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Setembro | 2007

Iniciação, por Milton Lodi
25/09/2007 - 17h48min

Iniciação (Milton Lodi)

Através dos anos já se escreveu bastante sobre o "massacre" a que são submetidos muitos dos potros de 2 anos, mas, por mais que o assunto já tenha sido ventilado e aos poucos na prática evoluído, ainda está o turfe brasileiro, dentre outros, carecendo de cuidados nesse particular.

Antigamente o cavalo brasileiro era basicamente criado no Rio Grande do Sul e no Paraná em regime de soltura, pouca ou nenhuma ração durante a maior parte do período da criação, e era mandado aos hipódromos para começar a receber o bridão e as rédeas, a fazer os cascos e ser ferrado, a ser escovado diariamente, e ainda para a doma. Em São Paulo, o sistema era menos agreste, pois os haras dispunham de áreas menores e com pastaria menos qualitativa e volumosa que no Sul, o que obrigava uma alimentação paralela no cocho, provocando manuseio, maior contacto físico do homem com o cavalo. Mas no que dizia respeito à chegada nos hipódromos, a barbárie imperava; as "meninas" e os "meninos", que recém–haviam saído da liberdade e da natureza, eram encocheirados em regime direto e submetidos à doma. Esse é um capítulo triste da história da vida do cavalo de corrida brasileiro, que, entregue pelo treinador a um peão e normalmente mais um ajudante, em cerca de um mês era transformado de um animal–criança livre em um escravo, à força, sob castigo. Mas os bons exemplos frutificavam, as novas técnicas foram chegando, o bom senso foi prevalecendo, e embora a brutalidade ainda não esteja abolida, o problema é bem menor; hoje a necessária doma é bem mais suave, inteligente, racional.

Com o correr dos anos a maneira de criar foi se alterando em todas as regiões brasileiras; os que criavam muito soltos passaram a ter mais contacto com os potros, os outros fazendo o contrário, isto é, dando maior tempo de soltura.

Pode–se dizer que a maioria dos haras brasileiros ainda oferece a sua mercadoria não domada, e me arrisco a afirmar que muitos nem com trabalhos de picadeiro (onde se inicia uma disciplina de trabalho e um princípio de musculação, de estímulo ao aparelho respiratório). No Brasil a época de leilões de potros é de janeiro a setembro, e há páreos para eles normalmente a partir de janeiro do ano seguinte. Muitos proprietários têm pressa de estrear e os treinadores nem sempre explicam que na verdade não é esse o melhor caminho, e tratam de "apertar" os trabalhos.

Os haras gaúchos que não na periferia de Porto Alegre, os de Bagé, por exemplo, e dentre outros, oferecem aos seus potros um espaço amplo, piquetes grandes e com boa pastaria, dando oportunidade a um desenvolvimento físico mais adequado ao desejado atleta. Além disso, há ainda aqueles criadores brasileiros que hoje fazem uma doma calma, sem pressa, repetida, sem violência, calculada, progressiva, induzindo o potro a entender o que dele se deseja e não o obrigando à força sob castigo. Quando esses potros chegam aos hipódromos, depois de meses de trabalhos em picadeiros e de doma, mansos e acostumados a obedecer e trabalhar sob as ordens do homem, sem traumas nem problemas para os primeiros galopes nas pistas e venda, em leilão ou não, proporcionam facilidades para um treinamento com menores riscos, mais produtivos, e assim abreviando naturalmente o tempo para a estréia.

Exagerando apenas para enfatizar, um potro ao completar 2 anos de idade é rapidamente domado no hipódromo (em cerca de um mês), galopa durante mais um ou dois meses, e aí começam as "partidas", indiscriminadamente os de tipos e de linhagens diferentes, precoces ou tardios; como raciocínio evidente, o resultado não pode ser o melhor. As cores fortes com que pintei esse quadro, do que ocorre com os nossos potros de 2 anos, não é um total exagero da minha parte. Acresce ainda o fato de que no Brasil o clima permite uma programação ininterrupta, e os bons animais são os que mais sofrem com isso, pois muitos proprietários se esquecem de que o cavalo acaba e os páreos não; já houve quem dissesse com certa dose de exagero mas não com menos sabedoria que "nem sempre há motivos para correr, mas sempre há motivos para não correr".

