Iniciação (Milton Lodi)
Através dos anos já se escreveu bastante
sobre o "massacre" a que são submetidos muitos dos potros de 2 anos, mas, por mais que o assunto já
tenha sido ventilado e aos poucos na prática evoluído, ainda está o turfe brasileiro, dentre outros, carecendo de
cuidados nesse particular.
Antigamente o cavalo brasileiro era basicamente criado no Rio Grande do Sul
e no Paraná em regime de soltura, pouca ou nenhuma ração durante a maior parte do período da criação, e era
mandado aos hipódromos para começar a receber o bridão e as rédeas, a fazer os cascos e ser ferrado, a ser
escovado diariamente, e ainda para a doma. Em São Paulo, o sistema era menos agreste, pois os haras dispunham de
áreas menores e com pastaria menos qualitativa e volumosa que no Sul, o que obrigava uma alimentação paralela no
cocho, provocando manuseio, maior contacto físico do homem com o cavalo. Mas no que dizia respeito à chegada nos
hipódromos, a barbárie imperava; as "meninas" e os "meninos", que recém–haviam saído da
liberdade e da natureza, eram encocheirados em regime direto e submetidos à doma. Esse é um capítulo triste da
história da vida do cavalo de corrida brasileiro, que, entregue pelo treinador a um peão e normalmente mais um
ajudante, em cerca de um mês era transformado de um animal–criança livre em um escravo, à força, sob castigo. Mas
os bons exemplos frutificavam, as novas técnicas foram chegando, o bom senso foi prevalecendo, e embora a
brutalidade ainda não esteja abolida, o problema é bem menor; hoje a necessária doma é bem mais suave,
inteligente, racional.
Com o correr dos anos a maneira de criar foi se alterando em todas as regiões
brasileiras; os que criavam muito soltos passaram a ter mais contacto com os potros, os outros fazendo o
contrário, isto é, dando maior tempo de soltura.
Pode–se dizer que a maioria dos haras brasileiros
ainda oferece a sua mercadoria não domada, e me arrisco a afirmar que muitos nem com trabalhos de picadeiro (onde
se inicia uma disciplina de trabalho e um princípio de musculação, de estímulo ao aparelho respiratório). No
Brasil a época de leilões de potros é de janeiro a setembro, e há páreos para eles normalmente a partir de janeiro
do ano seguinte. Muitos proprietários têm pressa de estrear e os treinadores nem sempre explicam que na verdade
não é esse o melhor caminho, e tratam de "apertar" os trabalhos.
Os haras gaúchos que não na
periferia de Porto Alegre, os de Bagé, por exemplo, e dentre outros, oferecem aos seus potros um espaço amplo,
piquetes grandes e com boa pastaria, dando oportunidade a um desenvolvimento físico mais adequado ao desejado
atleta. Além disso, há ainda aqueles criadores brasileiros que hoje fazem uma doma calma, sem pressa, repetida,
sem violência, calculada, progressiva, induzindo o potro a entender o que dele se deseja e não o obrigando à força
sob castigo. Quando esses potros chegam aos hipódromos, depois de meses de trabalhos em picadeiros e de doma,
mansos e acostumados a obedecer e trabalhar sob as ordens do homem, sem traumas nem problemas para os primeiros
galopes nas pistas e venda, em leilão ou não, proporcionam facilidades para um treinamento com menores riscos,
mais produtivos, e assim abreviando naturalmente o tempo para a estréia.
Exagerando apenas para
enfatizar, um potro ao completar 2 anos de idade é rapidamente domado no hipódromo (em cerca de um mês), galopa
durante mais um ou dois meses, e aí começam as "partidas", indiscriminadamente os de tipos e de
linhagens diferentes, precoces ou tardios; como raciocínio evidente, o resultado não pode ser o melhor. As cores
fortes com que pintei esse quadro, do que ocorre com os nossos potros de 2 anos, não é um total exagero da minha
parte. Acresce ainda o fato de que no Brasil o clima permite uma programação ininterrupta, e os bons animais são
os que mais sofrem com isso, pois muitos proprietários se esquecem de que o cavalo acaba e os páreos não; já houve
quem dissesse com certa dose de exagero mas não com menos sabedoria que "nem sempre há motivos para correr,
mas sempre há motivos para não correr".
