Um dos problemas habituais que ocorrem quando do início da campanha da nova geração é a chamada "dor–de–canela". Ela pode advir decorrente, em princípio, de trabalhos fortes demais antes dos devidos tempos, na habitual pressa para estrear ou na repetição de trabalhos inadequados visando um aprimoramento maior no "estado". Outra causa, que pode vir sozinha ou concomitante com os exercícios exagerados, é o desequilíbrio da estrutura óssea do potro, em função de pastagens carentes e falta de um adequado acompanhamento veterinário.
A dor–de–canela pode ser conseqüência de uma simples periostite, que é a inflamação do periósteo (parte externa do osso) ou de fissuras ou fraturas ósseas.
O tratamento habitual, no caso da periostite, é "queimar" as canelas com um irritante, um revulsivo, que vai da "ponta de fogo" até ao "bloqueamento", e deixar o potro parado de um a dois meses. Em minha ótica pessoal, resolve–se o problema com dois meses sem trabalhos e um terceiro mês só nadando.
Nesse tempo de interrupção dos trabalhos de pistas, um veterinário competente deve determinar um aditivo às rações, procurando, através da mineralização, corrigir um desequilíbrio que eventualmente é decorrente de solos carentes quando da criação nos haras.
É bom lembrar que de uns tantos anos para cá, os principais criadores da zona de Bagé, adubam anualmente por cobertura as suas pastagens, que ficam assim sempre em condições adequadas. Em São Paulo, por exemplo, há necessidade de um trabalho diferente, pois a terra é inferior, e necessita, a cada 4 ou 5 anos, de aração, calagem e adubação tradicional (o arado revolvendo a terra em cerca de 20 ou 25 centímetros). Isso além de adubação anual por cobertura.
Hoje em dia há rações balanceadas apropriadas para recuperações físicas de um modo geral, e específicas como, por exemplo, visando o fortalecimento da ossatura.
Para tentar evitar as dores–de–canela, é de bom alvitre um tratamento de adequação física ao esforço que se vai propor ao potro. Sem pressa, fazê–lo trotar no desejo de queimar as gorduras supérfluas e preparar o "motor" para o estágio dos galopes, galopar nos dois sentidos para não forçar mais uma diagonal que a outra, com as caminhadas, trotes e galopes procurar desenvolver a musculatura como um todo, dando um "suporte" que vai receber parte da carga que recairá naturalmente sobre a ossatura, com seus fortes impactos.
A parte aeróbica do treinamento, aquela que visa a respiração, o cansaço, a resistência, pode ser feita em andaduras alternadas procurando "abrir" os pulmões sem cansar demais, apenas o mínimo indispensável.
A parte anaeróbica do treinamento, a das "partidas", das acelerações, procurando a necessária rapidez, competitividade, aguerrimento, isso tem que ser imposto ao potro sem agressividade, aumentando a carga de trabalho e de esforço dentro de racional limite, conseqüente da observação e do bom senso.
Cavalo não é máquina, e mesmo essas quebram.
por Milton Lodi