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Setembro | 2007

Dosagem Máxima, por Victor Corrêa
20/09/2007 - 11h09min

                  &n bsp;                  &n bsp;  Dosagem Máxima

Medicamentos. Uma questão à parte na história do turfe, que divide opiniões, e é sempre um bom motivo para discussões. É comum escutar de algum turfista, ainda com as pules na mão após o término de um páreo, algo como “pois é... esses aí estão com a ‘gasolina’ do momento.” Há quem diga que “algumas picadas” dão “perna” pra bicho sim; já outros argumentam que a eficácia pelo uso de remédios, além de não fazer mágica, põe em cheque toda a futura campanha do corredor. É um mar de controvérsias, de crenças e lendas, que podem até não ter embasamento científico ou algo do gênero, mas contribuem em muito para o lado folclórico do turfe.

Bem, há mais ou menos vinte e cinco anos, um treinador radicado em Cidade Jardim, resolveu enviar uma égua a um grande amigo seu, este exercendo a mesma profissão, só que no Tarumã. Era uma pequena castanha, sem muita graça, mas que “pegava” enturmações muito fracas em Curitiba. Junto dela, veio uma grande caixa de papelão. Dentro havia uma porção de ampolas com seus rótulos raspados e um pequeno pedaço de papel rasgado: a receita. Nesta, constavam as seguintes instruções: “Caro Miguel: na semana da corrida, aplicar três doses, em dias alternados.” O treinador então passou todo o embrulho para seu segundo gerente, que tratou de guardá–lo num canto da farmácia. 

Passou o tempo, e lá estava a dita égua pronta para estrear. O páreo saiu vazio, com apenas alguns adversários fracos. “Seu” Miguel e o segundo gerente Paulo, então, chegaram a um consenso de que não haveria nem a necessidade da aplicação dos tais remédios. E assim foi na primeira, na segunda e na terceira corrida da égua, todas vitoriosas. Na quarta, o páreo encardiu. 

– Paulo, venha cá.

– Pois não “Seu” Miguel?

– Veja bem, ela ganhou três a fio, fizemos nossa parte, mas agora ela precisa de uma ajudinha, pensou – e nós não vamos mexer naquela caixa.

– Ah, com certeza. Em time que está ganhando não se mexe – “mas bem que agora ela precisa de uma ajudinha”, pensou calado! 

As corridas naquele tempo no Tarumã eram aos domingos. Então, seu Miguel, muito cautelosamente, quando o Paulo saía para comprar cigarro, lá pelas 6 da tarde, recorria aos misteriosos remédios e fazia o aplique. Seguiu a receita de seu amigo à risca. Deu uma dose na segunda–feira, outra na quarta e, para completar, a última, na sexta. Tudo nos conformes. Quando Paulo retornava à cocheira, seu Miguel se despedia e rumava para casa. O segundo gerente então, sem hesitar, logo pegava um pedaço de algodão e ia para o ataque. Não iria fazer mal. Raciocinava da seguinte forma: eram três doses para surtir efeito completo e, mesmo assim, se desse tudo certo, não iria aparecer “mancha” alguma no exame. Dessa forma, duas doses seriam apenas a tal “ajudinha”, algo inofensivo.

O domingo ia chegando. Tanto Miguel quanto Paulo estavam começando a ficar animados com a história. A égua, sempre mansa, vinha fazendo muita força e apresentando grande disposição nos galopes matinais durante a semana. No dia da carreira então, nem se fala. A bicha tava “tinindo”. Destacava–se no paddock. Seu jóquei habitual já sabia como conduzi–la. Mas, “Seu” Miguel recomendava: 

– Largue e apoie. Corre ela ali por quinto, sexto. Só comece a convidá–la lá pelos oitocentos finais. Quando entrar a reta final, “passe o bambu”, pra ver se a gente consegue tirar um terceirinho no meio dessa cavalhada.

Dada a partida, a égüinha, que a vida inteira correu acomodada, desta feita largou e tomou a canastra. Lá por cima, sempre com três corpos à frente do segundo, e na reta, quando castigada no chicote, só fez aumentar a diferença. Miguel e Paulo se cumprimentaram, ambos com uma risadinha suspeita escondida entre os lábios. Poucas palavras trocadas após o triunfo e apenas uma certeza: “é: o negócio é bom mesmo!”.

Passam–se quinze dias da prova, e Miguel é chamado pela Comissão de Corridas. Um frio na espinha percorreu ao treinador. E não deu outra. Anormalidades na urina da égua foram apontadas no exame antidoping. Além da desclassificação do primeiro lugar, sessenta dias de suspensão para o treinador. Chegando à cocheira, Miguel chama Paulo.

– Guri, precisamos conversar. Venha aqui no escritório, faz favor.

Com o coração na boca, lá foi o fiel segundo gerente, pronto para o ferro quente. 

– Escuta. Me chamaram lá – diz com os olhos focados nos de Paulo – porque pegaram nossa égua no doping. Somente duas pessoas têm acesso àquela caixa: eu e você. Seja franco, você...

– Não “seu” Miguel, pelo amor de Deus, longe de mim – rebate Paulo desesperado – eu não faria isso. Eu não mediquei a égua.

– Você tem certeza disso?

– Absoluta.

– Mas... meu guri –  suspira o experiente profissional de cabeça baixa – não tenho razão para lhe esconder o jogo. Segui as recomendações daquele papel. Dei na segunda–feira, na quarta e na sexta da corrida...

– ... E eu na terça e na quinta!

– Ah seu pilantra !!!

Então Paulo teve de se mexer e baixar de 12s nos 200 para escapar do patrão, perseguição que se estendeu por boa parte da vila hípica.

por Victor Corrêa



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