Um potro desde a iniciação tendo por meta correr logo e
fazer campanha; como o trato não é barato, para a maioria dos responsáveis nem pensar em parar, e a hora do
descanso só vem quando surge um problema físico ou a incapacidade total de ganhar prêmios. Positivamente, isso não
é racional; não seria melhor dar um descanso antes das eventuais lesões, assim em muitos casos evitando–as, em
lugar de seguir forçando sempre até acontecer alguma coisa ruim?
Um antigo criador paranaense de
grandes resultados em sua época, Carlos Dieztch, levava os seus potros de 2 anos para o hipódromo e os preparava
para correr, mas quando prontos para inscrição, retornavam ao haras inéditos, para se refazerem da doma e dos
primeiros esforços dos trabalhos de pista; e quando voltavam para o hipódromo, obtinham ótimos resultados.
Nos Estados Unidos os potros vão a leilão com idade aproximadamente de 18 meses (yearlings); como eles
só vão correr com 2 anos, isto é, quase daí a meio ano, têm tempo para serem levados para os centros de
treinamento ou semelhantes para um início calmo e racional, sem pressa, que permite doma bem feita, profissional;
os que já viram corridas nos Estados Unidos, pessoalmente ou através de filmes, sabem com que facilidade os
animais enfrentam o partidor, por exemplo, sem se negarem, sem problemas, de modo natural. E mesmo assim, com o
hábito do treinador médio norte–americano de trabalhar os animais tendo o "relógio" como guia, e
procurando satisfazer o proprietário no desejo de tentar ressarcir com brevidade o valor do seu investimento
(preço da compra, custo da doma e da iniciação, trato de cerca de meio ano), boa parcela da potrada não agüenta e
não chega a estrear.
Marcel Boussac, possivelmente o criador que diz a história, conseguiu o melhor
conjunto de resultados dentre aqueles da criação francesa, costumava respeitar as indicações dos pedigrees (como
fazem os realmente grandes em todo o mundo), começando com os mais precoces e aguardando com os tardios. Era
hábito dele inicialmente fazer correr os seus potros no hipódromo de Maisons–Laffitte, que não de primeira
categoria, para testar, para "sentir" as qualidades, e aqueles que demonstravam pelo menos uma
"ponta" de classe, boa aptidão, interrompiam o início da campanha nas pistas para aguardar o momento
certo para irem aos melhores hipódromos visando as melhores provas. Aqueles que não davam a entender um futuro
promissor mesmo sendo testados em distâncias adequadas aos seus pedigrees, esses sim iniciavam a campanha, eram
inscritos. Como curiosidade, vou contar como o cavalo FLAMBOYANT DE FRESNAY veio para o Brasil e porque não foi
surpresa ter–se tornado um garanhão de alta classe. Ele era um lindo cavalo, com fantástico pedigree. Boussac
estreou FLAMBOAYANT (como se chamava à época) em Maison–Laffitte em 1.600 metros, tendo obtido um bom 2° lugar; um
mês depois correu em 2.000 metros, vencendo bem e mostrando ótima categoria (os jornais diziam que era uma das
maiores esperanças de Boussac). Dentro da linha de conduta, da linha estabelecida, o cavalo saiu do treinamento de
corridas; mas adveio o infortúnio, FLAMBOYANT teve forte aguamento, que deformou seus cascos dianteiros, perdendo
a contextura; ficou impossibilitado de correr. O meu pai soube do caso, percebeu o futuro de um cavalo daqueles no
Brasil, e o comprou. Como aqui já havia outro com o mesmo nome, foi acrescentado "de Fresnay"
(Flamboyant havia nascido no haras de Marcel Boussac em Fresnay–Le–Buffard). Foi um reprodutor da maior qualidade,
apesar de durante toda a sua vida periodicamente sofrer com crises de aguamento, que eram resolvidas com sangrias
e remédios; era um problema individual dele, nunca transmitiu nada nesse sentido. Boussac mais uma vez teve
comprovada a sua tese, de experimentar para aferir as qualidades; a retirada de Flamboyant de Fresnay dos
trabalhos para correr, logo após a sua segunda apresentação em hipódromo menor, era o seu entendimento que o
cavalo tinha futuro, merecia ser guardado para o momento certo, tinha categoria, tinha classe, era bom.
Sem um bom início, é difícil fazer–se um bom cavalo. A paciência é uma das mais necessárias virtudes
aos bons homens de cavalo.
por Milton Lodi