Nos mais de cinquenta anos que já se passaram, com mil e tantos potros nascidos, com seus produtos participando de corridas pelo país afora e também no exterior, muitos casos interessantes ocorreram com o Haras Ipiranga.
Em janeiro de 1956, quando o meu pai morreu, o haras estava engatinhando. Iniciara suas atividades, em Jaguariúna, São Paulo, no ano de 1950, depois de dois anos iniciais em outro local, e em 1951 nasceram os primeiros produtos da letra "A". Em 1956 estearam os primeiros filhos de FLAMBOYANT DE FRESNAY, que veio a ser, em minha opinião, o melhor reprodutor que serviu ao Ipiranga. Essa letra "C" foi ótima e, desde logo através de seus filhos, FLAMBOYANT DE FRESNAY mostrou sua qualidade. O meu pai o comprou na França, após um aguamento que lhe achatou os cascos e forçou o encerramento de sua campanha nas pistas, tendo estreado com um 2° lugar em 1.600 metros e, em seguida, uma vitória em 2.000 metros. Ele era irmão próprio, nascido no ano anterior e que havia sido líder de geração, de PRIAM II, exportado para os Estados Unidos. O nome originário era só FLAMBOYANT, mas já havia um outro, do Haras Guanabara, registrado com esse nome. Como ele nasceu no Haras Fresnay–Le–Buffard (perto de Versailles), foi acrescentado o sobrenome de "DE FRESNAY". Pai e avô de muita classe, FLAMBOYANT DE FRESNAY foi um dos melhores egressos da criação Marcel Boussac a virem para o Brasil.
Outro garanhão foi KAMERAN KHAN, também importado pelo meu pai, e com o nome de KAMERAN. Mas já havia um outro de criação do Haras Santa Anitta com esse nome, e como era da criação Aga Khan, foi registrado como KAMERAN KHAN. Era muito manso, bonito, tinha muitas qualidades, mas não era um indivíduo de muita classe, a sua força vinha de uma excepcional linha materna. A cruza do sangue Aga Khan com o de Marcel Boussac deu ótimos resultados, além de boas produções com outras linhas.
FAIRY KING era um francês de lindo modelo. Pedigree de fundo, boa qualidade, mas inadequado para as pistas brasileiras. Tinha uma ponta de classe. Foi trocado por dois anos com PARADISO, um inglês do então Haras Castelo, da família Assumpção.
O meu pai ainda importou alguns animais da Itália. MANDELLO era um cavalo de mau temperamento, e foi comprado principalmente por ser irmão próprio de MACHERIO, um filho de ORTELLO (TEDDY), que era à época o melhor (ou um dos melhores) garanhões da Itália. No geral foi ruim, só teve um filho digno de nota, nascido de cobertura cedida a outro haras.
MINOTAURO, também filho de ORTELLO, tinha um físico possante, foi um grande ganhador na faixa de handicaps. Muitos filhos ganhadores, corretos, sadios, mereceu ser importado, principalmente por ter sido pai de duas ótimas potrancas, DERAH e DE TROIA. DESTINO era bonito, de bom físico, sólido, e que teve uma campanha cigana. Percorreu a Itália ganhando as principais provas do interior, correu mais de 70 vezes e ganhou 47. Não foi um reprodutor da faixa clássica, mas seus filhos eram sólidos, consistentes e de boa aceleração. FOUR HILLS chegou ao Brasil com menos de um ano de idade. Era um tordilho grande, milheiro por excelência. Muito bom ganhador, e pai dentre outros bons de duas potrancas, nascidas no mesmo ano, e que foram ganhadoras das seleções de potrancas na Gávea (FAUSTINA) e Cidade Jardim (FIORELLINA).
Eu só importei dois garanhões. Um de sociedade com o Haras Pirassununga, o BATTLE PLAN, dos Estados Unidos. Ótimo pedigree para a época, campanha razoável, físico correto, tinha por finalidade dar um "refresco" de sangue não–francês, nem inglês, nem italiano. Iniciou–se com poucas éguas, e sua morte prematura, após três estações de monta, impediram um eventual bom resultado.
