desceu dos 2.400 metros para a milha, em menos de 3 meses, para levar a primeira etapa da tríplice coroa carioca, o GP Estado do Rio de Janeiro (Grupo 1), em 1998, com José Ferreira dos Reis, o “Reisinho” a bordo. Posteriormente foi exportado para os Estados Unidos, onde angariou bons resultados. Hoje, presta serviços, como reprodutor, no Paraná.
Pois bem. Que o turfista brasileiro aproveite ao máximo o próximo fim de semana, que, sem a menor dúvida, irá ficar guardado em nossas memórias, não apenas pelo sensacional embate no Derby Paulista, como também pelas carreiras coadjuvantes do festival. O novo pega entre Requebra e Super Duda, a nova atuação da fantástica parelha do Stud JCM, Quick Road e Top Hat, o reaparecimento do “supersônico” Jet – até o momento o único capaz de bater a Celtic Princess –, entre outros atraentes destaques.
Em tempos de tamanha tentação das exportações, é até mesmo injusto cobrar de um proprietário brasileiro que ele mantenha um cavalo acima da média no país, competindo por prêmios baixos, e infelizmente, em alguns casos específicos, em prados onde as pistas estão mal cuidadas, surgindo, assim, a possibilidade de inutilizar um animal deste nível, dando fim, muito cedo, às imensas perspectivas depositadas no futuro da sua campanha. Mas quando a regra é contrariada, e nossos melhores animais permanecem aqui por mais tempo, através de atos heróicos e corajosos de seus donos, resta–nos aplaudir e agradecer.
E numa dessas, até mesmo rever os conceitos das corridas de cavalo no país do futebol.
por Victor Corrêa