Um potro desde a iniciação tendo por meta correr logo e fazer campanha; como o trato não é barato, para a maioria dos responsáveis nem pensar em parar, e a hora do descanso só vem quando surge um problema físico ou a incapacidade total de ganhar prêmios. Positivamente, isso não é racional; não seria melhor dar um descanso antes das eventuais lesões, assim em muitos casos evitando–as, em lugar de seguir forçando sempre até acontecer alguma coisa ruim?

Um antigo criador paranaense de grandes resultados em sua época, Carlos Dieztch, levava os seus potros de 2 anos para o hipódromo e os preparava para correr, mas quando prontos para inscrição, retornavam ao haras inéditos, para se refazerem da doma e dos primeiros esforços dos trabalhos de pista; e quando voltavam para o hipódromo, obtinham ótimos resultados.

Nos Estados Unidos os potros vão a leilão com idade aproximadamente de 18 meses (yearlings); como eles só vão correr com 2 anos, isto é, quase daí a meio ano, têm tempo para serem levados para os centros de treinamento ou semelhantes para um início calmo e racional, sem pressa, que permite doma bem feita, profissional; os que já viram corridas nos Estados Unidos, pessoalmente ou através de filmes, sabem com que facilidade os animais enfrentam o partidor, por exemplo, sem se negarem, sem problemas, de modo natural. E mesmo assim, com o hábito do treinador médio norte–americano de trabalhar os animais tendo o "relógio" como guia, e procurando satisfazer o proprietário no desejo de tentar ressarcir com brevidade o valor do seu investimento (preço da compra, custo da doma e da iniciação, trato de cerca de meio ano), boa parcela da potrada não agüenta e não chega a estrear.

Marcel Boussac, possivelmente o criador que diz a história, conseguiu o melhor conjunto de resultados dentre aqueles da criação francesa, costumava respeitar as indicações dos pedigrees (como fazem os realmente grandes em todo o mundo), começando com os mais precoces e aguardando com os tardios. Era hábito dele inicialmente fazer correr os seus potros no hipódromo de Maisons–Laffitte, que não de primeira categoria, para testar, para "sentir" as qualidades, e aqueles que demonstravam pelo menos uma "ponta" de classe, boa aptidão, interrompiam o início da campanha nas pistas para aguardar o momento certo para irem aos melhores hipódromos visando as melhores provas. Aqueles que não davam a entender um futuro promissor mesmo sendo testados em distâncias adequadas aos seus pedigrees, esses sim iniciavam a campanha, eram inscritos. Como curiosidade, vou contar como o cavalo FLAMBOYANT DE FRESNAY veio para o Brasil e porque não foi surpresa ter–se tornado um garanhão de alta classe. Ele era um lindo cavalo, com fantástico pedigree. Boussac estreou FLAMBOAYANT (como se chamava à época) em Maison–Laffitte em 1.600 metros, tendo obtido um bom 2° lugar; um mês depois correu em 2.000 metros, vencendo bem e mostrando ótima categoria (os jornais diziam que era uma das maiores esperanças de Boussac). Dentro da linha de conduta, da linha estabelecida, o cavalo saiu do treinamento de corridas; mas adveio o infortúnio, FLAMBOYANT teve forte aguamento, que deformou seus cascos dianteiros, perdendo a contextura; ficou impossibilitado de correr. O meu pai soube do caso, percebeu o futuro de um cavalo daqueles no Brasil, e o comprou. Como aqui já havia outro com o mesmo nome, foi acrescentado "de Fresnay" (Flamboyant havia nascido no haras de Marcel Boussac em Fresnay–Le–Buffard). Foi um reprodutor da maior qualidade, apesar de durante toda a sua vida periodicamente sofrer com crises de aguamento, que eram resolvidas com sangrias e remédios; era um problema individual dele, nunca transmitiu nada nesse sentido. Boussac mais uma vez teve comprovada a sua tese, de experimentar para aferir as qualidades; a retirada de Flamboyant de Fresnay dos trabalhos para correr, logo após a sua segunda apresentação em hipódromo menor, era o seu entendimento que o cavalo tinha futuro, merecia ser guardado para o momento certo, tinha categoria, tinha classe, era bom.

Sem um bom início, é difícil fazer–se um bom cavalo. A paciência é uma das mais necessárias virtudes aos bons homens de cavalo.

por Milton Lodi



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