Em
assuntos de turfe, dizem os antigos: "para errar basta abrir a boca". Por isso, quem quer falar que o
faça de maneira comedida, guardando o eventual entusiasmo dentro do peito e falar de modo equilibrado, prudente,
diminuindo as chances de um eventual grande erro. Nada se pode dizer de super–cavalos que infelizmente
mostraram–se inférteis, como FARWELL, GUALICHO e NARVIK. Mas grandes esperanças foram depositadas em FALCON JET e
em FLYING FINN, dois excelentes corredores que não se destacaram nas alturas como se imaginava.
Ao
FLYING FINN foram dadas éguas que, em média, estavam muito aquém do padrão necessário a uma produção clássica. Eu
pessoalmente não acho graça no FLYING FINN como garanhão, embora reconheça a baixa qualidade média das éguas que
lhe foram oferecidas.
FALCON JET é um caso diferente. Fisicamente, ele era um privilegiado, sua
autópsia mostrou um coração maior do que se imaginava, que bombeava grande quantidade de sangue por veias de
enorme calibre, verdadeira máquina de gerar energias. Como corredor, lutava como poucos, era forte e resistente,
um verdadeiro gigante nas competições. A palavra mais adequada para definir FALCON JET é "gladiador".
FALCON JET, assim como outros, por exemplo HELÍACO, PROSPER, RABAT e muitos outros que também serviram de
exemplos, foram prejudicados por motivos semelhantes.
FALCON JET foi reprodutor no haras em que nasceu,
assim como HELÍACO, PROSPER e RABAT (dos citados). Em seus próprios haras, a consangüinidade impedia o total
aproveitamento nas melhores éguas. HELÍACO, por exemplo, nasceu em conseqüência de cruzas racionais, baseadas em
seqüências de sucessos, e o seu aproveitamento era impedido pelas melhores éguas do plantel, todas resultantes do
mesmo processo pedigrístico criacional, e ao HELÍACO se destinavam aquelas que eram possíveis, fora do
"miolo", da base. Quando HELÍACO foi aproveitado em éguas importadas da Europa, quer dizer, fora dos
sangues tradicionais, mostrou–se garanhão clássico.
PROSPER e RABAT não tiveram a chance oferecida a
HELÍACO e ficaram a desejar no padrão clássico. O caso do DEVON ainda foi pior, pois boas ofertas foram recusadas,
para levá–lo para a reprodução após o seu prematuro encerramento da campanha nas pistas. Todas as propostas
recusadas, e como o pedigree dele impedia a sua utilização no próprio haras, simplesmente ficou de fora. Houve ano
de cobrir uma égua, houve ano de não cobrir nenhuma.
Essas e outras observações do meu amigo e hipólogo
Bertrand Joachim Kauffmann, que ainda lembrou da natural preferência dos haras pelos seus então garanhões–chefes,
levam a um raciocínio evidente. Uma troca anual entre os haras de melhor quantidade e qualidade, ensejando o maior
aproveitamento daqueles garanhões, de grande valor intrínseco mas, na prática, sem as merecidas oportunidades.
Como raciocínio, apenas para exemplificar, o Haras Santa Ana do Rio Grande não poderia deixar de
favorecer o campeão ROI NORMAND. O Haras São José não poderia preterir FORT NAPOLEON para ajudar DEVON ou
FORMASTERUS para um eventual brilho do HELÍACO, o Haras Faxina em relação a RABAT, e assim por diante. Mas uma
troca anual, equilibrada, justa, boa para todos, isso seria de muita eficácia geral.
É claro que esse
raciocínio, essa idéia, esbarraria na vaidade de cada um, na natural super–valorização de seu próprio animal, em
coisas desse tipo. Mas a evidência do benefício, o "refresco" no plantel, o alargamento das
possibilidades de cruzas, uma série de detalhes viria coroar um necessário espírito esportivo.
Imagine–se, como mero exemplo, por um ano, PROSPER no Haras São José, HELÍACO no Santa Ana, FALCON JET
no Faxina e RABAT no Mondesir, cobrindo pelo menos dez ou vinte éguas cada um, e no ano seguinte nova troca, e no
outro, outra vez. Seria para todos uma linda amostragem das reais qualidades de cada um dos
"injustiçados".
Houve época em que eu imaginei um "Leilão de Arrendamento de
Garanhões", como início de um processo de experimentação de novos garanhões em outros haras, mas o momento
não era propício.
Passando de raciocínios lógicos mas voltados para nomes do passado, vou abrir a boca
para arriscar a errar, mas talvez prognosticar um sucesso.
Um dos cavalos mais promissores, entre
aqueles que nessa estação de monta de 2007 se iniciam, figura um dos corredores que mais me impressionaram nos
últimos tempos. Refiro–me a DURBAN THUNDER, um filho de ROYAL ACADEMY. Um corredor impressionante, de físico
poderoso, que corria e ganhava sem dar chances para os adversários.
O pai de DURBAN THUNDER foi dos
melhores garanhões que vieram ao Brasil no sistema de "shuttle". A linha materna já mostra uma
super–égua clássica. O avô materno é o "número um" de todos os tempos.
Turfe não é
matemática, mas quando dá certo, os ganhos gerais são enormes.
Outros nomes pretensiosos, entre aqueles
que se iniciam, poderiam ser lembrados (AY CARAMBA seria um deles), mas a figura maior fica mesmo com DURBAN
THUNDER.
Eu estou achando que abrir a boca para falar do DURBAN THUNDER não vai dar
arrependimento.
por Milton Lodi