Depois importei o TAKT, cavalo alemão com campanha na Áustria, onde foi ganhador do Derby. Físico longilíneo, quebrara um pé, e não foi sacrificado pela misericórdia de um veterinário. À época não havia como operá–lo e TAKT foi mantido deitado por quase um ano. Ficou com o pé esquerdo um pouco deformado, mas andava, trotava e até galopava. Ótima saúde, com os sangues do Ipiranga foi muito bem, e pode ser considerado, com FLAMBOYANT DE FRESNAY e KAMERAN KHAN, o que de melhor importado veio para o haras.
Eu me utilizei de alguns cavalos nacionais, e também de importados por outros criadores. Fiquei com PARADISO, um inglês, por duas temporadas em troca de cessão de FAIRY KING. Era um lindo alazão, de produção de médio padrão, mas que participou da "construção" do pedigree do GOURMET, ganhador do Grande Prêmio Brasil. BLENERAN foi outra tentativa, um irmão materno de SEVENTH WONDER. Nada produziu de melhor, só ganhadores comuns. RED CROSS, outro arrendado, nada deu de especial.
Hoje em dia, e já de algum tempo, o regime do "shuttle" ampliou em muito as chances de acesso aos melhores sangues do mundo. Os haras brasileiros têm se beneficiado com essa prática. Mas antigamente não havia o tal "shuttle", nem mesmo se praticava a venda ou troca de coberturas, cada grande haras importava os seus.
Vamos observar o que se passou em três dos melhores haras brasileiros de todos os tempos.
O Haras Mondesir foi um celeiro para os outros haras. Garanhões e éguas vieram da Europa por anos a fio, e os outros haras se beneficiavam, como meros exemplos e só para ilustrar, o Haras Ipiranga com XADREZ e o Haras Patente com XAVECO. Sem qualquer preocupação de ordem, o Mondesir foi o responsável pela vinda de KING SALMON, GHADEER, SWALLOW TAIL, SAYANI, ROYAL DANCER, WALDMEISTER, ST. CHAD, VAGABOND ll, WILDERER, ALBERIGO, e outros "menos votados", como LEGEND OF FRANCE, SAVARAN, MAT DE COCAGNE, NALANDA, FANATIQUE, SKY LIGHTER etc.
O Haras Guanabara costumava enviar suas mais pretensiosas éguas para serem cobertas na França, na Inglaterra, na Irlanda, na Argentina; coberturas pagas a peso de ouro. Importou HUNTER’S MOON, FELICITATION, ROYAL FOREST, ORSENIGO, e outros, como BALA HISSAR, COBALT e PINTOR LEA.
O mais tradicional dos haras, o São José e Expedictus, teve em minha opinião a "espinha dorsal" constituída por FORMASTERUS, FORT NAPOLEON e FELÍCIO, bem coadjuvados por TOMY ll, BLACKAMOOR, MARANTA, com uma participação menos importante de FASTNER, HIGH SHERIFF e FALKLAND. Os italianos ALIPIO, CHIO e HASELTINE, embora com esporádicos brilhos, o inglês CANTERBURY e o francês DRAGON BLANC não precisavam ter vindo. Mais recentemente, a importação de KNOW HEIGHTS veio engrandecer ainda mais o haras.
A não ser que importem, os haras menores têm que se abastecer dos haras maiores. O Guanabara exportou muito e não deixou tudo que gostaria. O Mondesir e o São José e Expedictus foram os grandes celeiros, e por que não dizer, o Ipiranga também ocupa um espaço.
Dos haras antigos, dos que fizeram história, alguns outros poderiam ser lembrados, como o Faxina e o São Bernardo. Dos mais modernos, dentro do enfoque deste artigo, o Santa Maria de Araras e o Santa Ana do Rio Grande.
por Milton Lodi